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Velho coração bobo continua batendo

05-06-2008

Alceu Valença: show na Praia de Copacabana, com Geraldo Azevedo

João Pimentel

   Alceu Valença chega amanhã de Olinda para o show que vai fazer no domingo, às 20h, na Praia de Copacabana, com Geraldo Azevedo. Esta será apenas uma breve interrupção nas suas merecidas férias. Depois de lançar o CD e o DVD do show "Ao vivo em todos os sentidos", os primeiros pela gravadora Indie, de estourar nas rádios com "Amor covarde", e de voltar a ter boas vendagens, ele se prepara para a estréia como diretor de cinema em "Cordel virtual", com co-direção de Walter Carvalho.

   Mas Alceu não é de ficar parado. Então ele aproveita as férias para participar do Carnaval das Ilusões, em Recife, festa que acontece na semana que vem e prima por se basear em frevos e maracatus, na contramão dos trios baianos que proliferam pelo país. E mais, aos 57 anos, ele vai se casar com Yamê, sua companheira de longa data.

O atual hit, "Amor covarde", foi lançado há 18 anos

   Mesmo fazendo tantas coisas ao mesmo tempo, Alceu não perde seu jeito "bicho maluco beleza" de ser. Ao atender o telefone, em Olinda, ele anuncia que vai se casar. A pergunta é óbvia: quando?

   - Não sei se no dia 17 de fevereiro ou 12 de março. Mas não vai ser na igreja, pois já me casei antes. Vai ser só festa, que é o melhor - diz Alceu.

   De volta às paradas com "Amor covarde", música já gravada em 1986, no disco "Rubi", e que passou em branco, ele diz que não se ilude com números, com sucesso ou com qualquer coisa do tipo:

   - Você já me viu falando em números? Fazendo contas? Isso não é compatível com o artista. Essa música, "Amor covarde", por exemplo, foi feita e gravada no período em que ouvi do pessoal da gravadora que eu estava "cantando sem lágrimas". Que eu fazia música para intelectual - conta. - Mas minha música tocava nos grotões, onde a divulgação sequer existia.

   Mesmo assim ele diz que sempre vendeu bem. E Alceu tem razão. Com mais de 300 músicas no baú, ele pode se orgulhar de ter um público cativo onde quer que vá, e seus discos, pelo menos até o advento da pirataria, quase sempre bateram os cem mil necessários ao disco de ouro.

   - Mesmo nos períodos em que estive em gravadoras que boicotaram meu trabalho bati essa marca. Mas a pirataria é realmente uma coisa de doido - reclama. - Certa vez eu anunciei que faria um disco só de frevos e maracatus, que acabou não saindo. Uma semana depois, em Olinda, já tinha uma coletânea pirata com meus frevos gravados.

   Por sinal, Alceu bate pesado quando fala do assunto:

   - Nem todo mundo pode comprar um disco, eu sei. Mas nem todo mundo pode comprar um carro e nem por iso devem comprar um roubado. Isso estimula o ladrão. Gostaria muito que a sociedade fosse igualitária, mas não é. Infelizmente, existe uma certa simpatia pela marginalidade. Mas não simpatizo com a violência, o crime e a ladroagem em todos os níveis, civil, municipal, estadual e federal.

   De qualquer forma, o cantor curte o sucesso depois de ver seu disco "Forró lunar" - lançado na esteira do "Forró de todos os tempos", de 1998, que vendeu 250 mil cópias - ir para o espaço com a gravadora Abril Music. Em 2002, lançou "De janeiro a janeiro", nas bancas de jornais, e todas as 40 mil bolachas foram vendidas. "Ao vivo em todos os sentidos", gravado em uma Fundição Progresso lotada, já ultrapassou as 50 mil cópias e o DVD está quase ganhando a expressão "de ouro". Foram vendidos mais de 20 mil dos 25 mil necessários.

   Este show, por sinal, foi uma grande congregação de gerações. É fácil identificar no DVD milhares de jovens de 18, 19 anos, que sequer sabiam o que era mundo quando foram lançados sucessos como "Tropicana", "Como dois animais", "Pelas ruas que andei", "Cavalo de pau", "Coração bobo", só para citar algumas das canções entoadas em uníssono.

   - Acho que explicação para isso está no fato de eu fazer uma música que tem uma raiz, mesmo com o massacre da música, da nossa identidade - diz. - Sempre querem criar um fato novo, como se a música envelhecesse. Vê o samba. Derrubaram, sacudiram, chutaram a cara, inventaram outro samba, mas ele sempre se levanta.

Cantor reclama da "americanalhação" da MPB

   Alceu aponta sua metralhadora verborrágica também para o que ele chama de "americanalhação" da música.

   - O novo é um paradigma. Respeito a boa música americana. Mas por que não há antropofagia com a música feita na Espanha, na África? Por que só vamos em uma única direção? - pergunta. - Arte que é arte vem do coração. Ninguém manda nem nunca mandou na minha música. Cito Hermeto Pascoal: "Porque estou ligado com o Divino". O Divino, no caso, são os signos, a cultura. Vivo em transe com isso. É um egoísmo necessário. A criação não tem rédea.

(© O Globo)

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