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Acervo jogado às traças

05-06-2008

Café Filho, vice de Getúlio Vargas, assumiu em 1954 a Presidência da República

Fotos, documentos e álbuns do ex-presidente Café Filho se deterioram em armário de museu, em Natal

Sandro Fortunato
Especial para o JB

   NATAL - ''Formávamos juntos um acervo de trastes, valíamos tanto como as bagagens trazidas lá de baixo e as mercadorias a que nos misturávamos''. A frase do escritor alagoano Graciliano Ramos em seu livro Memórias do cárcere é perfeita para definir a situação de parte do patrimônio político e cultural deixado por outro nordestino famoso, Café Filho, vice de Getúlio Vargas, que assumiu a Presidência da República com o suicídio deste, em 1954. Mais de mil fotos, álbuns com recortes de jornais sobre viagens ao exterior e documentos variados estão esquecidos em um armário no Museu Casa Café Filho, em Natal, Rio Grande do Norte, onde nasceu o presidente.  

 

   Pior que isso. Nada está catalogado ou tombado e qualquer pessoa que visite o local pode levar ''uma lembrança'' dessas para casa, já que os visitantes podem percorrer o local sem a vigilância de seguranças. Além disso, objetos e documentos pessoais recebem diretamente a luz do escaldante do sol de Natal há anos. O Museu Casa de Café Filho está instalado em Sobradinho, na Cidade Alta, bairro que concentra a maior parte das casas culturais e de preservação de memória de Natal.

   Adquirida pelo governo do Estado em 1960, a construção foi tombada e restaurada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Desde 12 de março de 1979 é sede do Museu Casa de Café Filho, integrante do Patrimônio do Estado do Rio Grande do Norte, subordinado à Fundação José Augusto, braço cultural do governo.

   Embora legalmente responsável, a atual direção da Fundação José Augusto não foi a causadora dessa situação, que existe há anos.

   - Há precariedades que precisam ser corrigidas, não só na manutenção mas também na exposição do acervo - admite o presidente da Fundação, François Silvestre de Alencar.

   Segundo ele, o Museu Café Filho ''está em bom estado''. A instituição, diz Alencar, tem um acervo fotográfico ''razoavelmente bom, mas não completo''. Ainda há muito a ser feito por lá, reconhece:

   - A Fundação José Augusto está elaborando um inventário museológico do Rio Grande do Norte, algo que nunca foi feito, um levantamento de tudo que há nos museus, não só do Café Filho, mas de outras instituições, como o Museu de Arte Sacra, o Solar João Galvão, a Bibliotecado memorial Câmara Cascudo e o Forte dos Reis Magos.

   Dácio Galvão, diretor do Centro de Documentação Cultural da Fundação José Augusto, responsável pelos museus do Estado, diz que a estrutura técnica é defasada.

   - Assumi o cargo há um ano e, neste período, não pude fazer muita coisa. A dinâmica imposta ao setor estava muito limitada, já que a parte administrativa não estava estruturada. Mas não olho para trás para justificar a precariedade de hoje.

   Dácio diz ter consciência da falta de segurança das peças.

   - Um acervo fotográfico tem que ser muito bem armazenado. Mas nossa área técnica é precária. A idéia é cuidar do acervo, mostrando-o à medida em que seja necessário.

   No site da Fundação José Augusto, encontra-se a informação de que ''o museu tem um acervo documental e iconográfico sobre o presidente Café Filho, incluindo aspectos biográficos e informações sobre a vida política, com registro de fotos de suas viagens e de suas campanhas''. Informa ainda que ''o museu dispõe, também, da biblioteca particular do presidente''. Mas a biblioteca, com quase mil volumes, não pode ser consultada pelo público.  

(© JB Online)


Labirinto burocrático

   BRASÍLIA - A Lei Federal nº 8.934, de 30 de dezembro de 1991, dispõe sobre a preservação, organização e proteção dos acervos documentais privados dos presidentes da República. O historiador Claudio Soares Rocha, titular da Diretoria de Documentação Histórica do Presidente da República, que funciona no Palácio do Planalto, explica quem é responsável pela preservação dos acervos de ex-presidentes e o que pode ser feito por eles.

- Quais são as atribuições da Diretoria de Documentação Histórica?

- A Diretoria de Documentação Histórica tem três frentes de trabalho. Trata da correspondência privada e do acervo privado do presidente da República até o fim do mandato e, através da Comissão de Memória dos Presidentes da República, dinamiza a preservação dos acervos dos ex-presidentes.

- Quando foi criada a Comissão?

- A Comissão de Memória foi criada em 1988. Esteve desativada até 2000, quando voltou a funcionar, parando novamente em 2002. E agora está parada porque não tivemos recursos nos últimos anos.

- Quando um acervo não está sendo preservado, o que pode ser feito?

- A primeira coisa é chamar a atenção do Arquivo Nacional. Eu devo colocar logo o assunto em pauta. O Arquivo Nacional pode dar orientação técnica e administrativa e também orientar o levantamento de recursos financeiros, via Lei Rouanet, para apoiar qualquer projeto que a instituição tenha. E ainda, a Comissão de Memória, se instalada, pode propor recolhimento do acervo a uma instituição séria, com credenciais para isso, ou ainda fomentar a orientação da preservação no local onde se encontra. No caso do acervo de Café Filho, que está numa instituição do governo do Rio Grande do Norte, este deve ser responsável por sua preservação, se quiser que o material permaneça lá. Se precisar de ajuda técnica, a Comissão pode ajudar.

- Na prática, como isso se daria?

- Técnicos de arquivística podem ser deslocados do Arquivo Nacional para lá. Ou ainda técnicos de museografia do Museu da República ou do Iphan - a própria superintendência do Iphan no Rio Grande do Norte pode dar apoio museográfico. A Biblioteca Nacional pode apoiar também na parte de acervo bibliográfico. Sem muitos custos, sem muitos problemas.

- E o acervo poderia ser recolhido à outra instituição?

- Pode se o governo do Estado não tiver interesse na guarda do acervo.

(© JB Online)


Um breve governo

   Décimo sétimo presidente do Brasil, João Café Filho nasceu em 3 de fevereiro de 1899, às três e meia da manhã, no bairro portuário de Natal. Iniciou-se na vida pública como jornalista, fundando A Gazeta e dirigindo, mais tarde, o Jornal do Norte. Organizou a primeira greve e o primeiro sindicato do Rio Grande do Norte, e sua participação política fez com que seu jornal fosse empastelado e Café Filho preso, já no Recife. Libertado, mudou-se para o Rio de Janeiro, e passou a ser redator de A Manhã.

   Foi um ativo integrante da Revolução de 30. Como deputado federal, atuou até a implantação do Estado Novo (1937), quando Vargas fechou o Congresso Nacional.

   Café Filho exilou-se em Córdoba, na Argentina, e voltou ao Brasil em 1938. Com a deposição de Vargas e a volta das eleições, tornou-se deputado federal pelo Partido Social Progressista. Em 1950, foi vice na chapa de Getúlio Vargas. Com o suicídio de Getúlio, em agosto de 1954, Café Filho assumiu a presidência, permanecendo no cargo por um ano e dois meses. Em novembro de 1955, afastou-se por motivos de saúde, passando o cargo ao presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz. Mais tarde, tentou voltar à presidência, mas havia-se votado o seu impedimento pelo Congresso.

   Em 1961, foi nomeado pelo então governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda, então Ministro do Tribunal de Contas do Estado. Morreu na cidade do Rio de Janeiro em 20 de fevereiro de 1970.

(© JB Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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