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Páginas contra o esquecimento

05-06-2008

A História das Secas foi publicada pela primeira vez há 50 anos

Somente obras que fogem do pitoresco e da exaltação vazia são capazes de iluminar nossos caminhos e ampliar os significados do Ceará

Afonso Celso Machado Neto

''Não só morreram numerosas tribos indígenas como os gados e até as feras e as aves se encontravam mortas por toda parte'' (Senador Pompeu, sobre a seca de 1721-22)

   Constantemente acusado, entre outras faltas e infrações, de não possuir ou não querer cultivar a memória que lhe é devida, o Ceará às vezes contraria seus detratores desenvolvendo projetos essenciais de resgate histórico, cujos méritos consistem em avigorar pontos de resistência contra o esquecimento coletivo e a ignorância do passado.

   A Fundação Waldemar Alcântara há alguns anos vem reeditando jóias raras da bibliografia local e enriquecendo as prateleiras dos pesquisadores com obras fora de catálogo ou antes condenadas a uma circulação restrita. Vale destacar, como biscoitos finos já servidos aos leitores, Datas e Factos para a História do Ceará, do Barão de Studart, Libertação do Ceará, de Rodolfo Teófilo, e O Ceará e os Cearenses, de Antônio Bezerra.

   Editados pela Fundação Waldemar Alcântara em versão fac-similar, esses livros compõem a Coleção Biblioteca Básica Cearense, que acaba de lançar História das Secas - Séculos XVII a XIX, de Joaquim Alves, com o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia, através do CNPq.

   A História das Secas foi publicada pela primeira vez há 50 anos, um ano após a morte do autor, que a escreveu a pedido do Instituto do Ceará. Nascido em Jardim, Joaquim Alves (1894-1952) formou-se dentista e foi inspetor regional de ensino, profissões que lhe permitiram palmilhar todo o Nordeste, conhecendo as agruras e promessas da região.

   Em seu livro, Alves fez um levantamento minucioso acerca das estiagens, listando-as cronologicamente desde o século XVII, além de reproduzir as impressões dos viajantes europeus sobre o Nordeste e a seca, os primeiros estudos técnicos sobre o semi-árido e as medidas governamentais para minimizar os efeitos da estiagem. Não foi o primeiro nem o único a fazer isso, mas se une a outros que tentam debater saídas para o mais antigo flagelo nordestino.

   Nas capitanias da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, a má distribuição das chuvas dizimou o gado, matou brancos e índios, empobreceu agricultores e retardou o crescimento. Além do clima adverso, as longas distâncias, os precários meios de transporte, a comunicação difícil com o interior e os ataques indígenas criaram as mais inimagináveis dificuldades para a nossa ocupação. A identidade cearense foi forjada, em grande parte, a partir da sobrevivência humana num meio ambiente árido e pouco acolhedor. A seca, atroz, assassina, insistente, alimentou nossa literatura e permeou nossa história. O sertão nos deu heróis.

   É interessante que o livro de Joaquim Alves tenha saído do prelo na mesma semana em que as Edições Demócrito Rocha lançaram Bonito Pra Chover - Ensaios Sobre a Cultura Cearense, sob a primorosa organização do professor Gilmar de Carvalho, que reuniu 26 caleidoscópicos olhares sobre o Ceará. A intenção dos ensaios é ''dar um mergulho em nossas verdades, misérias e grandezas'', como revela o organizador, acrescentando que ''nossa pobreza e feiúra nos incomodam, ainda que, muitas vezes, sejamos cúmplices e reforcemos a caricatura que fazem de nós''.

   Joaquim Alves se ressentia da ignorância de figurões, como Washington Luís, o último presidente da República Velha, que dizia conhecer o Ceará apenas do romance Iracema. Não sabemos se o ex-presidente chegou a ler História das Secas, mas deveria. Somente obras que fogem do pitoresco e da exaltação vazia são capazes de iluminar nossos caminhos e ampliar os significados do Ceará, sem aumentar artificialmente o seu valor ou vender falsas ilusões. Afinal, o episódio das jóias da coroa, que o Imperador Pedro II jurou leiloar para matar a fome dos cearenses, comprova que o problema da seca não se resolve apenas com frases de efeito calculado.

Afonso Celso Machado Neto é antropólogo

(© NoOlhar.com.br)

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