05-06-2008
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Rádio Amparo, em
Olinda |
ONG cria programa para divulgar ações
independentes dos subúrbios e mapeia cena artística dos bairros
Michelle de Assumpção
Da equipe do DIARIO
As bandas independentes das periferias do Brasil e do Mundo, assim
como os movimentos sociais dos bairros, estão amplificando suas vozes. É
cada vez mais audível o que se faz nas localidades mais periféricas e
discriminadas do Recife. Conscientes do seu papel como jovens artistas,
responsáveis por instaurar a cidadania e auto-estima na comunidade da qual
fazem parte, o pessoal do movimento Boca do Lixo quer agora mais do que
realizar eventos. O grupo de comunicação da ONG idealizou um programa de
rádio, que foi ao ar pela primeira vez domingo passado, e continuará
permanente na Rádio Amparo, das 14h (às 16h). O Programa Boca do Lixo vai
divulgar ações independentes e renovadoras que estão melhorando a imagem dos
subúrbios.
"O movimento sempre teve essa idéia
de falar através de uma rádio comunitária, até que apareceu a oportunidade",
contra Pedro Renan, do núcleo de comunicação do Boca do Lixo. A partir de
agora, o grupo espera que chovam demos, CDs independentes, de tudo quanto é
estilo musical da manguetown. "Colocamos as músicas que não tocam na
programação das rádios oficiais, do samba ao rock, do jazz a música
eletrônica, do chorinho ao manguebeat, tudo regado com muita informação das
coisas que rolam na comunidade", diz Alcioneo Ferreira, o Primo, locutor do
programa Boca do Lixo, além de guitarrista e vocalista da banda Alice quer
ser Punk.
Segundo Primo, o programa serve
também como facilitador da integração entre as periferias que estão
desenvolvendo algum tipo de trabalho artístico e social. Para ter as
notícias, divulgar a cena artística dos bairros, eles vão até os grupos.
Dessa forma, além do que é feito em Peixinhos - um dos maiores celeiros
culturais do Grande Recife - decobriram novidades no Alto de Santa Terezinha
(reduto de bandas dos mais diversos estilos, coco, rock'n'roll, samba, etc),
Afogados (onde existe o movimento Farinha do Rock, que promove shows na rua
com as bandas locais), Pina (Desabafa Pina é um movimento que envolve não
somente bandas, mas artistas plásticos e poetas), além de Aguazinha, Águas
Cumpridas, entre outros bairros.
"A gente trabalha com esse tipo de
informação, buscando falar de atividades que já estão acontecendo, levando
também especialistas para debaterem assuntos importantes", diz Primo, que no
último programa entrevistou um economista que falou sobre a ALCA, "de forma
leve, para que a comunidade compreenda". Mais do que diversão e informação,
o objetivo da ONG é que a rádio seja um canal de expressão dos anseios da
periferia. "Não é só morte e violência, chegamos nesses lugares e vemos
grupos de jovens ou idosos pensando em formas de melhorar suas realidades,
fazendo arte, lendo, discutindo ações sociais", diz Primo.
Além da rádio, o Boca do Lixo - cuja
sede funciona no Nascedouro de Peixinhos (antigo Matadouro) - tem um projeto
de tornar suas atividades auto-sustentáveis. Tendo começado como um
movimento de bandas de rock e manguebeat, o Boca do Lixo atualmente tem
girado em torno das atividades da biblioteca, que promove rodas de leitura,
entre outras atividades cênico-literárias.
(©
Pernambuco.com)
Águas Compridas articula movimento
"Os grandes
movimentos de resistência nasceram na periferia", lembra Primo, locutor do
Boca do Lixo. De fato, exemplos não faltam. Basta citar um, bem atual. Tudo
começou após uma chacina onde mais de dez jovens foram mortos, no bairro do
Alto do Sol Nascente. Artistas anônimos usaram a indignação como forma de
reação. No meio deles, talvez o principal articulador, João Batista do
Espírito Santo, o Júnior, educador e músico, começou a mapear todos os
grupos e artistas que faziam arte na sua comunidade, local da tragédia. O
objetivo era criar um evento permanente. Nasceu o Coco Aluado. Após sete
edições, o evento cresceu para debater questões mais importantes para a
comunidade. Estava criada a base para o I Encontro de Artistas de Águas
Compridas, que acontece hoje, das 9h30 às 17h, na Escola Capitão Luiz Reis,
no Alto da Bondade.
O evento tem uma segunda etapa, no próximo dia 24, onde as bandas que se
reúnem hoje vão mostrar o que realmente sabem e querem fazer: subir no palco
e apresentar seu show. Vão acontecer ainda performances cênicas, exposição
de obras e danças populares. Todo o material do projeto será gravado e
transformado no documentário Como É Fazer Arte na Comunidade, que devolverá
aos grupos envolvidos e às comunidades, um panorama dessa troca de
experiências.
O projeto - coordenado pelas bandas Cordeiro Menestrel (de Júnior) e
Bondarte Cultural, do Alto da Bondade, tem o apoio da Prefeitura de Olinda.
"A idéia é juntar as pessoas, mesmo que não saia grandes soluções, o maior
produto é todo mundo se perceber, se virão outros projetos, será uma questão
natural e pela vontade de todos", diz Júnior. O movimento sob sua liderança,
no Alto do Sol Nascente, contagiou artistas das comunidades adjacentes do
distrito de Águas Compridas.
O Bondarte Cultural, por exemplo, foi criado a partir do evento Coco
Aluado, promovido por Júnior. Juntos, os dois grupos conseguiram mapear
artistas do Córrego da Bondade, Alto da Macaíba, Alto do Cajueiro, Alto da
Conquista e Águas Compridas. No encontro de hoje, que contará com a
participação de bandas dos mais diversos tipos, bregas inclusive, estará em
pauta a qualidade da arte consumida nas periferias. "Nesse momento tão brega
do nosso Estado, queremos discutir a qualidade estética, estamos servindo a
quem, para que?", questiona o educador.
(©
Pernambuco.com)
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