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Brincadeira muito séria

05-06-2008

Nino Andrés

 

Ele toca violino clássico desde garoto mas foi a rabeca que o consagrou. A descoberta do instrumento popular, uma espécie de avó do violino, apontou-lhe a vocação de “brincante”, artista dos espetáculos populares que o pernambucano de classe média conheceu já crescido, do bumba-meu-boi ao coco, do maracatu aos caboclinhos. Não foi aprendizado ingênuo: foi pelas mãos de mestre Ariano Suassuna que entrou nas “brincadeiras”, aprendeu o valor e a riqueza da cultura conservada nos pés descalços, nas tradições passadas de geração a geração. Percebeu ali terreno fértil para criar, inovar, inventar, traduzir, sem repetir nem trair. É o que faz Antônio Nóbrega, o mais sofisticado artista popular do Brasil.

Entrevistadores: Marina Amaral, Sérgio de Souza, João de Barros, Osvaldo Colibri Vita, Mylton Severiano, Nicodemus Pessoa, Ricardo Vespucci, Antônio Martinelli Jr., Rodolfo Torres, André Bertoluci, Sofia Amaral, Andréa DiP, Natalia Viana, Luiz Guerreiro. Fotos: Nino Andrés

Trecho 1

Sérgio de Souza - Começamos sempre perguntando da infância do entrevistado.

Sou filho de médico e meus primeiros dez anos de vida se passaram no interior pernambucano, em várias cidades, porque meu pai era clínico-geral de uma entidade de saúde pública. Então, meus primeiros dez anos foram em cidades do interior pernambucano. Mas curiosamente não sou marcado por lembranças de uma infância povoada desse imaginário que meu trabalho expressa. Só uma vez, eu tinha uns 12 anos, viajando com meu pai, tivemos de passar uma noite na cidade de Patos, no sertão paraibano, e meu pai me levou pra passear na praça e lá tive a oportunidade de escutar um cantador. Por essa época eu já começava a demonstrar vocação pra música, tamborilava muito na mesa, principalmente nas horas das refeições, aí meu pai notou que eu devia ter jeito pra esse negócio de música. Ele também guardava dentro dele um pouco da vocação do músico, quando jovem era o seresteiro da turma. Então me botou pra estudar violino. Aliás, uma relação meio inusitada, né? O batuqueiro com o violino...

Marina Amaral - Quantos irmãos são?
Somos eu e três irmãs.Todos os quatro fomos colocados pra estudar música. Mas eu perseverei. O violino me seduzia, primeiro estudei com uma professora e depois com um professor catalão chamado Luis Soler, ao qual eu devo muito minha formação de violinista. Eu estudava na Escola de Belas-Artes, em Recife, e ao mesmo tempo mantinha com minhas três irmãs um conjunto, vamos chamar assim, doméstico, pra contrabalançar um pouco a sisudez dos estudos acadêmicos. Então tocávamos músicas que ouvíamos no rádio e na televisão. Quer dizer, era um conjunto que tocava Roberto Carlos, Beatles...

João de Barros - Isso é a década de 60...
É, eu tinha 14, 15, 16 anos. Minhas irmãs tocavam violoncelo, escaleta, acordeão, piano, e revezávamos todos esses instrumentos. E cantávamos em festinhas, em centros de saúde, até na televisão de Recife, mas ao mesmo tempo eu tocava em
orquestra de câmara, dando concertos. Eram dois universos musicais muito distintos e o professor de violino não gostava muito que eu fizesse aquilo. A música popular que eu fazia com minhas irmãs era toda referenciada na Jovem Guarda, um pouco da Tropicália, Alegria, Alegria, Domingo no Parque, Beatles. Era o que a gente ouvia, basicamente.

Marina Amaral - E o violino entrava nessas músicas?
Eu tocava também um pouco de violino, escondido do professor. E tocava em orquestra sinfônica. Foi precisamente assistindo uma vez eu tocando em orquestra de câmara em Recife, o Concerto em Mi Maior de Bach, na Igreja de São Pedro dos Clérigos, que Ariano Suassuna me convidou para integrar o jovem grupo que ele estava idealizando, o Quinteto Armorial. Eu já tinha 17 anos e deveria estar prestando naquele ano o vestibular de direito. Ariano contava uma história muito boa que se dizia antigamente – quem não tinha medo de ver sangue ia ser médico, quem tinha jeito pra matemática, engenheiro, quem não dava pra nada, direito. Era o meu caso. Topei o convite de Ariano no ato. Mas àquela altura eu nem sequer sabia o que era a rabeca, porque ele me convidou pra tocar violino e rabeca. Então, o primeiro passo que dei foi conhecer a rabeca, ou o rabequeiro. E a partir desse instante se instaurou dentro de mim um processo...

Mylton Severiano - Você nunca tinha ouvido falar em rabeca?
Não. Quer dizer, filho de classe média. A classe média brasileira, em todas as cidades de médio porte, é a mesma. A cultura popular fica na periferia, muitas vezes na periferia dessa periferia. E eu, como a maioria de nós, brasileiros, era órfão de conhecimento dessa cultura. Bem, então, Ariano me convidou para integrar o grupo. Os ensaios eram na casa dele. Éramos eu, o Antônio José Madureira, que era o coordenador, o Edílson, que tocava violão, José Generino, que tocava flauta... pronto, nasceu como um quarteto. Depois incorporamos um marimbau, que é uma espécie de berimbau tocado transversalmente, um instrumento muito tocado pelos músicos de feira. Pois bem, aquele universo me tomou completamente, era como se eu tivesse encontrado uma forma musical que me dava plenitude de uma maneira que eu não havia conseguido até ali. Sendo músico acadêmico e músico popular, eu não tinha conseguido juntar aquilo. Então comecei, a partir disso, a me interessar pelo universo da música em particular e da cultura popular em geral.

Sérgio de Souza - Voltando a Recife, o que era exatamente o Movimento Armorial?
Bem, é uma questão simples por um lado e complexa por outro. O lado mais simples, a primeira definição, é aquela que Ariano dá, que armorial é sinônimo de heráldica, e heráldica como coleção de brasões, de armas, de uma cultura, de um povo. Com isso, ele abriu a guarda para os críticos de plantão, no sentido de conceituar o Movimento Armorial como um movimento elitista: ora bolas, uma arte que tem nos brasões das famílias nobres a sua fonte de inspiração, isso sim é um movimento elitista. Mas Ariano tomava a palavra armorial, sinônimo de heráldica, para nomear aqueles emblemas, aqueles símbolos presentes na cultura do povo brasileiro, principalmente o Nordeste. Ou seja, a camisa de um time de futebol tinha sinais armoriais, era um emblema, quer dizer, antigamente, porque hoje mais não, hoje a camisa é Parmalat, Coca-Cola... mas antigamente a camisa do Santa Cruz, aquela camisa do Sport, o leão, o tricolor do Santa Cruz, o timbu do Náutico eram camisas muito bonitas dos times de futebol. Os estandartes das agremiações carnavalescas de Pernambuco... Na verdade, o que Ariano propunha era o seguinte: olhem pra cultura brasileira, porque, se a gente não olhar pra ela, ela vai acabar. Vejam como a cultura desse povo, os cantos, os toques podem ser material extraordinariamente rico para inspirar a nós artistas plásticos, poetas, músicos etc. Bem, é fato consumado que qualquer arte tem que ter fonte de inspiração, um ponto de partida. Não existe arte que nasce do nada. Por exemplo, eu como jovem, que levava dentro de mim a semente e a energia criadora da música, o que eu tinha pra abastecer isso, organizar essa energia criadora? A escola de música, de violino, aquilo não me bastava, eu procurava noutro canto – a música popular que eu escutava no rádio. Então, imagine, quem é que diz que ganhei um concurso em Recife cantando Calhambeque?

Mylton Severiano - Mas você cantou no ritmo da Jovem Guarda ou adaptou?
Cantei tentando imitar Roberto Carlos! Aos 15 anos de idade.

Marina Amaral - É uma brasa, mora!
Exatamente! Tirei o primeiro lugar. No ano seguinte tirei o primeiro lugar cantando Arrastão, de Elis Regina, e fazia toda a mise-en-scène de braço dela. Mas, então, eu tinha uma energia criadora como todos os artistas têm, como todos nós temos, que procurava se expandir, e as referências eram aquelas. Quando encontrei uma referência que pra mim representou um clarão, um farol, maior do que todas as outras, as outras apagaram. É isso que falta ao Brasil, que a gente veja, encontre essa luz, onde é que ela está apontando. Tanto isso é verdade que, por exemplo, na minha história pessoal, dando um salto de mais de trinta anos, quando já vivia em São Paulo, uma coisa que me incomodava muito era meus filhos não terem oportunidade de conviver com aquela cultura com a qual eu, embora somente aos 18 anos, passei a conviver. Não acreditava que eles não teriam aquilo dentro deles, e se na cidade de Recife era difícil encontrar, imagine na cidade de São Paulo!

Nicodemus Pessoa - Você chegou em São Paulo em que ano?
Eu cheguei em 1983. Então, a primeira coisa que fiz foi botar um pandeiro na mão dos meninos, para eles tocarem. Eu digo na brincadeira que acho que todo brasileiro devia carregar na sua pochete um pandeiro.

Sérgio de Souza - Quantos filhos são?
São dois. E aí procurei, a partir disso, trazer um pouco esse Brasil pra eles. Hoje, meu filho me acompanha como músico, né? Os dois trabalham comigo. A certa altura, eles começaram a conviver conosco nas nossas jornadas, digo conosco porque minha mulher, que é curitibana, também começou a se interessar por esse universo e culturalmente ela é tão pernambucana quanto eu, e tão nordestina e tão brasileira quanto eu. E começamos a levar os nossos filhos nas nossas idas e vindas pelo interior, principalmente pernambucano. Eu passo geralmente do período de Natal até o Carnaval em Recife e adjacências. E quando chego por lá vou visitar os maracatus rurais, os cavalos-marinhos... No começo, os meninos não gostavam muito dessas coisas, não, “vamos embora, vamos embora”. Hoje, a coisa se inverteu de tal maneira que eu é que digo: “Rapaz, vamo embora. Tô cansado, vamo dormir”. Porque um samba de cavalo-marinho começa às 10 horas e vai até o sol raiar, 6 horas da manhã. Uma sambada de maracatu rural também vai até o outro dia. Chega esse período de 10 de dezembro até Carnaval, a pisada é essa, todo fim de semana. E eles querem ir, eu vou e já começo então a ...

Sérgio de Souza - Querer ir embora?
Exatamente. E hoje em dia não somente eles vão como levam os primos, os amigos e os amigos dos primos. O ano passado, a gente foi para uma sambada de maracatu, em Nazaré da Mata, que foi preciso alugar um ônibus porque foram mais de trinta amigos deles daqui de São Paulo.

Andrea DiP - Quantos anos eles têm?
Dezenove e dezessete.

Luiz Guerreiro - Você não aparece muito nos meios de comunicação porque seu público é uma elite?
Olha, vou refutar um pouco essa coisa. Não acho que o meu público seja elitista. Acho até o contrário. Não considero elitista o povo que vai assistir a um espetáculo no Tuca. Elitista mesmo, pela conformação social, é aquele que paga 50, 60, 70 reais, que freqüenta principalmente o Credicard Hall, o Alfa, o Tom Brasil. Não estou fazendo críticas, não. Esse é um público de poder aquisitivo maior. Um público que paga um ingresso de no máximo 20 ou 25 reais é um público médio brasileiro que consegue freqüentar casas de espetáculos.

Trecho 3

Ricardo Vespucci - Tem mais uma coisa que acho que se encaixa perfeitamente: a experiência do Moraes Moreira. O que você pensa sobre ela, quando ele traz a guitarra? Porque, no meu ponto de vista, ele não abre
mão também do melódico.

Moraes Moreira é um excelente melodista, gosto muito da música dele, no campo da música popular é um dos músicos que eu mais respeito. Eu respeito o Moraes Moreira na mesma dimensão que respeito Alceu Valença. São pessoas cujos trabalhos estiveram ligados a uma fase de muita influência da guitarra na música brasileira, mas que souberam dar a essa guitarra, na maioria de suas obras, um sotaque brasileiro. Acho o trabalho de ambos um trabalho de dois cançonetistas muito bons, e o Brasil deve muito a eles.

Sérgio de Souza - E você acha que isso não aconteceu com o Chico Science?
Olha, Chico Science teve uma vida musical muito pequena. Não posso dizer até onde ele iria. Acho que a representatividade maior de Chico Science foi ele ter conseguido juntar na música a chamada música pop, que eu conheço mal. Mas ele justapôs, coligou essa música com os ritmos da música pernambucana, principalmente a do maracatu-nação. Não acho formidável essa justaposição, mas não deixo de reconhecer que, por ele estar ligado a uma grande gravadora, que só o convidou porque ele tinha esse pé na música pop, ela trouxe, sem querer, até para camadas sociais maiores do Brasil, principalmente de Pernambuco, o conhecimento, quer dizer, a lembrança de que “olha, existe o maracatu, existe o coco”... É uma situação diferente da gente, que não fez a ligação com o pop, e acho que é por isso que o meu trabalho não tem o mesmo atrativo para a grande mídia, porque não faço essa conexão. O meu patamar de reconhecimento para criar uma música urbana brasileira é Jacó do Bandolim, é Pixinguinha, é Abel Ferreira, é também Moraes Moreira, é Alceu Valença, é por aí... mas essa composição não dá liga com o que a mídia quer. Eu, uma vez, estava dando uma aula-espetáculo a um grupo de jovens e disse: “Jacó do Bandolim é um solista da mesma estirpe, se não for superior, de Jimmy Hendrix”. Aí, o pessoal se retirou. Depois eu os procurei, perguntei: “Rapaz, por que vocês se retiraram?” “Como é que você vem dizer que Jacó do coisa...” Eu disse: “O que vocês já escutaram de Jacó?” Ele disse: “Eu nem sei quem é”. Aí eu disse: “Não dá nem pra gente começar uma conversa”. Se alguém já ouviu Jacó do Bandolim tocando Ingênua, a palhetada daquela Ingênua, já ouviu o frevo Sapeca, qualquer obra dele, sabe que aquilo é um músico de primeira linha, um virtuose do instrumento. Qualquer país se honraria de ter na sua história musical um músico como Jacó do Bandolim. E no entanto...

Ricardo Vespucci - E não precisava usar distorcedor...
Aí até que não sou contra, desde que isso venha enriquecer a música, mas o pessoal usa como macaco – “se usaram, então vamos usar...”.

André Bertoluci - Acho que os jovens que fazem o rap não importam simplesmente um modelo e reproduzem, eles elaboram também e fazem da maneira brasileira, tem até o Marcelo D2 misturando com samba...
Eu concordo que o povo brasileiro é tão rico que imprime a sua recriação, e acho que tem lugar pra todos, mas o que fico chateado é que o outro lado, que tem uma dimensão tão grande, tão superior, é moita. Sim, entre o nada e isso é melhor que exista isso. Mas, se esse pessoal tivesse outras referências e não apenas essa mão única de referência, seria diferente. E veja que na cantoria, no poeta popular, o espírito é o mesmo, ou seja: o objeto maior tanto no rap quanto no repente não é a música, mas o texto, é um texto que precisa ser dito. Então, quão mais belo ele possa dizer esse texto, mais é atuante. A sabedoria da poesia popular é tal, que o poeta popular, quando coloca uma toada em seus versos, é uma toada que não tem a complexidade melódica que tem, por exemplo, um samba. O samba seduz tanto pelo melodismo quanto pela letra. Um rap tem que seduzir pela letra, um repente, uma embolada também, mas com uma melodia que seja interessante, sendo que a gente tem uma melodia muito rica, com possibilidade de várias formas e modelos, por exemplo, o galope à beira-mar, a parcela, o oitavo em quadrão, o martelo, o martelo alagoano, quer dizer, a gente tem essa diversidade que, na pior das hipóteses, podia também ser mostrada. Quem aqui conhece um Geraldo Amâncio, um Ivanildo Vilanova, quem conhece um poeta formidável, Oliveira de Panelas, nem na história de literatura brasileira se dá um capítulo à poesia popular do Brasil, nem se ensina no colégio essa coisa maravilhosa. Há um desprezo muito grande por essa fatia de conhecimento.

Sérgio de Souza - A que você atribui isso?
A vários fatores. Primeiro, porque a gente nunca respeitou o povo, nunca respeitou o terceiro Estado. Depois, essa palavra folclore ganhou um significado de coisa exótica, coisa menor. A palavra foi cunhada dentro do universo positivista, folclore era uma coisa do fantasioso, do extranatural, do mito. A gente não via na cultura popular o seu papel dinâmico e vivo na cultura geral, principalmente em um país jovem como o Brasil, onde ela é muito diferente do que para a França, a Alemanha, os Estados Unidos nem tanto. São países que já têm um conhecimento cristalizado, até mesmo porque a cultura popular deles teve um papel muito grande. O que seria de Mondrian, de Rabelais, de Shakespeare se não existisse cultura popular na época. A história de Romeu e Julieta era um folhetim, Shakespeare foi apenas um entre vários que trataram daquela história. O que seria de Lorca, de Cervantes sem a cultura popular: o Quixote é uma figura nutrida, alicerçada nela. E o Brasil prova isso, o que seria de Guimarães Rosa, de Villa-Lobos, você pode dizer que os maiores criadores do Brasil têm um pé na cultura popular do país. A cultura popular carrega uma missão na cultura do mundo que a gente ainda não foi capaz de ver.

Luiz Guerreiro - Você tem algum apoio para o seu trabalho hoje em dia?
Não, atualmente não.


Trecho 4

João de Barros - Por falar nisso, você acha que o Lula está tocando violino, ou seja, pegou o governo com a mão esquerda e toca com a direita?

Eu acho que o Lula está indo muito bem. É complicado satisfazer a essa crosta brasileira, essa elite empedernida de visão distorcida de humanidade. Então, acho que ele está indo com muito cuidado. Veja os jornais, eu não entendo muito a imprensa. Rapaz, um homem que veio de uma formação totalmente diferente do que é a tradição política brasileira, que cria um partido completamente na contramão da história política brasileira, esse homem entra no poder, eu acho que todas, todas as classes do Brasil, pelo lado da consciência, deviam dar a mão a esse homem. Se a gente tem que extirpar a pobreza no Brasil, que é crônica, e supondo que os jornais são os vetores mais intelectualmente preparados pra isso – estou falando dos grandes jornais –, eles deveriam se colocar a serviço. O que a gente vê é um combate surdo, a corrente é contra. A dificuldade dessa crosta empedernida que não quer sair do poder, que não quer largar esse negócio. Mas a gente vai lutar, acho que vamos dar um passo pra frente, sem dúvida. Não há volta mais, não.

Marina Amaral - Voltando à música, você vende mais CD em São Paulo ou no Nordeste?
Eu tenho duas vendagens: as que a Trama faz, distribuindo, e que me dá uma salariozinho por mês, e as que eu faço durante os shows. Eu ganho mais nos shows, tenho uma vendagem elevada, às vezes de 20 a 30 por cento das pessoas que vão ao espetáculo compram o CD. E agora estou investindo também numa outra bitola, que é a do DVD. Porque ela traz de uma maneira mais integral o temperamento do meu trabalho. Estou lançando justamente agora, provavelmente quando sair a entrevista já lancei. E tive a sorte de trabalhar com o grande Válter Carvalho. Gravamos em Recife, fizemos em película, foi até uma coisa meio arrojada.

Antônio Martinelli Jr. - Gostaria que você falasse um pouquinho do livro que deu nome ao DVD, Lunário Perpétuo...
Eu ouvi falar pela primeira vez no Lunário Perpétuo quando li, muito jovem, meu primeiro livro sobre cultura popular, que foi Vaqueiros e Cantadores, de Câmara Cascudo. Ali tomei conhecimento de um livrinho chamado Lunário Perpétuo, que os cantadores usavam muito como ponto, como livro de referência para o seu universo intelectual. É um livro que traz um pouco de mitologia, vida de santos...

Sérgio de Souza - Um almanaque, não é?
É um misto de almanaque e enciclopédia. De uso ali para o povo sertanejo. Varia de edição para edição, mas fica entre quatrocentas e seiscentas páginas. E aqueles poetas que sabiam ler tinham o livro como ponto de referência. E achei o nome muito bonito. Eu tenho um livrinho chamado Ideário, em que vou anotando não só nomes para espetáculos como idéias várias, e tinha lá o Lunário Perpétuo. Na verdade, quem lembrou desse nome foi Rosane, minha mulher. Eu até no começo disse: “Será?” Mas depois vi que ela tinha razão. E eu concluo o espetáculo dizendo que, da mesma maneira que esse livro, através do que ele tem dentro, orienta o povo nordestino no seu dia-a-dia, da mesma forma os seus cantos, suas danças, sua maneira de representar orientam o meu fazer artístico. Aí, eu, até poetizando, escrevi num textozinho: “Foi através do conhecimento desses toques, dessas danças.....(silêncio emocionado).....foi através desses cantos, dessas danças.....(silêncio emocionado).... que me encontrei com meu povo e aprendi a amar esse povo. Poetizando, como eu digo, eles são as pedras do meu céu e as estrelas do meu chão. Eles são o meu Lunário Perpétuo”. Bem, há uma coisa negra aí que não consigo compreender, porque, toda vez que essa justaposição de povo se insinua dentro do meu trabalho, eu sinto alguma coisa, as entranhas deles estarem meladas com o que eu faço, aí eu me “desboroto”, eu quebro. Daí não posso prosseguir, mas acho que eu já falei demais.


Leia esta entrevista na íntegra na revista Caros Amigos

(© Caros Amigos)

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