05-06-2008
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Cena de "Narradores de Javé", de Eliane Caffé; ambientado no
sertão brasileiro, o filme tem o ator José Dumont
no papel principal |
Patrimônio oral e discurso histórico se enfrentam de forma
cômica em "Narradores de Javé"
SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL
Entre os "Narradores de Javé", Antônio Biá é o único que sabe deitar
no papel as histórias contadas de boca em boca -e de uma geração a outra.
É a ele, portanto, que os demais
personagens do fictício povoado perdido no sertão brasileiro e ameaçado de
desaparecimento pela construção de uma represa entregam a missão de
eternizar em livro sua própria história, numa tentativa de escapar das águas
ou do esquecimento.
Quando estudava a trama desse segundo
longa-metragem da diretora Eliane Caffé, 42 (que estréia amanhã, em 40 salas
brasileiras), o ator José Dumont, 53, se indagou: "Mas como Biá conseguiu se
tornar um alfabetizado entre analfabetos?".
Para buscar a resposta, o ator não pôde evitar remexer em sua própria
trajetória. Nascido no interior da Paraíba, numa família numerosa e sem
recursos, Dumont é autodidata. Aos 6 anos de idade, aprendeu sozinho a ler.
Enxada
O fato de ser alfabetizado não o
poupou dos trabalhos típicos da região empobrecida, como o da "enxada".
Dumont foi também cabo do Exército e morava em João Pessoa, a capital
paraibana, quando decidiu, num estalo, tomar o rumo do Sudeste, depois de
ouvir a canção "Here Comes the Sun" (Aí Vem o Sol), dos Beatles.
Hoje, o ator diz que se sente um
"cidadão do mundo, tão nordestino quanto japonês", embora valorize o que
conseguiu em São Paulo. "Foi em São Paulo que tirei minha carteira de
identidade", diz. Foi também nessa cidade que se tornou ator, mas um ator
identificado com certa representação do homem nordestino associada à
privação e ao sofrimento, traço que Dumont só agora, em "Narradores de
Javé", acredita haver conseguido superar.
"Nunca falaram comigo. Nunca me
perguntaram como eu via o sertão. Certamente eu trazia esse lastro
emocional, que realmente era sofrido, embora dentro de mim existisse uma
pessoa alegre", afirma.
Tom
Mais que uma pessoa alegre, o ator
acredita que a diretora - com quem havia trabalhado no anterior "Kenoma"
(1998)- soube ver nele seu "tom natural, que é o da comédia, do deboche".
"Fiz, por exemplo, "Morte e Vida
Severina" [de João Cabral de Melo Neto], que é uma obra-prima, mas com a
qual não me identifico nada. Não me identifico com essa ótica fatalista.
Gosto da ironia. Eliane sacou isso. A gente opera numa frequência muito
parecida".
Dumont diz que prefere a comédia ao
drama porque a primeira "oferece saídas, enquanto o drama é apenas um
relato".
Além do "humor, da ironia e do
deboche" que compartilha com o personagem de Biá, Dumont é também um amante
das teorias, das sínteses e das idéias supostamente visionárias, expressas
em tom poético.
Trata-se de uma herança familiar,
como contou em debate sobre o filme, ocorrido na Cinemateca Brasileira,
anteontem. "Sempre ouvi meu pai dizer: "Vai chegar um dia em que a roda
grande vai correr dentro da roda pequena". Não sei se é uma máxima
socialista ou se ele se referia à entrada do homem na cultura subatômica."
Leis
De sua parte, Dumont acredita que o
universo seja regido por "três leis básicas". A primeira "é a geral: o sol
brilha para todos". A segunda, "a individual: cada um faz dessa luz o que
quiser". E a terceira é "a de relação", sobre a qual o ator dá menos
explicações. Entende-se que é algo como o que resulta da primeira e da
segunda aplicadas simultaneamente, enfim, na convivência humana.
Dumont também já se dedicou a
refletir sobre a questão da reforma agrária, até concluir que há um erro no
foco com que é abordada. "Quer minha opinião: a questão não é a terra, é a
água. Todas as fontes no Brasil deveriam ser públicas. Esse é um pensamento
para o futuro."
Um pensamento para o presente é o de
que "o homem não precisa nem deve trabalhar mais do que seis horas por dia.
Mas o capital tornou a vida muito cara".
Outro (pensamento) é o que atribui ao perfil, literalmente, a razão pela
qual atores como ele tenham pouco espaço na TV brasileira: "A diferença é só
longilíneo ou chatilíneo. Meu tipo é o chatilíneo, que não tem espaço. Se eu
fosse longilíneo, teria um salário bom, estaria na televisão. Olha só os
trilhos sutis por onde anda a humanidade... Nasci num lugar que era assim.
Meu tipo é esse."
(©
Folha de S. Paulo)
"Personagem lembra brasileiro comum"
DA REPORTAGEM LOCAL
"[O personagem] Antônio Biá lembra o
brasileiro comum, que não sabe o que fazer com sua história: Vou gravar? Vou
escrever? Saberei escrever?"
A opinião é da historiadora Mary del
Priore, que anteontem participou de debate com a diretora Eliane Caffé e o
ator José Dumont sobre o filme "Narradores de Javé". O encontro, promovido
pela Folha, pela Bananeira Filmes e pela Cinemateca Brasileira, teve
participação do público que, antes, assistiu a exibição do filme.
Del Priore afirmou que a história
oral está incluída na definição de patrimônio imaterial e citou decreto
federal editado em 2000, pelo qual o Brasil, para preservar esse patrimônio,
permite e prevê o tombamento inclusive de pessoas detentoras de um saber
específico (como um determinado ponto de crochê ou uma história contada
oralmente).
A diretora Eliane Caffé contou que,
para a elaboração do roteiro, feito a quatro mãos com Luís Alberto de Abreu,
a dupla realizou diversas expedições pelo interior baiano e mineiro.
Caffé disse que seu filme procura se
distinguir da produção brasileira recente ao incorporar os conhecimentos
adquiridos no "corpo a corpo" com as populações sertanejas. Na opinião da
cineasta, os artistas nacionais têm o hábito de usar só suas referências
mais próximas nas criações.
"Narradores de Javé" foi filmado no
povoado de Gameleira, no interior da Bahia. A pedido da platéia, a diretora
descreveu o processo de seleção e de filmagens com o elenco local que
participa do filme.
"O que ajuda um não-ator a entrar na
verdade da cena é contracenar com um ator que também faz de verdade", disse
a diretora, elogiando Dumont e Gero Camilo, também presente ao debate.
Para Dumont, seu personagem -o Biá
que lembra o povo brasileiro, segundo Del Priore- aprende, ao longo do
filme, que "a grande história está nas pequenas histórias das pessoas".
Depois do filme, os moradores de
Gameleira querem fazer uma mudança em sua história, alterando o nome da
cidade para Javé. "Eles deram início a um movimento pela troca", disse
Caffé.
(©
Folha de S. Paulo)
CRÍTICA
Roteiro limita real à figuração
TIAGO MATA MACHADO
CRÍTICO DA FOLHA
Primeiro dos "Narradores de Javé",
Zaqueu (Nelson Xavier), personagem que faz a intermediação, até mesmo no
vocabulário, entre o Brasil profundo dos sertões e o Brasil oficial do
litoral, conta sua história a um jovem de passagem, em um boteco.
A história do dia em que ele anunciou aos habitantes do vilarejo de Javé que
a construção de uma hidrelétrica iria desalojar a todos. Contra a ameaça das
águas e do esquecimento, os javelianos decidiram erguer seu "patrimônio
oral", levando a memória viva de seu povo para o livro da "História Grande
do Vale de Javé".
O encarregado de protagonizar a
quixotesca empreitada é Antônio Biá (José Dumont), escrivão solitário numa
terra de analfabetos. O problema é que Biá, "intelectuário e alcoólatra",
não é nenhum Euclydes da Cunha. Com sua mania de "amelhorar" o depoimento
dos javelianos, o escrevinhador lança em cena uma velha querela
historiográfica: são mesmo os registros oficiais mais confiáveis, para
historiadores, do que fontes orais? Para os defensores da história oral, os
testemunhos coletados em pesquisas de campo estão mais próximos da fonte
original e podem ter os seus dados checados mais facilmente.
Com o roteiro escrito com o
dramaturgo Luiz Alberto Abreu, a diretora Eliane Caffé partiu para o sertão
com sua equipe, esperando encontrar nos habitantes de Gameleira da Lapa a
autenticidade de seu projeto. Retomando o método de "Kenoma", Caffé
amadureceu seu trabalho no convívio com habitantes e realidade locais.
O porém é que os restringiu à
figuração. Caffé só chegou àquela que deveria ser a essência do projeto por
um atalho desnecessário no roteiro: com uma câmera, um engenheiro da
hidrelétrica, registra testemunhos de alguns nativos, dando-lhes por fim voz
ativa.
De certa forma, Caffé perde a
oportunidade de estabelecer um diálogo em igualdade de condições entre
equipe e nativos, entre atores e personagens reais, e se aprofundar na
relação entre documentário e ficção. Por outro lado, a opção lhe permite não
perder de vista o tom picaresco que visa imprimir à sua comédia.
Narradores de Javé
Produção: Brasil, 2003
Direção: Eliane Caffé
Com: José Dumont, Matheus Nachtergaele, Nelson Xavier
Quando: a partir de amanhã, nos cines Morumbi, Espaço Unibanco e
circuito
(©
Folha de S. Paulo)
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Tecelões da memória popular |
Narradores de Javé estréia amanhã nos
cinemas de todo o Brasil com um enredo de personagens folclóricos do
NordesteKLEBER MENDONÇA FILHO
É provável que Narradores
de Javé desperte simpatia na maior parte da platéia. Construído ao
redor de temas maiores como a importância da história e a necessidade
que um povo tem de manter viva a sua raiz cultural, o filme de Eliane
Caffé nos mostra um lugar e sua gente lutando para que continuem
existindo num mundo que muda com a idéia moderna de progresso. Engraçado
observar que, nesse sentido, esse filme brasileiro é semelhante ao recém
lançado super produto hollywoodiano O Último Samurai, com Tom
Cruise, sobre um Japão que atropela suas tradições. Narradores de
Javé estréia amanhã em todo o Brasil, com lançamento médio-pequeno
em cerca de 40 cinemas.
A idéia de progresso que
ameaça a pequena Javé é um lago artificial que irá fornecer água para
uma usina hidrelétrica. Toda a comunidade será inundada, transformando o
local num cemitério submerso, drama que dezenas de pequenas comunidades
do Nordeste brasileiro viveram nos últimos 40 anos. São fatos
relacionados à engenharia civil mas que parecem vingar de maneira
irônica toda uma carga cultural que existe na idéia de “um sertão que
vai virar mar”.
Consternados com a
possibilidade de saírem não apenas do mapa, mas de seus próprios berços,
os moradores organizam-se num misto de ingenuidade e obstinação para
provarem aos grandes poderes (um vago e distante “eles” é o pronome mais
usado nesse sentido) de que Javé é importante, de que o lugar tem
história e merece existir. Certamente, esta é uma bela história.
Num lugar onde impera o
analfabetismo, Antônio Biá (José Dumont) é um astro. Desprezado pela
comunidade por ter forjado cartas de muita gente para que a única
agência dos Correios ali não fechasse (ecos de Central do Brasil),
Biá é trazido a pulso para que, como um Graciliano Ramos de emergência,
e com a estrutura mental de um cordelista claramente desequilibrado,
escreva a história do lugar, ressaltando acontecimentos e personagens do
passado dessa Canudos sem nada de extraordinário.
Assim, através da história,
Javé passaria a existir no presente e, principalmente, no futuro. O
interessante é observar os conflitos entre Biá, dono de enorme ego, e os
moradores ora ansiosos, ora amedrontados, mas sempre irritados com ele.
Personagem “estrambólico”, Biá/Dumont solta quantidade louca de
impropérios poético-alucinados (“clone de miolo de pão”, “Pokémon de
Jesus”, “Réveillon de muriçoca”). O espectador logo percebe que o homem
é um louco dentro da sua própria inadequação social e intelectual ao
local, ao mesmo tempo em que, lá, ele é mesmo uma estrela.
Tudo isso acima descrito seria
uma visão sensorial e organizada do que o filme nos passa. É importante
esclarecer que Narradores de Javé é um tanto atabalhoado como
cinema, o que talvez reflita o que seria, de fato, um “Réveillon de
muriçoca” na pequena comunidade.
Quando o filme visita a
herança cultural da região, a diretora abre janelas um tanto rudes que
nos mostram personagens históricos de Javé em tons abertamente
“folclóricos” como linguagem de cinema, folguedos filmados num tom
“digitalizado” que lembra a experiência também mal-sucedida de Deus é
Brasileiro, de Cacá Diegues. Nessas imagens, há uma predominância do
amarelo-cobre com ruído digital que não parece casar muito bem com o que
está sendo mostrado, ou mesmo o momento do filme, ou ainda a obra em si
como um todo.
(©
Jornal do Commercio-PE)
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Divulgação
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