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05-06-2008
Na cidade para uma série de shows e a gravação de um disco, o sambista baiano Riachão lembra seus tempos de craque na tesoura em visita à oficina de Walter Alfaiate Helena Aragão Na Bahia, Riachão é o retrato fiel de uma malandragem que não volta mais. No Brasil, é reconhecido como o maior nome vivo do samba daquele Estado. Em 82 anos, foi alfaiate, contínuo e vendedor, mas nunca abandonou a música. Ganhou ouvidos de todo o país por meio de vários intérpretes, como Jackson do Pandeiro (que gravou Saia rôta e várias outras), Caetano e Gil (Cada macaco no seu galho) e Cássia Eller (Vá morar com o diabo). Há pouco tempo, voltou à cena graças ao CD Humanenochum, lançado em 2000, e ao documentário Samba Riachão, de Jorge Alfredo, um dos vencedores do Festival de Brasília de 2001, ainda inédito no circuito comercial. Ainda assim, o Rio o conhece pouco. Foram duas ou três apresentações apenas e há muito tempo. Agora, Riachão está por aqui para começar uma temporada de lua-de-mel com a cidade, com a qual ele diz ter uma dívida de gratidão. - Infelizmente, a Bahia não está mais interessada em samba. Quero agradecer ao Rio a capacidade que a cidade tem de amar e manter esse tipo de música - diz Riachão, que chegou a ser apresentado como ''o cronista musical de Salvador'', por suas composições baseadas em histórias da cidade. A recepção de Riachão na cidade não deixou a desejar. A temporada carioca começou com um bate-papo com o compositor carioca Walter Alfaiate, que se assemelha ao baiano no amor ao samba e às agulhas (leia ao lado sobre o encontro). Além disso, já estão esgotados os ingressos para o show Bahia de todos os sambas, de hoje a domingo, no Centro Cultural Banco do Brasil. O espetáculo - parte de uma série que pretende mostrar as diferentes roupagens do gênero nos vários estados do país - vai ter ainda a participação do conterrâneo Roque Ferreira, compositor de samba-de-roda e outros convidados. Depois, fica pela cidade para gravar, a jato, um novo disco, que vai contar com a participação de sambistas cariocas e deve chegar às lojas em março. Enquanto passeia pelo Rio, Riachão mostra que a malandragem nunca deu um tempo em sua biografia. A começar pela indumentária rotineira: camisa social aberta no peito, correntes douradas e prateadas no colo e nos pulsos, boina e toalhinha em volta do pescoço (''à moda dos capoeiras da minha terra''). Se muita gente fica zangada quando é chamada de malandro, ele vê na designação o maior elogio que possa receber. Em Fazenda Garcia, bairro onde nasceu e vive até hoje em Salvador, aprendeu que a palavra não deve ser usada de modo pejorativo. - Quando usam o nome da malandragem em vão, entôo um samba carioca que diz: ''Malandro vive gozando as coisas deste mundo/ Malandro não é vagabundo''. Riachão é a prova viva desses versos. Da vagabundagem nunca chegou perto: se não teve a oportunidade de estudar em escola, aprendeu muito nos ofícios que desempenhou. Além de se dedicar ao corte e costura, foi vendedor de cachorro-quente e, como contínuo de banco, garantiu a aposentadoria que o mantém. Antes disso, a música foi seu ganha-pão por 20 anos, graças a um emprego na Rádio Sociedade da Bahia. - Cantava em duplas sertanejas e também como solista, era bonito. Mas aí a TV chegou para acabar com aqueles programas de antigamente e fui procurar outro emprego - lamenta. Gozar as coisas do mundo ele sabe bem, a julgar pelo sorriso constante. Uma alegria que contrasta com a motivação do apelido de infância, que virou nome artístico meio a contragosto. - Quando eu era pequenino, a moda era ser homem valente. Eu fazia uma pose de brigão e ganhei fama de riachão, termo que os baianos usam para falar de gente difícil. Riachinho todo mundo tira de letra - conta o compositor, batizado Clementino Rodrigues. Não foi só o apelido que restou da infância. O talento para a cantoria também vem daquela época. Aos 9 anos, Riachão já cantava em festas infantis. Depois, aderiu às serenatas. E resolveu se tornar compositor quando leu numa revista a frase ''Se o Rio não escrever, a Bahia não canta''. - Aquilo doeu. Não gosto de discutir se a origem do samba é carioca ou baiana, mas tenho certeza que ele nasceu na minha terra. Por isso, fico triste de vê-lo definhar por lá. Aí Jesus mandou o primeiro verso, que foi: ''Eu sei que sou malandro''. Outra certeza da vida do sambista é o amor às mulheres, sentimento canalizado há mais de 30 anos para sua esposa Dalva, com quem teve quatro filhos e que motivou a criação do conceito Humanenochum, o palavrão que deu nome ao seu último disco: - Quer dizer ''homem humano que ama a mulher e não a maltrata''. Antes a moda era falar de dar pancada em mulher nos sambas. Agora é cada coisa horrível que vejo na televisão... (© JB Online) Estilistas do samba brasileiro Há cinco anos, com o lançamento do CD Olha aí, muitos cariocas descobriram tardiamente Walter Alfaiate. O cantor e compositor nascido em Botafogo pôde mostrar, com produção caprichada, como os mundos do corte e costura e do samba podem caminhar juntos. Hoje com 73 anos, Walter diz que não é caso raro na profissão: - Muitos dos alfaiates que encontrei pela vida tinham ligação com música, principalmente com samba. Ontem ele conheceu mais um. Num encontro promovido pelo JB em sua oficina, em Copacabana, Walter recebeu Riachão para uma conversa sobre tamborins e carretéis. Enquanto dava os últimos retoques nos paletós vermelhos que a Velha Guarda da Grande Rio vai usar na Sapucaí, testemunhou o olhar emocionado do compositor baiano ao ver máquinas de costura espalhadas pelo pequeno espaço. - Aprendi a costurar ainda criança e trabalhei com isso na juventude. Só parei quando o salário do rádio deu para me sustentar - explicou Riachão. O compositor baiano teve a oportunidade de voltar ao ofício de alfaiate quando perdeu o emprego no rádio. Mas não aceitou. - A orgia não deixou - explicou, rindo. Ouvindo isso, Walter completou: - Pois foi a orgia que fez com que eu não largasse dessa profissão. Eu fazia faculdade de contabilidade, mas só queria saber de festas. Acabei deixando o estudo. Desde então, a alfaiataria garante meus trocados. Nenhum dos dois se arrepende dos caminhos escolhidos. (© JB Online) Samba com elegância Se não tivesse se tornado office-boy, possivelmente Riachão não lançaria seu LP. Foi o Banco de Desenvolvimento do Estado da Bahia (Desenbanco), onde trabalhava, que patrocinou Sonho de malandro, lançado em 1973. Dois anos depois, participou do raro Samba da Bahia, disco que o reuniu com Batatinha e Panela, outros dois representantes do samba baiano, já falecidos. Walter também participou de um ''disco comunitário'', com outros sambistas conterrâneos, o Pirajá: esquina carioca. Como não teve a sorte de encontrar uma empresa que o bancasse, contou com a disposição dos amigos Marco Aurélio e Aldir Blanc para realizar o sonho de registrar pela primeira vez suas composições, em 1998. O segundo álbum, Samba na medida, veio a público no ano passado. - Compus a vida inteira e tive músicas gravadas por Elza Soares, João Nogueira e Paulinho da Viola antes de lançar meus discos. Garanto que o terceiro sai até outubro. A empolgação com que Walter fala de samba não é a mesma que dedica a sua profissão. - Os poucos alfaiates que existem hoje estão morrendo. E ninguém está aprendendo o ofício. Riachão endossa: - Na Bahia é o mesmo problema. O pessoal que se dedica a isso é do tempo do ferro a carvão. Os dois também concordam quando o assunto é a elegância dos sambistas. - Vivo falando para o pessoal do Rio que não pode entrar esculhambado no palco. Não é por ser alfaiate, é bom senso - explicou Alfaiate. - É verdade, o samba merece respeito e aprumo - completou Riachão. A conversa acabou com uma promessa de visita de Walter à Bahia, estado que nunca visitou. Enquanto não vem a oportunidade, ele garantiu presença no show do CCBB para conferir a levada baiana para o gênero que tanto conhece. Lá, ouvirá como Rio e Bahia podem combinar bem no samba, graças à participação de Jussara Silveira (mineira de nascimento, baiana de criação e carioca por adoção) e de sua amiga, a carioca Dona Ivone Lara, que cantou no CD Humanenochum, na faixa Até amanhã. Além disso, vai poder conferir a chula e o samba-de-roda autêntico de Roque Ferreira, que comandará a festa com Riachão. É samba para todos os sotaques. (© JB Online)
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