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Uma cidade carregada no peito

05-06-2008

O inquieto baiano Tom Zé

JOSÉ TELES

   Nem só de peões é formado o enorme contingente de “paus-de-arara” que se muda a cada ano para a capital paulista. Também em São Paulo está a maior constelação de artistas nordestinos do País. Moram na cidade o inquieto baiano Tom Zé, o recifense Antônio Nóbrega, o alagoano Sebastião Biano (da Banda de Pífanos de Caruaru), o Siba Veloso, e o garanhuense Dominguinhos. Se não comungam do mesmo estilo, todos têm em comum o amor pela megalópole que hoje completa 450 anos.

Antônio Nóbrega

   A imagem tradicionalista de Antônio Nóbrega parece não combinar com a mutante São Paulo. Mas é só impressão. Os dois dão-se muito bem há duas décadas. Nóbrega conheceu a cidade em 1974, quando fazia parte do Quinteto Armorial: “São Paulo não oferece belezas naturais, mas sempre me fascinou pelo seu lado cultural. A gente ia muito na Livraria Francesa, que ficava na Itapetininga. Tenho uma relação muito querida com a cidade. Ao longo desses anos conquistei um público fiel. Além disso, lá se promove muito a cultura nordestina”. Nóbrega admite que aprecia até o criticado clima frio paulistano, e que a imensidão da metrópole tampouco o incomoda: “São Paulo é tão vasta que é como se fosse uma junção de pequenas freguesias. Tenho a sorte de morar em uma das melhores delas, Pinheiros”.

Tom Zé

   Quando estreou em terras paulistanas Tom Zé encontrava-se em situação privilegiada e já chegou com carteira assinada: “Fomos convidados por Augusto Boal para fazer shows no Teatro de Arena, com carteira do Ministério do Trabalho e tudo. Recordo até o salário, CR$ 200 mil”. Ele lembra também o dia que debutou na Paulicéia desvairada: 11 de agosto de 1965: “Vim com Gil, Gal, Caetano, Pitti, que era um artista que fazia parte do nosso grupo” (fizeram o musical Arena Canta Bahia). Preciso em datas, Tom Zé aponta o exato dia em que foi motivado para compor um dos hinos da cidade, São São Paulo, vencedora do IV Festival da TV Record: “Foi num 21 de abril de 1968. Eu estava morando definitivamente em São Paulo, na pensão de seu Freitas. Ainda mal adaptado, um frio arretado. Sai para tomar um cafezinho, e aí vi a manchete no Notícias Populares: Prostitutas invadem centro da cidade”. Depois de ler, me bateu um frio, mas foi de emoção. A imagem das putas invadindo o centro, elas haviam sido desalojadas e estavam na Rua Aurora, foi um problema grande aquele”.

   Na época, conta Tom Zé, era comum falar mal de São Paulo, principalmente entre os artistas: “Então resolvi fazer uma música diferente, citando as coisas ruins, mas que dizia ‘Porém com todos os defeitos, te carrego no meu peito”. Hoje, ele vive com a mulher, Neusa, em Perdizes, na região metropolitana: “Você conhece todo mundo, o sujeito da padaria, da mercearia. Ando na rua ninguém me para, mas todo mundo me reconhece. É como viver numa cidade do interior”

Dominguinhos

   “Rapaz não deu tempo de pensar no tamanho da cidade. O frio era tão da bexiga que quase morri”. Dominguinhos veio pela primeira vez a São Paulo, em 1956, como integrante do Trio Nordestino: “A gente vinha de Ubá, terra de Ary Barroso, e passou por São Paulo. Tocamos na antiga TV Tupi”. Com o dinheiro recebido por aquela apresentação, Dominguinhos comprou seu primeiro terno. Nos anos seguintes ele esteve dezenas de vezes na cidade, mas só se mudou lá em 1978: “Acabava de me separar da primeira mulher, não tinha onde morar no Rio. Já estava com outra, Guadalupe. Um dia a gente ia voltando para o Rio, depois de ter feito o forró de Pedro Sertanejo, aí eu falei para ela que não havia nada da gente no Rio. Por que não ficar de vez em São Paulo?”.

   Hoje ele já tem filhos e netos paulistanos, e confessa sentir-se em casa na capital paulista: “Não precisa nem mudar o sotaque, em todo lugar aqui tem nordestino. É feito estar no Nordeste, até mais. Aqui eu se quiser tenho pamonha todo dia, o que não acontece lá. A gente porém não deixa de sentir saudade, porque o nordestino só se sente realizado na sua terra”.

Sebastião Biano

   O primeiro pensamento de Sebastião em São Paulo foi: “Deus me defenda de morar num lugar desses”. Ele e os irmãos foram convidados, em 1970, para uma exposição promovida pelo Governo do Estado: “Era um frio da gota, a gente chorava mais do que bode, com os olhos cheio de lágrimas por causa do cheiro de gasolina, dos pneus”. 34 anos depois, Sebastião Biano, 85, não se imagina morando em outro lugar: “Toco pífano há 80 anos, tocamos 40 anos em Caruaru, sempre que o Prefeito chamava a gente ia e não ganhava nada. Ficaram convidando a gente para tocar em São Paulo, era um vai e volta desgraçado. Até que um dia decidimos, as seis famílias da banda, mudar de vez para cá”. Hoje os Biano já têm bisnetos e netos paulistanos: “Gosto demais daqui. Todo mundo se arranjou, tem casa própria, aposentadoria. De vez em quando a gente sai, não falta lugar para comer comida do Norte, mocotó, pirão de osso, carne-de-sol”.

Siba Veloso

   O vocalista e compositor da Mestre Ambrósio morou cinco anos em São Paulo. Hoje, equilibra-se nos paradoxos arquitetônicos: mora na pequena Nazaré da Mata, onde desenvolve um trabalho paralelo com mestres de maracatu, mas viaja freqüentemente a São Paulo, para a turnês da Mestre Ambrósio. A primeira impressão que ele teve da cidade foi de espanto pela sua grandeza: “Foi em 1996. Fiquei impressionado com aquele mundo visto da janela do avião. Quando entrei na cidade já sabia que ela não tinha limites, foram anos de descobertas. No primeiro ano não deu nem para sentir saudades por causa do tamanho de São Paulo. Todo dia descobria algo novo”. Siba ressalta que o choque só não foi maior porque a Mestre Ambrósio voltava de uma turnê pela Europa.

   Ele credita a São Paulo ter conseguido finalmente conseguir viver de música: “A cidade oferece muitas oportunidades, e tem uma coisa que só se aprende morando lá: as pessoas sabem ser bem amigas. Algumas das melhores amizades que fiz até hoje foram em São Paulo”.

(© Jornal do Commercio-PE)

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