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Cabeças de Lampião
e Maria Bonita |
Considerados “patrimônio
histórico”, os restos mortais de Lampião e os de seu bando ficam sem destino
Os cangaceiros Lampião e Maria
Bonita passaram anos perambulando pelo sertão, até ser cercados e executados
pela polícia. Os dois, porém, ainda não puderam descansar em paz. A cabeça
de ambos, única parte que sobrou dos cadáveres, continua sem sepultura. Há
algumas semanas, os crânios foram transferidos de Salvador para Aracaju,
onde estão sob os cuidados de uma neta de Lampião e Maria Bonita, Vera
Ferreira. Na capital baiana restam outras dez cabeças de cangaceiros,
acomodadas em caixas de madeira nas quais se lêem nomes lendários, como
Corisco, Zabelê, Canjica e Azulão.
As caixas estão em dois gaveteiros
do Cemitério Quinta dos Lázaros e a discussão sobre que destino dar a elas
veio à tona depois de uma inundação. “Essas cabeças são patrimônio histórico
e estão correndo risco”, diz o pesquisador Lamartine Lima, perito do
Instituto Médico-Legal (IML). “As famílias dos cangaceiros precisam decidir
logo o que farão com elas.”
Na última vez em que as caveiras
do bando de Lampião foram notícia, em 1969, deu-se um grande debate nos
meios intelectuais e nos botequins baianos. Na ocasião, estavam expostas em
prateleiras no IML. O filho de Corisco, o economista Sílvio Bulhões, achava
aquilo mórbido demais e liderou um movimento pela transferência dos restos
mortais para um cemitério. Conseguiu. Desta feita, é o cemitério que quer se
livrar das dez caixas, pela falta de condições de conservação.
A pesquisadora Vera Ferreira
encarregou-se de resgatar a cabeça de Lampião e Maria Bonita. Ela pretende
montar em Aracaju o Museu do Cangaço. “Lá, entre outras coisas, vou
construir um memorial, onde meus avós enfim terão uma sepultura decente”,
diz. Enquanto isso não acontece, os crânios permanecem em lugar não
revelado. Vera teme que sejam roubados, como ocorre periodicamente com a
lápide do cantor Raul Seixas.
Virgolino Ferreira da Silva e seus
homens foram mortos em 1938 por uma volante, uma tropa especial da polícia,
na Grota do Angico, um esconderijo perto da divisa entre Sergipe e Alagoas.
Alguns cangaceiros, como o pernambucano Lampião, foram mortos à bala.
Outros, como a baiana Maria Bonita, foram degolados vivos. Os corpos
decapitados foram enterrados em covas rasas, no meio da caatinga. Para
mostrar a eficiência do combate ao cangaço, a polícia saiu em excursão pelo
país exibindo a cabeça dos bandoleiros.
Depois da turnê, as caveiras
acabaram no IML de Salvador. Foram utilizadas numa
pesquisa que procurava comprovar a teoria do médico italiano Cesare Lombroso
segundo a qual é possível identificar personalidades criminosas a partir das
feições e do formato do crânio. Aos historiadores e à comunidade médica
agradaria que fossem transferidas para o Museu Etnográfico. O problema é que
o museu fechou. (TIAGO CORDEIRO, DE SALVADOR)
(© ÉPOCA)
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