Projeto idealizado em 1954
ganha a primeira peça hoje pela manhã e vai ser ampliado com estátuas
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Antes de
explicar todos os significados existentes em torno de sua mais nova criação,
um obelisco em homenagem aos heróis da expulsão dos holandeses de Pernambuco, Francisco Brennand faz questão de deixar
claro duas coisas. Em primeiro lugar, ele diz que a obra, erguida numa praça
temática em frente à Oficina Cerâmica, não foi construída para se tornar
pública ou famosa, mas é voltada para os que vivem e trabalham com o artista
em seus terrenos na Várzea. Em segundo, ela não deve ser confundida com uma
resposta vingativa para atingir as recentes e numerosas homenagens a
Maurício de Nassau, levadas adiante principalmente pelo Instituto Ricardo
Brennand. O ceramista apenas quer fazer uma homenagem pessoal e particular
àqueles que ele considera os fundadores do sentimento brasileiro de nação.
"Eu, como artista, não posso deixar de reconhecer o valor de Nassau, um
homem das artes que ergueu o Recife, mas isso não quer dizer que eu vá fazer
uma concessão à História e esquecer que ele nos governou à mão de ferro.
Inimigo é inimigo", define o artista, que, apesar de ter na homenagem seu
principal objetivo, não consegue deixar de criticar essa espécie de
sentimento de gratidão que alguns pernambucanos mantêm pelos holandeses. Ele
acha contraditório que o Estado renda homenagens ao mesmo tempo aos
holandeses e à expulsão deles. "Eu sou contra a controvérsia na História."
O obelisco foi erguido em frente aos portões da Oficina, sobre uma pequena
praça redonda com uma Cruz de Malta no meio, para reforçar a alusão aos
portugueses. No centro da cruz, o nome dos heróis está escrito em cada um
dos quatro lados, citando André Vidal de Negreiros, João Fernandes Vieira,
Henrique Dias e Felipe Camarão. Duas placas de cerâmica próximas ao
monumento trazem poemas escritos por César Leal sobre o tema. Brennand quer
inaugurá-lo de manhã o mais cedo possível, para garantir que seus
companheiros-funcionários sejam maioria no momento.
"Não quero exaltar Portugal, pois não ignoro que eles fizeram tudo também
por interesses econômicos, mas toda arte sempre teve ligação com o poder."
Brennand não quis que sua homenagem fosse incluída entre os festejos
oficiais, para deixar claro que esse é um projeto pessoal iniciado em 1954,
quando ele voltou da Europa e foi convidado para fazer uma exposição sobre o
tema, construindo o famoso painel da Batalha dos Guararapes na década
seguinte.
Aos poucos, ele pretende ampliar o número de peças no local. O obelisco é
como um marco inicial para esses planos, que incluem a confecção de estátuas
dos heróis para serem colocadas em torno da praça e a restauração da ponte
sobre o Rio Capibaribe destruída pela cheia de 1975, que Brennand quer
transformar em um mirante. O artista não quer publicidade para o projeto por
entender que trata-se de algo que diz respeito aos que vivem na Várzea,
lugar que, segundo ele, serviu de espaço para as conspirações
pré-Restauração. "A Várzea foi a primeira capital de Pernambuco e,
conseqüentemente, do Brasil".
Brennand também se antecipa às futuras críticas ao ressalvar que o
obelisco não tem nada de fálico. Ele fez a peça com pedra, esculpida pelo
Seu Vavá, um assistente que ele não pára de elogiar. "Se eu fizesse de
cerâmica ela teria de ficar mais arredondada e eu sei que todos iriam
enxergar uma conotação fálica". Apesar do esmero do trabalho de Vavá, o
monumento sofre uma leve inclinação para o lado, falha que Brennand logo
tratou de elogiar e enxergar como simbólica, pois torna a peça única. "É um
obelisco totalmente brasileiro", acrescenta, complementando que as rochas
utilizadas foram coletadas nos entornos de onde aconteceu a Batalha dos
Guararapes.
O artista também deixa claro que tem consciência de que muitos vão
entender a homenagem como uma provocação contra o seu primo Ricardo
Brennand, que vem promovendo exposições que valorizam a passagem dos
holandeses pelo Estado, mas garante ser este um projeto idealizado antes
desse modismo em torno da passagem de Nassau por Recife. Ele considera uma
traição evocar os holandeses sobre o solo que pertenceu a João Fernandes
Vieira. "Um pernambucano que elogia Nassau age da mesma forma de um judeu
que homenageia Hitler. Acho que Ricardo Brennand e o prefeito João Paulo se
acham os novos Maurício de Nassau".