05-06-2008
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Nenhum carrasco
habilitou-se a executá-lo. Nem mesmo em troca da liberdade,
presidiário algum aceitou a tarefa. A execução de frei Caneca
(detalhe), óleo de Murilo la Greca. |
Educado no Seminário de Olinda,
centro de difusão de idéias liberais, tornou-se um dos mais combativos
lutadores pela independência e pela república nos anos de 1817 a 1824
Frei Joaquim do Amor Divino Caneca levou o
liberalismo aprendido no Seminário de Olinda às últimas consequências.
Contra o autoritarismo de d. Pedro I, pegou em armas, e pagou com a vida
pela rebeldia
Ricardo
Maranhão, historiador. O autor recorreu ao artigo A Confederação do Equador,
de Maria Cristina Cortez Wissenbach, in História Texto e Consulta (Editora
Brasiliense, 1977)
Cadeia pública do
Recife, 10 de janeiro de 1825. Um homem é condenado à forca, em sentença
lavrada por comissão militar nomeada pelo imperador d. Pedro I. A forca está
levantada no patíbulo, o condenado já rezou, já se confessou, já adquiriu a
serenidade diante do inevitável. Só falta o carrasco.
A autoridade militar está em busca de
um carrasco, que não aparece, pois não há quem queira executar aquele
condenado. Manda-se chamar um preso comum, um mulato recrutado às pressas
com promessas de benefícios. Mas o mulato não quer enforcar o condenado,
mesmo sofrendo ameaças e sendo espancado a coronhadas pela soldadesca.
Nos dias 11 e 12 a tensão da espera
continua. Mais um negro, igualmente espancado, e mais outro, igualmente
torturado, se recusam a enforcar aquele homem que espera em sua cela. Do
lado de fora da prisão, muita gente pede clemência para o condenado.
Petições, passeatas de ordens religiosas, nada demove a vontade imperial de
executar aquele homem querido e respeitado, e não há carrasco disposto a
enforcá-lo. Trata-se do revolucionário liberal Frei Joaquim do Amor Divino
Caneca.
O PANFLETÁRIO
Nascido em Recife em 1799, de
origem humilde, Joaquim do Amor Divino vendia canecas nas ruas do Recife
quando garoto, daí a origem de seu nome eclesiástico quando se tornou frade
carmelita. Educado no Seminário de Olinda, centro de difusão de idéias
liberais, tornou-se um dos mais combativos lutadores pela independência e
pela república nos anos de 1817 a 1824.
Caneca participou da revolução de
1817, momento decisivo da efervescência política do Nordeste
pré-independência, e amargou anos de cadeia por isso. Libertado em 1821, no
bojo da luta final pela independência, concretizada no ano seguinte, como
inúmeros políticos brasileiros ele passou a concentrar sua atenção na
discussão do projeto da Carta Constitucional do nascente Estado.
NO RECIFE, AS TROPAS INGLESAS MASSACRARAM INDISCRIMINADAMENTE A
POPULAÇÃO E INCENDIARAM PARTE DA CIDADE
Mas, depois de
nove meses de trabalhos que agitaram o ano de 1823, a Assembléia
Constituinte, que daria forma ao regime brasileiro, foi fechada por d. Pedro
I, numa crescente afirmação de autoritarismo. As vozes de protesto contra a
arbitrariedade ecoaram por todo o país, principalmente no Nordeste. Ali, o
fogo revolucionário aceso em 1817 havia deixado fortes brasas, estimuladas
novamente pelo gesto do imperador.
Durante 1823 e 1824, em Recife,
vibrou nos ânimos populares a ação de dois jornalistas - ideólogos do
movimento -, Cipriano José Barata e Frei Caneca. Em seu jornal Tífis
Pernambucano, cujo primeiro número data de 25 de dezembro de 1823,
Caneca analisava com ácidas críticas os recentes atos do imperador, e
conclamava os pernambucanos à revolta.
Imposta ao país, em 1824, a nova
Constituição Imperial outorgada, recusaram-se as Câmaras de Olinda e Recife
a lhe prestar juramento. Entre os votos contrários à aceitação da Carta
encontrava-se o de Frei Caneca, por considerá-la iliberal e
contrária à liberdade, independência e direitos do Brasil. Para ele, a
Carta tinha sido apresentada por quem não tinha direito de fazê-lo, na
medida em que toda constituição deveria exprimir um pacto social entre
governantes e governados.
Quando Recife, em março de 1824, se
encontrava bloqueada por navios de guerra comandados por John Taylor, como
um ultimato aos pernambucanos para aceitação das medidas intervencionistas
de d. Pedro na presidência da província, Caneca denunciava: S.M. está tão
persuadido, que a única atribuição que tem sobre os povos, é esta do poder
da força, a que chamam outros a última razão do Estado, que nos manda jurar
o projeto com um bloqueio à vista, fazendo-nos todas as hostilidades .
Antecipando as prerrogativas
estabelecidas na Carta outorgada, d. Pedro, dado o clima de revolta na
província, havia nomeado um elemento de sua confiança, Francisco Pais
Barreto, em substituição ao governante provisório, Manuel de Carvalho Pais
de Andrade, apoiado pelo povo. Negando-se a aceitar a substituição,
Pernambuco rompeu com o governo central: em 11 de junho, Taylor retirou-se
com seus navios, e em seguida Pais de Andrade, livre da ameaça direta,
proclamou a Confederação do Equador.
A organização da Confederação do Equador como novo Estado, desvinculado do
Império, procuraria seguir as linhas do modelo americano: deveria aglutinar
as províncias do Norte, sob a forma federalista, com um governo
representativo e republicano. Assim sendo, uma das primeiras preocupações do
governo rebelde era a adesão das províncias vizinhas: com apoios no Rio
Grande do Norte e no Ceará, os revolucionários passaram a recrutar
simpatizantes e adeptos na Paraíba, no Maranhão, na Bahia e em Alagoas.
Caneca logo passou a organizar um
projeto de Constituição a ser discutido na Assembléia Constituinte da
Confederação. Mas a importância de seu papel revelou-se no movimento de 1824
como secretário do governo revolucionário, líder popular e capitão de
guerrilhas, pois a rápida reação repressiva do Império exigiu a suspensão
dos trabalhos constitucionais e todo o empenho na resistência a d. Pedro.
O GUERRILHEIRO
Na Carta Régia
de 25 de julho de 1824, o imperador suspendeu os direitos e liberdades
individuais nas províncias rebeladas, declarando-as em estado de sítio, e
determinando a criação de tribunais militares, presididos pelo brigadeiro
Francisco de Lima e Silva, para julgar sumariamente os cabeças do movimento.
Contando com fundos reduzidos, d.
Pedro financiou a repressão com empréstimos e tropas mercenárias do
exterior, principalmente da Inglaterra. Em 2 de agosto de 1824 zarpou do Rio
de Janeiro uma divisão naval da esquadra South American Station
comandada por Lorde Thomas Cochrane, responsável pela ofensiva marítima,
conduzindo uma tropa terrestre de cerca de 1.500 homens, chefiada pelo
brigadeiro Lima e Silva. Cochrane e Lima e Silva receberam instruções
radicais: que não se aceitasse capitulação e que os rebeldes fossem
condenados à morte.
Em Pernambuco, onde se concentravam
as maiores forças confederadas, o bloqueio marítimo começou em 19 de agosto,
enquanto as tropas de terra, já unidas com as forças pernambucanas, se
encaminhavam para o Recife, onde conseguiram penetrar em 12 de setembro de
1824. As tropas confederadas, vencidas, retiraram-se para Olinda. Alguns
dias depois, aceitaram uma capitulação cujos termos não foram respeitados.
Enquanto isso, em Recife, as forças inglesas usavam de extrema violência,
incendiando grande parte da cidade, saqueando casas e massacrando
indiscriminadamente a população. No dia 17 de setembro, Lima e Silva já
dominava totalmente a cidade.
A resistência, no entanto,
continuaria sob a forma de luta guerrilheira no interior. Frei Caneca e
Agostinho Bezerra Cavalcanti, entre outros, organizaram a Divisão
Constitucional da Confederação do Equador e saíram de Olinda para se juntar
aos cearenses do general Filgueiras. Durante três meses percorreram as
províncias vizinhas em combates de guerrilhas.
Nesse movimento, a adesão da
população local era decisiva, e Caneca pode contar com ela num primeiro
momento. Entretanto, uma parcela dos aliados da Confederação afastou-se
rapidamente, pois o governo revolucionário havia decretado a abolição do
tráfico negreiro no Recife, descontentando os grandes proprietários de
terras. Registraram-se algumas batalhas, mas não ocorreu o encontro com os
reforços de tropas cearenses, pois o general Filgueiras, seu chefe, tinha
sido obrigado a render-se em novembro.
Finalmente, cansados da longa
jornada, e com os batalhões minguados pelos combates, a divisão guerrilheira
rendeu-se no Ceará, em 29 de novembro de 1824. Os chefes, como Frei Caneca e
Agostinho Bezerra, foram levados de volta ao Recife, para julgamento e
execução.
A aura mística de popularidade de
Caneca, entretanto, quase punha abaixo os planos repressivos. Enquanto se
preparava sua morte, muitos outros líderes revolucionários, em diversas
províncias, eram executados. Mas as horas se arrastavam desde o dia 10 de
janeiro, quando foi lida a sentença, e ninguém queria executar o religioso.
Finalmente, na madrugada do dia 13, a
sentença foi reformada, a condenação do revolucionário passou a ser o
pelotão de fuzilamento. Impessoal, o ato de cada soldado do pelotão era mais
viável, e mesmo assim há relatos no folclore pernambucano sobre um mal-estar
terrível de um dos executores no momento da fuzilaria. Caneca, de cabeça
levantada, recebeu as descargas. Seu corpo sem vida foi levado para o
convento dos carmelitas, onde foi enterrado. Com ele, uma parte importante
do ardor radical liberal do início do século XIX.
(© História Viva)
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