05-06-2008
Hugo Sukman
No Canecão, Margareth Menezes comanda
o empolgante ensaio de seu bloco, Os Mascarados, sucesso do carnaval de
Salvador. Ir lá, pular ao som da mais vigorosa das cantoras baianas
contemporâneas, é a melhor maneira de se relacionar com a face carnavalesca
de Margareth, com a música baiana de carnaval.
Ouvir os não raros registros “ao
vivo” como este lançado na atual temporada, “Tete a tete Margareth”
(Independente), são os tais outros quinhentos. Reproduzir a contento em
disco a empolgação carnavalesca baiana ninguém consegue, nem a superprodução
de Daniela, nem a técnica apurada de Ivete, nem a verdade épica dos blocos.
Nem a força de Margareth. Todos eles comandam multidões na rua com
galhardia, dão-se bem nos estúdios mas soam inevitavelmente mais pálidos nos
registros ao vivo.
Paródia de Belchior vai de Lamartine e Mallarmé
Não que “Tete a tete Margareth”,
gravado ao vivo em agosto na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, seja
disco ruim, pelo contrário. Dá gosto de ouvir, por exemplo, a cantora
destrinchando, diante de uma multidão empolgada como quem ouve “Mamãe eu
quero”, a complexa letra modernista de Belchior “Do mar, do céu, do campo”,
que leva à axé music de forma paródica tanto a tradição inventiva da música
carnavalesca de Lamartine e Noel (“X do problema/A culpa é do cinema/A, E,
I, O,U, dabliú, dabliú na cartilha da Juju”, cita) como citações eruditas a
Mallarmé (“Mais um lance de escadados”) e a obsessões concretistas (“Inventa
provenças na minha canção”).
É animadora a apropriação
carnavalesca do choro clássico “Carinhoso”, puxado para marcha no arranjo do
guitarrista Adson Santana. Ou a filiação que Margareth — e Os Mascarados —
faz questão de ressaltar com os velhos carnavais, o do lírico Chico Buarque
dos anos 60 (“Noite dos mascarados”), o do marginal Sérgio Sampaio dos anos
70 (“Eu quero botar meu bloco na rua”), em marchas-ranchos clássicas que
variam a dieta habitual calcada em samba-raggae.
Dá gosto, nas inéditas, deparar-se
com Gerônimo em forma (“Toté de Maianga”) e a própria Margareth exercitando
a veia tribalista em “Chuviscado”.
O difícil é se empolgar tanto quanto
os milhares presentes à gravação em clássicos do carnaval baiano
contemporâneo como “Alegria na cidade” (Lazzo/Jorge Portugal), “Faraó”
(Luciano Gomes), “Dandalunda” (Carlinhos Brown), tão fortes na rua, tão
frágeis no disco, a empolgação se transformando em estridência. Ou se
surpreender, como na rua se surpreende, de se ouvir a erupção complexa de “O
quereres” (Caetano Veloso) imiscuindo-se na folia. No disco, a gravação nada
acrescenta.
Margareth, como no bom último disco,
“Afropopbrasileiro”, empolga quando não tenta reproduzir o carnaval.
(© O Globo)
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