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Mombojó reforça pop de Pernambuco

05-06-2008

Grupo surpreende em seu disco de estréia, "Nadadenovo", mesclando ritmos como indie rock, dub, reggae e samba

ALEXANDRE MATIAS
FREE-LANCE PARA A FOLHA

   Enquanto a Nação Zumbi se consolida como o principal grupo musical do Brasil e Fred 04 confirma seu Mundo Livre S/A como a mais importante banda de protesto na ativa no país, Pernambuco continua uma usina orgânica de produção musical pop.

   Seguindo a curva ascendente que gerou novas pedras fundamentais para a música do Estado (os shows do Cordel do Fogo Encantado, "Olinda Original Style", do grupo Eddie, e "BSC", do Bonsucesso Samba Clube), o septeto adolescente Mombojó crava mais um degrau na escalada, com seu surpreendente disco de estréia, "Nadadenovo", lançado pela própria banda.

   Na ativa desde 2000, o grupo não faz muita distinção entre gêneros musicais, formatos pré-estabelecidos de canção e jam sessions. Na mistura, reggae, MPB, pós-rock, indie rock, dub, samba. Na formação, teclados, escaleta, samplers, cavaco, violão, flauta, baixo, guitarra e bateria. No comando dos instrumentos, sete jovens cuja idade média não passa dos 20 anos. Apesar de ser uma banda adolescente, o som passa longe dos clichês reverberados pela publicidade do gênero.

   "A gente cresceu junto com a música independente no Brasil", explica o vocalista Felipe. "Nosso CD é assim, a gente fez o que quis da capa à escolha do repertório e a forma de tocar. Usamos toda a liberdade que a gente podia: isso é independente!" O grau de envolvimento com os novos formatos que a música mundial aos poucos assume mostra a sintonia do grupo com seu tempo: além de lançado no formato tradicional, o disco pode ser baixado no site do grupo, www.mombojo.com.br.

   Mais do que isso: "A gente está pensando em colocar os arquivos de várias músicas no site pra quem quiser fazer download e remixar, na linha do conceito de "generosidade intelectual" defendida pelo pessoal do Re:Combo", continua Felipe. O produtor H.D. Mabuse, idealizador do grupo de criação em rede citado pelo vocalista, foi o primeiro a remixar uma música do Mombojó, "A Missa".

   "Nadadenovo", gravado em 2003, contou com a presença do baixista da Nação Zumbi, Dengue, em uma das faixas ("Estático"), "porque ele é uma das pessoas que a gente gostaria que produzisse nosso CD", explica Felipe, listando outros produtores que admira: Arto Lindsay, Apollo 9, Ry Cooder e Nigel Godrich.

   "Mas a gente gosta mesmo é de chamar gente que não é músico: chamamos meu irmão e irmã de três e cinco anos pra gravar vozes, uma galera grande pra fazer coro", lembra o vocalista, Tiago Andrade, que gravou viola de arco na faixa "Absorva", esqueceu o celular ligado numa das gravações e recebeu uma chamada, explicando o ruído incômodo na canção.

   É nesse clima de entropia sonora que "Nadadenovo" se move -refrões inesperados, andamentos chapados, grooves cuja malemolência tende à paranóia ou à anestesia química. Efeitos sonoros se confundem com dramas amorosos, graves espetaculares chocam-se improvisos jazzísticos, cada músico indo para um lado, e é justamente essa disparidade de papéis no grupo que dá a surpreendente -e madura- unidade sonora do grupo.

   Atirando em frentes diferentes e não-ortodoxas, no entanto, não transforma o Mombojó em uma banda "difícil", como uma definição dessas pode supor. Pelo contrário: faz parte de um crescendo que move a nova música brasileira como um todo -pop e experimental, orgânica e digital, zen e paranóica, politizada e hedonista.

(© Folha de S. Paulo)


CRÍTICA

Grupo transcende o cenário pós-Chico Science

FREE-LANCE PARA A FOLHA

   "Nem parece que foi ontem que o acontecido aconteceu/ Nem parece que o esperado num instante desapareceu", Felipe canta sobre o fim de um relacionamento, mas parece estar falando do estado atual da música brasileira. Afinal de contas, até outro dia vivíamos o ápice da música de mercado, martelando 24 horas por dia e o fundo do poço no quesito inovação musical. Em menos de cinco anos, a música brasileira vive literalmente uma fase de ouro.

   Mesmo tendo ecos fortes e talvez até mais importantes a longo prazo em cidades como Porto Alegre, Rio de Janeiro, Curitiba e São Paulo, a reinvenção da auto-estima brasileira tem a ver com o coro dos descontentes descrito no manifesto/press-release que inaugurou o mangue beat, em 92.

   Assim pode ser descrito o Mombojó, uma palavra inventada, cujo nome não quer dizer nada específico: "É uma viagem da gente em não se apegar a coisas concretas, nossas letras têm uma referência mais abstrata", explica o vocalista.
Tentativas podem colocar os sete garotos como filhotes musicais da parceria Tom Zé e Tortoise ou uma antecipação de um encontro fictício entre o Hurtmold, o Mundo Livre S/A e o Instituto, envoltos por baforadas brancas de reggae apocalíptico. "Nadadenovo" avisa pro resto do Brasil que este ano os trabalhos começam antes do Carnaval, com um disco surpreendente, coeso, reverente e, que beleza, divertido.

(ALEXANDRE MATIAS)

Nadadenovo
    
Artista: Mombojó
Lançamento: independente
(mombojo@mombojo.com.br)
Quanto: R$ 15

(© Folha de S. Paulo)

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