05-06-2008
 |
|
Daúde |
Bernardo Araujo
Elas são lindas, afinadas, chiques,
badaladas. A baiana Daúde, negra sestrosa, atraiu a atenção de Peter
Gabriel, que a contratou e lançou seu disco “Neguinha te amo” por sua
gravadora, a Real World, especializada em world music; Kátia
Bronstein, ou Kátia B, gravou e lançou seu segundo CD, “Só deixo meu coração
na mão de quem pode”, pela MCD, de São Paulo. O disco e a associação de seu
nome ao do produtor Suba (que mixou seu primeiro disco, “Kátia B”, e a
convidou para cantar em um disco próprio), fera da música eletrônica que
morreu em 1999, fazem-na chamar a atenção até na Holanda, onde ela ganhou
rasgados elogios na revista “Oor” e já vendeu 600 CDs; a bela Mariana de
Moraes ainda não tem disco gravado no Brasil, mas vai bem no exterior: já
gravou um CD em Los Angeles e agora negocia com duas gravadoras inglesas,
além de cantar em países como a França e a Itália. O que falta, no entanto,
para essas três mocinhas elegantes (e dezenas de artistas como elas)
deslancharem no Brasil?
“Estouro no exterior é um mito”, diz Daúde
Daúde é a primeira a não reclamar de
nada, apenas trabalha e comemora.
— É mais um passo, estou começando de
novo, como sempre — diz ela. — O principal é que tenho respeito pelo meu
trabalho. Essa história de repercussão no exterior é ótima, mas não se pode
levar a sério demais. É um mito dizer que determinado artista brasileiro
está estourado no exterior: lá eles conhecem bossa nova e o pessoal das
pistas remixa umas coisas, só isso.
Talvez com algumas exceções, como a
lembrada por Mariana:
— A Bebel ( Gilberto ) está
estourada no exterior — afirma. — Vi um show em Londres, e ela é realmente
um sucesso.
A condição de país do Terceiro Mundo
é um dos primeiros motivos contabilizados pelas três entre as dificuldades
para estabelecer uma carreira no Brasil.
— No exterior, as pessoas ainda
conseguem comprar discos — diz Daúde. — A condição social das pessoas aqui
não permite isso. O povo brasileiro já é heróico de passar por tudo o que
passa e ainda viver com tanta alegria. Mas não estou reclamando, consigo
viver da minha música, sei que tem qualidade, já está ótimo.
Aos poucos, Daúde vai lançando o
disco — que está sendo distribuído no Brasil pela EMI: no carnaval, ela
estará em Recife.
— No meio do ano, vou a Londres
promover o CD, devo ir à Espanha e à França — conta. — Para quem nunca teve
o orçamento de um disco de grande gravadora, está bom.
Kátia garante que prefere um trabalho
como o que está fazendo a lançar um disco por uma companhia multinacional.
— Tenho total liberdade artística, o
disco sai do jeito que eu quero — diz. — Hoje em dia tem que ser assim, o
cantor tem que ser um pouco produtor, empresário, participar do processo
todo. Até porque as grandes gravadoras não existirão por muito mais tempo.
Ela confessa, no entanto, que o
esquema bloco-do-eu-sozinho tem seus problemas.
— Sinto-me um pouco solitária —
admite. — Gostaria de poder encontrar mais gente, trocar experiências, acho
que isso é fundamental para quem faz arte. E eu faço música por necessidade
pessoal, preciso disso.
Mariana concorda.
— Hoje em dia todo mundo tem que ter
seis empregos, ninguém se encontra — diz. — Estou ficando revoltada contra o
capitalismo, logo eu que adoro um McDonald’s...
Daúde, que não se importa com a
solidão, admira a união dos sambistas.
— Eles se reúnem para tomar cerveja,
comer, conversar, e daí sai o samba — diz. — Pobre é bom por isso, divide
tudo.
Apesar de fazer um pop antenado, com
tinturas eletrônicas, a baiana não nega seu amor e as influências de várias
praias.
— Adoro samba, reggae, rock, um pouco
de tudo — conta. — Quando era menina, tinha vergonha de gostar do Michael
Jackson, porque meus amigos só se permitiam ouvir música brasileira. Hoje
tenho orgulho de não pertencer a nenhuma panela. Meu som não é eletrônico, é
contemporâneo.
Mariana, das três a mais ligada em
MPB tradicional — encerrou ontem uma temporada no Centro Cultural Carioca de
um show apenas com músicas de seu avô Vinicius de Moraes — confessa que
sofre com isso.
— Volta e meia alguém vem me sugerir
colocar um beat nas minhas músicas, mas eu não quero isso — diz. —
Acho que no exterior nós somos tratados com mais respeito.
Daúde faz um raios-x dos
estrangeiros:
— Eles estão 40 anos na nossa frente
no social e cem atrás emocionalmente — decreta.
Na próxima semana ela embarca para a
Europa, onde deve fechar o contrato de seu segundo disco — o primeiro,
“Mariana de Moraes”, que até hoje não foi lançado aqui, tem a moça cantando
clássicos como “Fotografia”, “Se é pecado sambar” e “Agora é cinza”; em
março, ela segue para Paris, onde canta e apresenta o festival Chorus 92.
— Tudo isso é lindo, mas ao mesmo
tempo me dá ódio — diz ela. — Vou à Europa por necessidade artística, mas
minha música é daqui, gostaria de gravar aqui. Não consigo viver da minha
música até hoje.
Já Kátia gosta da idéia de viajar:
— Vai para lá, pega sua filha e se manda —
aconselha, rindo. — Acho que o nosso caminho pode ser esse, começar fora e
ir trazendo para cá. É claro que o nosso lugar é aqui.
(© O Globo)
Quem são elas
DAÚDE
GÊNERO: Pop dançante, com tintas de MPB e batidas eletrônicas.
DISCOGRAFIA: “Daúde” (1995), “Daúde #2” (1997), “Simbora” (1999) e
“Neguinha te amo” (2003), além dos singles “Véu Vavá” (1996), “Pata
pata” (1997), “Vamos fugir” (1998) e “Vênus” (1999).
PARTICIPAÇÕES: “2toiévski toca Caetano” (1998), “O canto negro do Ylê
Ayê” (1998), “Siderado” (Skank, 1999) e “O som do sim” (Herbert Vianna,
2000).
KÁTIA B
GÊNERO: Música eletrônica leve, descrita como laidback ou
lounge , com elementos brasileiros.
DISCOGRAFIA: “Kátia B”, de 2000, e “Só deixo meu coração na mão de
quem pode”, de 2003.
PARTICIPAÇÕES: “Básico instinto” (Fausto Fawcett e Falange Moulin
Rouge, 1993), “São Paulo confessions” (Suba, 2000) e “Suba tributo” (vários,
2002).
MARIANA DE MORAES
GÊNERO: Samba e bossa nova.
DISCOGRAFIA: “A alegria continua — ao vivo”, com Élton Medeiros e Zé
Renato, 1997, e “Mariana de Moraes”, de 2001, lançado nos Estados Unidos e
no Japão.
PARTICIPAÇÕES: “Samba pras crianças” (2000).
FILMOGRAFIA: “Tabu” (1982), “Nem tudo é verdade” (1986), “Fulaninha”
(1986), “Leila Diniz” (1987), “Alma corsária” (1993).
(© O Globo)
|