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Luiz Arraes reúne novos contos em O Remetente

05-06-2008

O remetente

Sexto livro do autor integra coleção Rocinante, da carioca 7 Letras

Augusto Pinheiro
Da equipe do DIARIO

   O livro deveria ter sido lançado no Recife durante a Bienal do Livro, em outubro do ano passado, mas, por um problema no envio, os exemplares só chegaram do Rio de Janeiro após o fim do evento. Assim, O Remetente, do pernambucano Luiz Arraes, 44, não contou com lançamento na cidade.

   A publicação, parte da coleção Rocinante, da editora 7 Letras (RJ), apenas pode ser encontrada na livraria Idéia Fixa, em Parnamirim, onde o autor deixou pessoalmente alguns exemplares. A discrição do filho do deputado Miguel Arraes e irmão do diretor Guel Arraes e do escritor José Almino é fruto de sua personalidade pouco afeita à exposição.

   Luiz Arraes, que chega com O Remetente ao sexto livro (todos de contos), é médico e diz que ainda não se considera escritor. "Sou apenas alguém que escreve. Tornar-se escritor é, como na psicanálise, um processo silencioso em que um certo dia você se sente diferente. Não existe o estalo", explica.

   Mas os textos ali publicados não deixam dúvidas do talento de Luiz com as palavras. Os contos e minicontos (alguns não chegam a meia página) prendem o leitor com uma escrita fluida e podem ser tanto um soco no estômago quanto um sussurro no ouvido, o que depende muito da vivência e das experiências de quem lê.

   Mas o estilo é sempre leve, apresentando assuntos dolorosos e difíceis em tom poético e delicado, quase pequenas fábulas, que levam à reflexão. Entre os temas abordados estão morte, pobreza, violência familiar, medo, angústia, tristeza, abandono, perda, todos diretamente ligados ao sofrimento humano.

   "Eu me interesso muito pelas pessoas. Acho que, até por causa da minha atividade médica, trato muito do sofrimento dos outros nos meus textos. E, na escrita, isso me alivia", diz o infectologista e professor da UFPE.

   A maioria dos textos é escrita na primeira pessoa, mas sem traços autobiográficos, com algumas exceções. Segundo ele, "a facilidade que o personagem tem para conduzir a histórias, como nas novelas", é a razão de tantos "eus". Os enredos são criados a partir de cenários que impressionaram o autor, como o museu Jeu de Paume, em Paris, ou o mirante de Santa Luzia, em Lisboa. "Curiosamente, nunca começo pelos personagens", revela.

   Já a síntese textual não é bem uma escolha, mas reflexo da sua personalidade. "Não é apenas fruto de estilo, mas da impaciência e inquietação que tenho para acabar a história. Já quando falo sou muito prolixo", afirma. Outro motivo que cita são os artigos médicos que escreve, "frutos de pesquisas que levam meses ou anos e que são resumidas em três páginas". Atualmente, na busca por uma história de mais fôlego, ele se dedica a uma novela. Mas almeja mesmo um romance.

   Entre as suas influências literárias, ele destaca o francês Honoré de Balzac ("apesar de ser prolixo"), o argelino Albert Camus e o cubano/italiano Italo Calvino, cujo estilo nas pequenas histórias parece ter sido indiretamente absorvido por Luiz.

   EXÍLIO - O interesse de Luiz por literatura começou no período de exílio de seu pai na Argélia, onde ficou dos 10 aos 20 anos, quando mergulhou de cabeça na literatura brasileira para sentir-se mais próximo de seu país. De volta ao Brasil, ficou amigo do vizinho Ariano Suassuna. "Ele me indicou muitos livros", conta.

   O contato com Ariano, Raimundo Carrero e Maximiano Campos levou Luiz à constatação de que "os escritores são de carne e osso". O ambiente familiar também alimentou a paixão pela escrita, cujas primeiras experiências foram as cartas para o pai e para as tias. "Já era uma maneira de contar histórias", diz. O primeiro livro, pela editora Inojosa, saiu em 1990 por insistência do editor. "Foi um dos poucos que fiz um lançamento", diz.

   Pela editora carioca 7 Letras, ele já havia lançado dois livros, O Desaparecido (1997) e O Que Faz um Homem Rir? (1998), além de colaborar com contos para a revista da editora, Ficções. O novo livro sai pela coleção Rocinante, que reúne, na maioria, escritores pouco conhecidos. Esses autores já formaram uma espécie de confraria. "Estamos trocando muitos livros e e-mails. Vamos ver no que vai dar", diz Luiz.

(© Pernambuco.com)

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