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Maciel Salu subverte tradição

05-06-2008

Glauco Spíndola

Zé dos Passos e Maciel Salu

   Textura moderna, que nada! Antes de sair o disco, Maciel Salu havia dito que seu primeiro trabalho solo, A Pisada é Assim (na capa da bolachinha, está escrito apenas Maciel Salu e o Terno do Terreiro) era um disco que unia a modernidade com as tradições. Bom, é certo que ele não seguiu a cartilha dos mestres antigos, que não são flexíveis quanto a forma de tocar seus instrumentos e entoar seus cantos, mas Maciel é extremamente terra, chão, mais regional impossível. O aguardado show de lançamento acontece hoje, no Pátio de São Pedro.

   Apesar de circular em torno das tradições cultuadas pela sua família - cavalo-marinho, forró, boi, ciranda, coco - o disco não é nem um pouco previsível. Apesar da simplicidade, ninguém fez nada parecido. Nem seu pai, com todo respeito, Mestre Salu. Certo, dá para entender agora o que ele quis dizer com esse papo de modernidade. Primeiro, ele é jovem; Foi do Chão e Chinelo, depois trabalhou DJ Dolores e Orquestra Santa Massa, viajando pelo Brasil e diversos países. A inclusãode sua voz e rabeca em projetos tão diversificados, refletem no trabalho. Cada música é uma história, as referências são muitas, mas todas ali dentro do terreiro dos folguedos populares. Maciel apenas arrumou-as da sua forma, tornando-as clássicas, como se estivesse criando um ritmo novo.

   Se começa com uma rabeca entoando uma sambada de maracatu (Sambaqui), na música seguinte emenda com um forró de rabeca (Pernambuco é o Lugar) e depois vem com uma canção mais cadenciada, Gaiola da Saudade, um ritmo de ciranda, na marcação das alfaias, mas com bandolim e caixas tocadas por Mr.Jam, co-autor da música, o que a torna moderna e saudosa. Presente e passado. É uma sensação recorrente do disco de Maciel Salu.

   Maciel assina doze, das treze músicas do CD. Só faz parceria com Jam e com o mestre Zé dos Passos, numa espécie de coco embolado Só Se For da Macaíba. Tem também uma do avô, João Salu, Toada Ponteada, uma eletrizante toada de cavalo marinho, na qual Maciel limita-se ao pandeiro e abre espaço para as vozese as rabecas do pai, Mestre Salustiano, e do avô, João Salustiano, que quebrou o tabu de não mais tocar por conta da igreja e foi abrilhantar ainda mais o disco do neto. Essa canção foi gravada ao vivo no terreiro da Casa da Rabeca, a casa de shows do Mestre Salustiano, na Cidade Tabajara, em Olinda. Foi lá também que Maciel gravou Só Se For da Macaíba, com a participação de Zé dos Passos.

   O disco reúne também algumas músicas que Maciel fez para trilhas sonoras, como Desatino do Norte e Desatino do Sul, espetáculo interpretado pelo Balé Municipal de São Paulo e Tejucupapo, produção pernambucana premiada em vários festivais. A voz forte de Maciel Salu - um timbre que lembra o do seu pai -, sua rabeca afinada e letras inspiradas mostram que o artista é um dos que lidera a renovação de mestres na cultura popular de Pernambuco. O Terno do Terreiro, que lhe auxilia nessa função, inclusive com os arranjos das canções, é formado por Juliano Holanda (baixo, viola de dez cordas e bandolim), Sid Batera (percussão), Zé Mário (percussão), Alexandre Urêa (percussão e vocal) e Márcio Costa (percussão e vocal). (M.A.)

Serviço

Lançamento do CD de Maciel Salustiano
- A Pisada é Assim
Quando: hoje, às 21h
Onde: Pátio de São Pedro
Entrada franca.

(© Pernambuco.com)


Salú toca o que aprendeu com mestres

Cantor-rabequeiro acrescenta elementos musicais modernos com discrição e mantém o conteúdo e identidade do ritmos tradicionais, em disco com o Terno do Terreiro

MARCOS TOLEDO

   Maciel Salú, expoente da terceira geração de uma família de músicos que tenta manter vivos ritmos tradicionais da Zona da Mata Norte de Pernambuco, chega a seu primeiro disco ‘solo’, após anos de trabalho nos grupos dos próprios Salustianos e nas bandas Chão & Chinelo e Orchestra Santa Massa. Maciel Salú e o Terno do Terreiro (independente), contudo, está longe de ser uma síntese de todas as experiências do cantor-rabequeiro. De frente para trás, os trabalhos anteriores é que receberam um pouco do que Maciel finalmente consegue reunir neste CD.

   Após quase uma década, o álbum nasce como primo-irmão de Mestre Ambrósio (Rec-Beat Discos, 1995), CD de estréia do grupo homônimo, também independente, que bebe praticamente nas mesmas fontes e mostra um forró pé-de-calçada-de-rua-não-calçada. Uma música que une a tradição da rabeca, do cavalo-marinho da Mata Norte, da percussão e das cordas a outros ritmos como o maracatu e até o moderno drum’n’bass. Maciel Salú e o Terno do Terreiro mostram ao vivo o repertório do disco, hoje, a partir das 22h, no Sábado Mangue do Pátio de São Pedro. A abertura fica por conta da dupla de emboladores Caju & Caetano da Ingazeira, de Cauêra (Aliança).

   Para formar O Terno do Terreiro, o Maciel Salú reuniu os percussionistas Alexandre Urêa (ex-Eddie), Sidclei (Ticoqueiro, de Nazaré da Mata), Zé Mário (de Condado, em substituição a Mestre Nico) e Mayra Waquim, e Juliano Holanda (Azabumba), que toca contrabaixo, bandolim e viola de 10 cordas. Cada qual contribuiu com suas mais diversas experiências.

   No CD, há ainda as participações de Mestre Nico, Caçapa e Guilherme Medeiros, ex-colegas do Chão & Chinelo, Mr. Jam, ex-companheiro da Santa Massa, Siba (Mestre Ambrósio), parceiro de muitos anos, Nino da Zabumba, Tiné (ex-Mãe Joana), outros mestres como Zé dos Passos e Dona Dá, e, no último arremate, o registro do encontro de três gerações da mesma família: Maciel Salú, Mestre Salustiano e João Salú.

   A reunião de filho, pai e avô na alegre faixa Toada ponteada, mais a participação de Mestre Zé dos Passos em Só se for da macaíba foram gravadas na Casa da Rabeca, em Ouro Preto, a casa dos Salustianos e centro de cultura popular (as outras 11 foram registradas no Estúdio Fábrica). “Foi para mostrar um pouco de onde vem minha aprendizagem”, explica Maciel.

   No apresentação de hoje à noite, o grupo interpreta o repertório do álbum à risca, com a participação de todos os convidados especiais.

Show de lançamento do CD Maciel Salú e o Terno do Terreiro. Abertura: Caju & Caetano da Ingazeira. Hoje, a partir das 22h, no Pátio de São Pedro (bairro de São José). Acesso gratuito

 
» Só se for da macaíba
» Na casa de Dona Dá
» Toada ponteada

(© Jornal do Commercio-PE)

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