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 O incansável brincante

01/02/2004

 

 

 

Mestre de cerimônias do Carnaval, Nóbrega ratifica sua polivalência

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   Antônio Carlos Nóbrega deveria ser conhecido pela denominação de multiartista não só por sua dedicação às várias linguagens culturais (dança, música, teatro...), mas também pela capacidade que ele tem de levar adiante diversos projetos complexos ao mesmo tempo. Uma série de TV sobre as danças populares brasileiras, um espetáculo e um disco totalmente dedicados ao frevo, um show especial de encerramento para o Carnaval do Recife e um longa-metragem para ser filmado no próximo ano são as atuais ocupações do brincante, que canta e dança até nos momentos de descanso.

   Radicado em São Paulo, Nóbrega intensificou suas vindas ao Recife em dezembro e janeiro quando foi convidado pela Prefeitura para pesquisar as agremiações da periferia e preparar um show de encerramento para o Carnaval deste ano. "Nos dois últimos anos, recebíamos as agremiações e fazíamos uma espécie de desfile no fim do show. Dessa vez, vou colocar no corpo do meu espetáculo as agremiações", adianta o artista, que com a experiência está pisandoem lugares que não conhecia, como a Escola de Samba Galeria do Ritmo, que visitou na semana passada.

   No projeto Frevereiro, ele vai tocar frevos de vários compositores com formações instrumentais diferentes. "Várias orquestras de estilos diversos vão tocar no CD. Vou mostrar que o frevo pode ter inúmeras configurações instrumentais sem se descaracterizar". Quanto ao longa-metragem, adianta que o roteiro vai contar uma saga do personagem Tonheta. Ainda trabalha os detalhes.

   Paralelamente, Nóbrega está gravando, em parceria com a TV Futura e a produtora Giros, a série televisiva Danças Brasileiras. Segundo o dançarino, os 11 episódios "são registros de uma série de conjuntos de manifestações populares onde a dança é um elemento presente. Nas filmagens, eu e Rosana (sua esposa) aparecemos na tela como aprendedores dessas danças, mesmo daquelas que nós já conhecemos, como o frevo, o cavalo-marinho e o maracatu rural." A dança, por sinal, foi um dos principais assuntos discutidos na entrevista que ele concedeu ao DIARIO, expondo sua visão sobre a situação da cultura popular hoje.

(© Pernambuco.com)


"Nosso Carnaval não tem celebridades: é popular"

   DIARIO DE PERNAMBUCO - Aqui em Pernambuco, todo mundo sabe cantar algum frevo, mas nem todos sabem dançar os passos. Na sua visão, por que a divulgação da música é tão diferente da divulgação da dança?

   Antônio Carlos Nóbrega - A dança sofre muito com isso. A gente não tem a cultura da dança tão inserida no universo social quanto a música. Em contrapartida, somos um povo dançarino, temos uma vocação muito grande para dançar, gostamos da dança, mas ela ainda não entrou na nossa vida por uma série de fatores. É um preconceito histórico. Mas eu acho que a gente consegue no futuro devolver à dança seu papel social, cultural, medicinal, psicológico e psíquico. O frevo talvez seja a dança popular brasileira mais diversificada, pois cada um dos vários passos já nasce com um nome. Mesmo assim, o olhar da mídia é ainda menor para os passistas do que para os compositores.

   DP - De que forma os grupos populares podem evoluir e se modernizar sem se descaracterizarem?

   Nóbrega - Esses gêneros populares não estão parados notempo. Eles estão evoluindo dentro deles mesmos. O maracatu que se bate hoje não é o mesmo de dez, cinco anos atrás. Os mestres fazem uma interfusão entre eles. Os batuqueiros do Estrela Brilhante e o Mestre Walter, por exemplo, estão sempre desenvolvendo novos baques, recombinando as variantes do ritmo. Há novos instrumentos que não faziam parte desse universo do maracatu há sete anos. Quem vê um caboclinho vê que seus passos evoluíram. Eles mudam mas continuam sendo eles. Não se perdem. A guitarra e os instrumentos eletrônicos não são mais universais, evoluídos ou melhores do que os nossos. São apenas diferentes. Na maioria das vezes são até mal utilizados na música brasileira, absorvendo tiques de má qualidade que não têm nenhuma relação com nosso jeito de ser.

   DP - E linguagens de cultura popular inteiramente novas, surgidas em grandes centros urbanos? É possível que elas ainda surjam hoje em dia? Há quem diga que o funk carioca, por exemplo, é uma espécie de cultura popular que adquiriu identidade própria nos morros pelas mãos do povo...

   Nóbrega - Eu acho que o funk e o rap são reinterpretações de uma música norte-americana divulgada pela mídia. As pessoas da periferia têm dificuldade de acesso à cultura que as rádios e redes de televisão não tocam. Eles absorvem o que é mostrado no seu dia a dia. Quando eles reinterpretam o rap e o funk, isso é muito salutar porque eles estão organizando a energia criadora que eles têm. Porém, eu acharia melhor se estivessem nas nossas rádios nossos cantadores de embolada e de coco, porque aí esse povo iria se referendar através deles. O que é bonito no mundo é a diversidade. Uma vez na Alemanha, num festival, vi um grupo brasileiro de hip hop muito bonito, com danças muito interessantes. Mas quando cheguei no hotel e liguei a televisão, vi um grupo alemão muito parecido, quase igual. Os brasileiros até misturavam um pouco com a capoeira, mas eu acho que seria melhor se ela estivesse sendo reinterpretada à nossa maneira. Pois isso nos personaliza. Nos torna diferentes. A beleza do mundo é a diversidade.

   DP - Onde você enxerga a origem desse crescimento recente do Carnaval de Pernambuco?

   Nóbrega - Há vários fatores. Primeiro, o Brasil está dando mais atenção a sua cultura popular, em uma mudança que vem sendo construída nos últimos 30 anos. Lembro que quando eu fazia parte do Quinteto Armorial a gente não conseguia seduzir os jovens em relação aos nosso ritmos, diferente do que acontece hoje. Sem dúvida, o papel de Ariano, como um missionário da cultura popular, ajudou, assim como o de Mestre Ambrósio, Cordel do Fogo Encantado, Comadre Florzinha, Silvério e Alceu Valença, que a gente nunca deve esquecer de mencionar, e tantos outros não só na música. O Carnaval daqui é talvez o maior evento cultural do Mundo nesse sentido. É um grande festival de música, poesia, dança e artes plásticas a céu aberto. Não sei se existe no mundo uma coisa com tal arretadamento. Não estou fazendo proselitismo. Hoje, num caboclinho como o Sete Flechas, você vê integrantes da comunidade, mas vê gentede fora também, como jovens de classe média, muitos de outros estados. Em São Paulo, o Maracatu está atraindo muita gente. Muitos jovens. Gente demais. Antigamente não era assim.

   DP - Então por que a mídia nacional ainda não nos dá uma maior atenção, como faz com os carnavais da Bahia, Rio e São Paulo?

   Nóbrega - Há certos tipos de patrocinadores que não podem usufruir de um carnaval popular da mesma maneira que de um carnaval que em certa medida é elitizado através de camarotes e outras coisas. Nosso carnaval não tem celebridades: é popular.

(© Pernambuco.com)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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