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02/02/2004
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No olhar distante o sentimento de que prato vazio não enche barriga
(Kilombolas - Conceição das Crioulas)
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''Mas se tiver umas gotas, aguinha de nada, cozinhamos até as besteiras que
pensamos. Nada pior do que o trovão que vem do pé da barriga''.
Meu Rei, líder do Vale do Catimbau, Buíque, Pernambuco.
Dois jornalistas no encalço da ''velha esquelética do chapéu grande'', a
atávica imagem da fome que em pleno século XXI ainda assombra o imaginário
sertanejo. A convite do Banco do Nordeste, empresa parceira do programa Fome
Zero, o repórter cearense Xico Sá e o fotógrafo carioca U. Dettmar seguiram
o rastro da miséria nos grotões do semi-árido brasileiro, perfazendo 60 mil
quilômetros entre sertões, veredas, periferias e mangues. Revisitaram o
Brasil faminto, onde crianças disputam alimentos com animais, adultos
desconhecem a idade real e o trabalho escravo prevalece como única fonte de
sobrevivência. Em meio ao abandono, réstias de humor, esperança,
transcendência, inteligência emocional. Um MecBode em Cabaceiras, na
Paraíba; um reino encantado no Vale do Catimbau, em Pernambuco; um doce de
cacto nas Alagoas; a Transmaconheira ligando cidades do Polígono da Maconha,
no sertão pernambucano.
Entre junho e agosto de 2003, o
retrato do abandono ocupou as páginas de dez jornais brasileiros. Em
Fortaleza, a série de reportagens da dupla foi publicada em O POVO,
rendendo a ambos indicação para o Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo. Em
2004, através da editora Tempo d'Imagem, toma forma de livro-documentário,
rendendo homenagem, no título e no poder de denúncia, ao médico, geógrafo e
antropólogo pernambucano Josué de Castro (1908-1973), autor de
Geografia da Fome. ''Até então, o flagelo era tratado como sina,
destino. E ele foi o primeiro a falar em desigualdade social, apontando para
uma herança política infame'', rende loas Xico Sá. Em A Nova Geografia
da Fome, ele e Dettmar seguem com o dedo na ferida do estômago
vazio, mas também focam o sertão viável, aquele que dá nó em pingo d'água. O
baiano Tom Zé, que viu a cara da fome, assina um começo de conversa ao pé da
orelha, enquanto o prefácio cabe à escritora Marilene Felinto.
Por telefone, de São Paulo, onde
mora, Xico passa a limpo fatos e reflexões mastigados ao longo da viagem.
Por e-mail, de Brasília, à convite do Vida & Arte, U. Dettmar escreve as
legendas de suas próprias fotos. Hoje, os dois marcam presença no lançamento
local de A Nova Geografia da Fome, a partir de 19 horas, no
Centro Cultural Banco do Nordeste. Uma exposição homônima permanece em
cartaz no local até o dia 31 de março, acompanhada da mostra complementar
Padre Cícero - As Marcas do Sertão, reunindo xilogravuras de
mestres nordestinos pinçadas do acervo do jornalista e pesquisador Gilmar de
Carvalho.
O POVO - Você nasceu no Crato, interior do Ceará, portanto
deve ter alguma memória visual ou textual relacionada à fome.
Xico Sá- Sim, sim... Meu avô, João Patriolino, para chocar,
dar aquele susto pedagógico, sempre contava a história do irmão dele,
Francisco Patriolino, que na seca de 1932, na construção de um açude nos
arredores do Crato, pra Serra do Araripe, e esse irmão dele morreu de fome
numa daquelas chamadas obras de emergência, já na época. Era algo como:
''Olha, a vida não é brincadeira não''. E era muito chocante ouvir isso
quando criança. Mesmo vivendo bem, meu pai tinha uma mercearia, mas fazia
questão de contar como um alerta.
OP - Guaribas, no Piauí, detentora do pior Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios brasileiros, foi escolhida
cidade-piloto para implantação do programa Fome Zero. Vocês foram até lá. O
que ainda assusta no que refere à miséria e quais os sinais de melhora
aparente?
XS - Em pouco tempo, quando houver uma nova medição de IDH,
acho que Guaribas vai registrar o maior salto que já se verificou no Brasil
em todos os tempos. Mas o que a gente ainda vê de sinais da história de fome
e abandono é o envelhecimento das mulheres. As mães de 25, 26, 27 anos
aparentam 40, 50. E quando a gente vê os filhos delas percebe a diferença:
são pessoas que podem ter outro destino, se bem tratadas. Quando a gente
chegou lá no final de junho não havia morrido nenhuma criança abaixo de um
ano de idade naqueles últimos seis meses, período em que foi implantado o
programa. E o índice de mortalidade de Guaribas era quase 60 por cada mil
nascidos, algo equivalente a países africanos. É um exemplo para qualquer
governo, independente de partido. O primeiro salão de beleza de Guaribas é
símbolo dessa mudança. Quando você deixa de levar um dia inteiro para
conseguir um prato de comida passa a se olhar no espelho, se cuidar, se
reconhecer. É o direito humano à beleza. No salão de beleza de lá, pra você
ter idéia, é um real pra fazer qualquer coisa, desde uma chapinha japonesa à
unha (risos). Como até então não tinha banco, agência de correio, nada, os
aposentados recebiam dinheiro noutra cidade e faziam compras por lá mesmo.
No momento em que entra dinheiro em Guaribas passa a ter serviços, uma
feira, quer dizer, Guaribas foi uma invenção do comércio um milhão de anos
depois dos lugares mais atrasados do mundo. Um capítulo à parte.
OP - Frase sua: ''Na rota da fome, a coragem é mulher''. Por
que? E em que trecho da viagem essa convicção mais se reforça?
XS - No Vale do Jequitinhonha em Minas, ali na região de
Caridade e Irauçuba, no Ceará, e no Maranhão. Não é que haja uma má intenção
descarada dos homens. Na maioria das vezes, o homem vai embora pra tentar a
sobrevivência, levar a mulher, os filhos, mas a mãe não larga, ela vai às
últimas consequências. A primeira denúncia de fome dos filhos chega a ela,
quando lhe puxam a saia. O pai, por mais preocupado que seja, está
distanciado, ou caçando, ou a caminho de outro lugar. A mulher não arreda
pé. Na hora em que o filho puxa a barra da saia dela com fome não é pai, não
é governo, ninguém. São as chamadas viúvas da seca. O pai tenta uma solução
através do trabalho. A mãe tenta por todos os meios possíveis. Bate na casa
do vizinho, vai na casa de um parente, vai na sede do município pedir algo,
ela extrapola o poder de força do marido nessa hora. Perde a cerimônia
geral. Acho que a virtude está nelas, nas mulheres dos lugares mais
longínquos que fazem de tudo para não ver seus filhos com fome.
SERVIÇO:
Nova Geografia da Fome - Lançamento do livro-documentário editado
pela Tempo d'Imagem. Hoje, às 19 horas, no Centro Cultural Banco do Nordeste
(rua Floriano Peixoto, 941 - Centro). Aberto ao público. Exposição homônima
e mostra Padre Cícero - As Marcas do Sertão em cartaz até o dia 31 de março.
Preço: R$ 50,00. Info.: 488.4100.
(©
NoOlhar.com.br)
Delicadeza necessária
Nesse trecho da entrevista, Xico
Sá fala sobre o cuidado em não espetacularizar essa miséria. O jornalista
afirma também que o semi-árido é ''totalmente viável''
Quando vimos o pequeno mastigando um pedaço de cana que já tinha sido
mascado até pelo porco, demos a esse menino a única coisa que tínhamos no
carro: uma banana que foi comida com casca e tudo
OP - Vocês se depararam com um Reino Encantado no Vale do
Catimbau, em Parnambuco. Como o fantástico se mistura à fome? O que chamou
atenção neste lugar, particularmente?
XS - A gente tende a esquecer que aquele povo também tem horas
de extrema diversão e fuleiragem, como eu chamo, e o fantástico permeia
isso. Parece história tirada do romance de Garcia Marquez. O beato do Vale
do Catimbau, chamado ''Meu Rei'', acreditava em um acúmulo de água louco, em
sair fazendo piscinas, cisternas, em benzer aquelas águas que seriam a
salvação de todos os males do povo. Uma história sebastianista, que remete a
Canudos. Mas não é só sonhar com o Rei sentado. É fazer uma obra para atrair
aquela bonança. No caso de Catimbau, eram essas piscinas d'água debaixo de
uma casa, a casa que era morada do Meu Rei, que saía pelas cavernas tentando
descobrir novos caldeirões d'água. No seu palacete havia fartura, nenhum
faminto passava na porta sem matar a fome. Até hoje os moradores cultuam
essa história com uma devoção louca. A gente costuma ser preconceituoso
nessas horas, diante do que a gente não conhece. Mas é uma fé bonita de
acreditar em mudança. Nesse caso, assim como em outros, há ainda uma
preocupação ecológica, de preservação. Então a gente não deve achar que tudo
é fanatismo, aquilo tem uma sabedoria muito grande e no mínimo a gente não
conhece.
OP - Em que momentos você acabou desligando o gravador ou
temendo que as palavras não dessem conta da realidade?
XS - Muitas vezes os relatos são chocantes e como jornalista
você se sente apequenado ali. Pensa: ''Mas o que estou fazendo aqui? Tenho é
que cuidar de resolver isso de alguma forma. Não ficar aqui futucando as
pessoas pra obter uma frase chocante''. Em muitas ocasiões você se sente
assim. Na hora em que conversava com um senhor cuja foto que aparece no
livro é a mais chocante, ele está com o dedo cortado por conta de uma
diabetes mal curada, ali eu parei, desliguei o gravador e fui pro terreiro
olhar pro céu porque não tinha o que fazer... Tem horas que é muito pesado.
Por outro lado, é muito delicada essa invasão, tenho medo de espetacularizar
essa miséria. Já fiz muitas matérias do tipo, errei em algumas, acertei
noutras, e tenho um cuidado extremo de não explorar a dor alheia.
OP - Nas estradas de Caridade, interior do Ceará, vocês
registraram a presença de meninos que tapam buracos para ganhar trocados.
Qual o impacto dessa imagem?
XS - Pois é, essa foto não entrou no livro mas a imagem é a
seguinte: você vai dentro do carro, de repente tem um buraco, aí vem um
menino de dentro do mato e ele se ajoelha. É uma imagem tão humilhante...
Outra, no interior de Pernambuco, que ficou gravada, foi a imagem de uma
família inteira que a gente parou para fotografar e, de repente, a menina de
uns 16 anos correu. Aconteceu isso em várias ocasiões. Porque as pessoas têm
uma certa vergonha de estar naquela situação de miséira, sonham com outra
realidade, querem viver com dignidade. Tivemos que ter muito cuidado com
isso. Às vezes a gente chegava numa casa em Irauçuba, por exemplo, os
meninos todos sujos por ali. A mãe, por mais que não tivesse um caroço de
feijão pra botar no fogo, ia banhar os meninos pra botar uma roupinha e
assim fotografar. A gente tem que ter todo o respeito do mundo, esperar e
mostrar as pessoas do jeito que elas querem aparecer. É uma delicadeza
necessária.
OP - Apesar da ''velha esquelética do chapéu grande'' ainda
rondar os sertões, vocês rastrearam experiências alternativas de
sobrevivência. Fale um pouco sobre a viabilidade do sertão.
XS - O semi-árido é totalmente viável e vai ser cada vez mais
importante para a economia brasileira. Assim como não chove todo dia no
sertão, cai neve na Europa em determinada época do ano, então não adianta
lutar contra isso. Temos que pensar, sim, é em soluções alternativas de
convivência com o semi-árido. Por exemplo, a caprinocultura é uma das coisas
que mais impressionam, o bode é um bicho que não depende de pasto nem de
muita água e nele tudo se aproveita. Aliás, muitos técnicos falam que se o
Nordeste tivesse um rebanho maior hoje estaria exportando para o mundo
árabe, porque os árabes, assim como nós cearenses, são loucos por carneiro.
Isso sem falar no MecBode, sanduíche com hamburguer de carne de bode, lá em
Cabaceiras, na Paraíba (risos). As cisternas também são importantes. Pelo
menos em um primeiro momento, pra não passar sede, alimentar os animais, as
criações e tal. Esse projeto de criação de um milhão de cisternas no
Nordeste, firmado entre o Governo Federal e a iniciativa privada, vai ter um
impacto grande. A produção de mel, por exemplo, no Piauí, no Rio Grande do
Norte também está dando resultados. O que não adianta é ficar na choramingas
nem esperando chuva.
OP - No livro, você lembra que para Euclides da Cunha forte é
o sertanejo que fica. Já para Mário de Andrade, é o que migra. Qual a sua
opinião depois dessa viagem?
XS - Pois é, fui reler Mário de Andrade, achei
interessantíssimo e estranhei como nunca ninguém no meio acadêmico percebeu
essa briga platônica entre ele e Euclides da Cunha. Fico no muro. Eu fui um
que partiu. Isso é um debate até familiar, que tenho sempre. Acho que é um
direito correr por fora. Acho que na hora do aperto grande não há nenhum
fracasso no cara que parte para tentar uma solução.
OP - Qual a sua visão crítica em relação ao programa Fome
Zero?
XS - Acho que houve muita falha de comunicação em relação a
esse programa, já que o Governo não conseguiu dar visibilidade ao que estava
sendo feito nos grotões do Brasil. Não é um programa populista. O que chamam
de populista é emergencial, trata-se de matar a fome. O programa também é
muito ligado ao trabalho, ao que cada comunidade já faz. Se a comunidade
fabrica vassouras o programa vai entrar ali para que as pessoas possam
produzir mais, não só dando alimentação, livrando-a da preocupação diária
com o de comer, como promovendo pesquisas de materiais, mercado etc. Mas o
Governo não conseguiu comunicar isso. O programa, em todas as cidades, exige
ainda que o comitê gerenciador tenha nove representantes da sociedade civil.
Isso é uma alteração muito significativa na discussão democrática da
distribuição de renda.
(©
NoOlhar.com.br)
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Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)
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