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 Um cearense bem-sucedido

03/02/2004

 

 

Eu Canto',do hit 'Revelação'
 

Pacote com 12 CDs reúne a melhor fase da carreira de Fagner

Tárik de Souza

   Assim como Caetano Veloso com os baianos tropicalistas e Milton Nascimento no mineiro Clube da Esquina, o cearense Raimundo Fagner congregou conterrâneos (Belchior, Ednardo, Rodger, Téti) e outros nordestinos em torno de sua figura carismática. Descontado o mítico disco de estréia, Manera, Fru Fru, manera, de 1973, a parte mais influente de sua trajetória, entre os títulos Ave noturna (1975) e Fagner (1985), ressurge acondicionada numa charmosa lata preta pela Sony, gravadora de 11 dos 12 CDs compilados pelo produtor Marcelo Fróes, que acrescentou faixas bônus aos repertórios originais.

   A reedição esbarrou na antiga pendenga entre o compositor e a família da poeta Cecília Meirelles, que impediu a inclusão de Epigrama nº 9 no disco Orós, de 1977 (embora a faixa tenha saído numa edição anterior em CD) e de Motivo em Quem viver chorará (1978). Mas a mutilação não compromete a lata Raimundo Fagner, roteiro da trajetória sinuosa do autor/cantor e líder cuja intensa militância na gravadora, então chamada CBS, motivou o apelido Cearenses Bem-Sucedidos.

   Intérprete de timbre crestado, original, rascante, Fagner, ao lado de temas regionais, onde comanda o baile, disseminou um tipo de balada entre a toada e o rock pós-iê iê iê, que acabou afogando em teclados sua carreira. Mas no início, em discos como Ave noturna (1974) e Raimundo Fagner (1976), predomina o estranhamento da interpretação. São petardos como Fracassos, O astro vagabundo (estréia da longa parceria com o poeta Fausto Nilo), Asa partida, ou Sangue e pudins (com Abel Silva) e Última mentira (com Capinam).

   Já nos dois primeiros discos - onde também há mísseis nordestinos como Riacho do navio, Antônio Conselheiro e uma estupenda releitura fadista de Sinal fechado, de Paulinho da Viola - a seleção de instrumentistas é de primeira. Do antigo (então iniciante) Vímana, de Lobão, Lulu Santos, Ritchie, Luís Paulo Simas e Fernando Gama, a potentados como Paulo Moura e Toninho Horta, Fagner nunca deixou barato nas produções de seus discos, que foram ficando cada vez mais caras.

   O corajoso Orós, de 1977, tem os dedos e a genialidade de Hermeto Pascoal (e mais Dominguinhos, Nivaldo Ornellas e Marcio Montarroyos). Além da balada Flor da paisagem, há o belo galope Romanza, o provocante Cebola cortada e passagens de livre improviso na faixa-título e em Fofoca, de Hermeto. Marcelo Fróes conta no encarte que nessa época, ao visitar Roberto Carlos no camarim de um show, Fagner foi aconselhado a fazer ''música para estourar, para que o povo cante'', em vez de ''música para universitário''.

   O conselho demorou para impregnar o conceito artístico de Fagner. Tanto que, ao lado de potenciais estampidos como Revelação, do disco Eu canto (1978), ele continuou a cultivar sua porção ''universitária''. Além do acompanhamento acústico, onde se destaca o violão de 7 cordas de mestre Dino, há pérolas como Acalanto para um punhal, Jura secreta, Punhal de prata (com participação do autor, Alceu Valença) e uma releitura de arrepiar de As rosas não falam, de Cartola. João Donato assina arranjos e regências do desigual Beleza (1979), pontuado por Asas e Noturno.

   Com Sivuca, Egberto Gismonti, Oberdan Magalhães (da banda Black Rio) e Naná Vasconcellos na bagagem, Eternas ondas (1980) estoura na faixa-título (baladão soturno de Zé Ramalho), tem um John Lennon fora de esquadro (Oh, my love) e o magnífico aboio Vaca Estrela e boi Fubá, do poeta popular cearense Patativa do Assaré.

   Traduzir-se, de 1981, assinala uma guinada para a influência moura do descendente de libaneses Fagner (o sobrenome original da família é Fares). O disco tem participações do espanhol Joan Manuel Serrat (La saeta) e da cantora argentina Mercedes Sosa (Años). A faixa-título é parceria com o poeta Ferreira Gullar e em Fanatismo ele musicou a poeta portuguesa Florbela Espanca. No disco Homenagem a Picasso (1982/83), Fagner radicaliza, incluindo declamações do poeta Rafael Alberti (do livro Lo que canté y dije de Picasso) e participações de Paco de Lucia, Mercedes Sosa e Airto Moreira.

   O violonista flamenco Paco atuou também da faixa-título de Sorriso novo (1982), que contou ainda com Airto, Flora Purim e com a pianista e cantora Tânia Maria. Superprodução gravada em Nova Iorque (cinco faixas seriam realizadas em Londres com o maestro dos Beatles, George Martin, mas este não topou fazer só metade do trabalho), o disco tem um repertório fraco. A exceção é Orós II, de João do Vale e Oséas Lopes. Reina a padronização dos arranjos tecladísticos, marca registrada de Lincoln Olivetti na década.

   A tecladaria de Reinaldo Arias e o padrão Roupa Nova empastelam Palavra de amor (1983), incluindo o clássico Prelúdio pra ninar gente grande (Luís Vieira) e um dueto com Chico Buarque (Contigo). Salvam o CD o sucesso Guerreiro menino (de Gonzaguinha) e as acrescentadas faixas bônus de Zé Ramalho, Xote dos poetas e Filhos do câncer. Gravado parte aqui, parte em Londres, A mesma pessoa (1984) aprofunda-se na pasteurização, tendo a bordo o tecladista inglês Bill Livser, um adorador de clichês. O último da compilação, Fagner (1985), em poucas faixas recupera a rota do artista original do início de carreira.

   Se o raro dueto com Cazuza, Contramão, tem o tecladismo de Arias atenuado por eloqüentes solos de guitarra de Robertinho do Recife e Victor Biglione, a parceria com Chico Buarque (também vocal) Paroara merecia sair do anonimato. E o samba Te esperei (Gereba/Capinam), dueto com Beth Carvalho, caberia numa roda da nova Lapa. Graficamente, o disco fecha um ciclo: na capa, Fagner contempla as mesmas pinturas incluídas no inaugural Manera, Fru Fru, manera.

(© JB Online)


''Sou um cidadão do mundo''

Helena Aragão

   Aos 54 anos, prestes a gravar um disco comemorativo dos seus 30 anos de carreira, o cantor e compositor cearense Raimundo Fagner está de bem com seu trabalho. Em entrevista ao JB, por telefone, de sua casa em Fortaleza, ele conta que, por meio da caixa recém-lançada pela Sony, consegue passar os recados que gostaria para o público: ''Tem gente que pensa que nordestino deve ficar para sempre com chapéu de couro. Virei cidadão do mundo''.

   - O que vem à cabeça quando você ouve os discos reunidos na caixa?

   - Na verdade, ainda não ouvi. Ano passado começamos a viabilizar a caixa com o Marcelo Fróes, mas ninguém me avisou que ela já sairia agora. Soube que ela tinha sido lançada pelas lojas, no fim de semana. Só recebi agora. Quem está gostando é a mamãe, que adorou ver as fotos antigas (risos). Mas, sem brincadeira, essa caixa ajuda a dar algumas respostas. Ao público, que vinha solicitando sistematicamente o relançamento desses discos. E à própria Sony, que precisa aprender a valorizar os artistas. Espero que, com a caixa, eles percebam o peso da minha obra.
 

   - Por que você diz isso? Como está sua relação com a indústria fonográfica?

   - A caixa abrange o período em que fiquei na Sony. Em 1986 fui para a BMG e voltei em 2000 para fazer um disco ao vivo. O álbum duplo vendeu 500 mil cópias, mas, ainda assim, eles não trabalharam bem. Hoje eles têm uma birra danada comigo, porque falo o que penso. Estou na Indie Records desde o ano passado, quando lancei o disco com o Zeca Baleiro. Este ano ainda vou trabalhar nele. E ainda pretendo gravar um disco lá este ano, em comemoração aos meus 30 anos de carreira.

   - Nesses 30 anos você gravou com muita gente boa, instrumentistas conceituados, inclusive internacionais...

   - Meus discos oferecem um painel da música internacional. É importantíssimo o relançamento de discos como Traduzir-se e Homenagem a Picasso, que têm participações de Mercedes Sosa e Paco de Lucia. Na minha opinião, é o que há de mais importante nessa caixa. Nem a Espanha tem um registro do (poeta) Rafael Alberti tão bom. Sem modéstia, fui o primeiro a me preocupar em integrar a música brasileira com a latina. E com visão cultural, e não comercial, como foram fazer depois. Até quiseram me transformar em um cantor latino comercial, tipo o que o Alexandre Pires é agora, mas pulei fora. Fui fazer música comercial só no Brasil.

   - Essa música comercial que você diz é atacada pelos críticos. Para muitos, você enveredou pelo caminho brega. Como você encara isso?

   - Sou um artista eclético. Mostrei que não é preciso ficar restrito a um só estilo. Tem gente que pensa que nordestino tem que ficar para sempre com chapéu de couro e cantar apenas as coisas da terra. Acontece que viajei, virei cidadão do mundo, e minha música expressa isso.

    - Mas nunca deixou de valorizar os compositores da sua terra.

   - Canto as músicas que me interessam. Sempre gravei compositores do Ceará que têm boas canções. Hoje tenho aqui o estúdio que era da CBS, a antiga gravadora. O disco com o Zeca foi gravado aqui, não deixa nada a dever aos estúdios de última geração. Com isso, o músico cearense não tem mais que sair do estado para gravar bem.  

(© JB Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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