Pacote com 12 CDs reúne a melhor
fase da carreira de Fagner
Tárik de Souza
Assim como Caetano Veloso com os baianos tropicalistas e
Milton Nascimento no mineiro Clube da Esquina, o cearense Raimundo Fagner
congregou conterrâneos (Belchior, Ednardo, Rodger, Téti) e outros
nordestinos em torno de sua figura carismática. Descontado o mítico disco de
estréia, Manera, Fru Fru, manera, de 1973, a parte mais influente de
sua trajetória, entre os títulos Ave noturna (1975) e
Fagner (1985), ressurge acondicionada numa charmosa lata preta pela
Sony, gravadora de 11 dos 12 CDs compilados pelo produtor Marcelo Fróes, que
acrescentou faixas bônus aos repertórios originais.
A reedição esbarrou na antiga pendenga entre o compositor e
a família da poeta Cecília Meirelles, que impediu a inclusão de Epigrama
nº 9 no disco Orós, de 1977 (embora a faixa tenha saído numa
edição anterior em CD) e de Motivo em Quem viver chorará
(1978). Mas a mutilação não compromete a lata
Raimundo Fagner, roteiro da trajetória sinuosa do autor/cantor e líder
cuja intensa militância na gravadora, então chamada CBS, motivou o apelido
Cearenses Bem-Sucedidos.
Intérprete de timbre crestado, original, rascante, Fagner,
ao lado de temas regionais, onde comanda o baile, disseminou um tipo de
balada entre a toada e o rock pós-iê iê iê, que acabou afogando em teclados
sua carreira. Mas no início, em discos como Ave noturna (1974) e
Raimundo Fagner (1976), predomina o estranhamento da interpretação. São
petardos como Fracassos, O astro vagabundo (estréia da longa
parceria com o poeta Fausto Nilo), Asa partida, ou Sangue e pudins
(com Abel Silva) e Última mentira (com Capinam).
Já nos dois primeiros discos - onde também há mísseis
nordestinos como Riacho do navio, Antônio Conselheiro e uma
estupenda releitura fadista de Sinal fechado, de Paulinho da Viola -
a seleção de instrumentistas é de primeira. Do antigo (então iniciante)
Vímana, de Lobão, Lulu Santos, Ritchie, Luís Paulo Simas e Fernando Gama, a
potentados como Paulo Moura e Toninho Horta, Fagner nunca deixou barato nas
produções de seus discos, que foram ficando cada vez mais caras.
O corajoso Orós, de 1977, tem os dedos e a
genialidade de Hermeto Pascoal (e mais Dominguinhos, Nivaldo Ornellas e
Marcio Montarroyos). Além da balada Flor da paisagem, há o belo
galope Romanza, o provocante Cebola cortada e passagens de
livre improviso na faixa-título e em Fofoca, de Hermeto. Marcelo
Fróes conta no encarte que nessa época, ao visitar Roberto Carlos no camarim
de um show, Fagner foi aconselhado a fazer ''música para estourar, para que
o povo cante'', em vez de ''música para universitário''.
O conselho demorou para impregnar o conceito artístico de
Fagner. Tanto que, ao lado de potenciais estampidos como Revelação,
do disco Eu canto (1978), ele continuou a cultivar sua porção
''universitária''. Além do acompanhamento acústico, onde se destaca o violão
de 7 cordas de mestre Dino, há pérolas como Acalanto para um punhal,
Jura secreta, Punhal de prata (com participação do autor, Alceu
Valença) e uma releitura de arrepiar de As rosas não falam, de
Cartola. João Donato assina arranjos e regências do desigual
Beleza (1979), pontuado por Asas e Noturno.
Com Sivuca, Egberto Gismonti, Oberdan Magalhães (da banda
Black Rio) e Naná Vasconcellos na bagagem, Eternas ondas (1980)
estoura na faixa-título (baladão soturno de Zé Ramalho), tem um John Lennon
fora de esquadro (Oh, my love) e o magnífico aboio
Vaca Estrela e boi Fubá, do poeta popular cearense Patativa do Assaré.
Traduzir-se, de 1981, assinala uma guinada para a
influência moura do descendente de libaneses Fagner (o sobrenome original da
família é Fares). O disco tem participações do espanhol Joan Manuel Serrat
(La saeta) e da cantora argentina Mercedes Sosa (Años). A
faixa-título é parceria com o poeta Ferreira Gullar e em Fanatismo
ele musicou a poeta portuguesa Florbela Espanca. No disco Homenagem a
Picasso (1982/83), Fagner radicaliza, incluindo declamações do poeta
Rafael Alberti (do livro Lo que canté y dije de Picasso) e
participações de Paco de Lucia, Mercedes Sosa e Airto Moreira.
O violonista flamenco Paco atuou também da faixa-título de
Sorriso novo (1982), que contou ainda com Airto, Flora Purim e com a
pianista e cantora Tânia Maria. Superprodução gravada em Nova Iorque (cinco
faixas seriam realizadas em Londres com o maestro dos Beatles, George
Martin, mas este não topou fazer só metade do trabalho), o disco tem um
repertório fraco. A exceção é Orós II, de João do Vale e Oséas Lopes.
Reina a padronização dos arranjos tecladísticos, marca registrada de Lincoln
Olivetti na década.
A tecladaria de Reinaldo Arias e o padrão Roupa Nova
empastelam Palavra de amor (1983), incluindo o clássico Prelúdio
pra ninar gente grande (Luís Vieira) e um dueto com Chico Buarque (Contigo).
Salvam o CD o sucesso Guerreiro menino (de Gonzaguinha) e as
acrescentadas faixas bônus de Zé Ramalho, Xote dos poetas e
Filhos do câncer. Gravado parte aqui, parte em Londres, A mesma
pessoa (1984) aprofunda-se na pasteurização, tendo a bordo o tecladista
inglês Bill Livser, um adorador de clichês. O último da compilação,
Fagner (1985), em poucas faixas recupera a rota do artista original do
início de carreira.
Se o raro dueto com Cazuza, Contramão, tem o
tecladismo de Arias atenuado por eloqüentes solos de guitarra de Robertinho
do Recife e Victor Biglione, a parceria com Chico Buarque (também vocal)
Paroara merecia sair do anonimato. E o samba Te esperei
(Gereba/Capinam), dueto com Beth Carvalho, caberia numa roda da nova Lapa.
Graficamente, o disco fecha um ciclo: na capa, Fagner contempla as mesmas
pinturas incluídas no inaugural Manera, Fru Fru, manera.
(©
JB Online)
''Sou um
cidadão do mundo''
Helena Aragão
Aos 54 anos, prestes
a gravar um disco comemorativo dos seus 30 anos de carreira, o cantor e
compositor cearense Raimundo Fagner está de bem com seu trabalho. Em
entrevista ao JB, por telefone, de sua casa em Fortaleza, ele conta
que, por meio da caixa recém-lançada pela Sony, consegue passar os recados
que gostaria para o público: ''Tem gente que pensa que nordestino deve
ficar para sempre com chapéu de couro. Virei cidadão do mundo''.
- O que vem à
cabeça quando você ouve os discos reunidos na caixa?
- Na verdade, ainda não ouvi. Ano
passado começamos a viabilizar a caixa com o Marcelo Fróes, mas ninguém me
avisou que ela já sairia agora. Soube que ela tinha sido lançada pelas
lojas, no fim de semana. Só recebi agora. Quem está gostando é a mamãe, que
adorou ver as fotos antigas (risos). Mas, sem brincadeira, essa caixa
ajuda a dar algumas respostas. Ao público, que vinha solicitando
sistematicamente o relançamento desses discos. E à própria Sony, que precisa
aprender a valorizar os artistas. Espero que, com a caixa, eles percebam o
peso da minha obra.