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 Tabajara mostra lado erudito obscuro

03/02/2004

 

 

 

Aos 85 anos, Natalino, um dos dois irmãos do grupo de violonistas, grava primeiro CD solo em Sussex, na Inglaterra

LUÍS NASSIF
COLUNISTA DA FOLHA

   Entre em um desses programas de download na internet, o Emule, por exemplo. Se buscar na pesquisa, haverá 72 menções de Baden Powell, 68 de Tom Jobim, 67 de Carmen Miranda, 66 de Laurindo de Almeida. Se juntar Indios Tabajara e Indios Tabajara (sem o esse), a soma de menções salta para 87.

   Talvez tenham sido os artistas brasileiros que mais venderam no mundo, depois de Carmen Miranda. Em 1963, o bolero "Maria Elena" tornou-se sucesso mundial, através dos violões de dois índios cearenses que correram a América Latina até bater no México e Estados Unidos. A música desbancou "She Loves You", dos Beatles, numa semana e freqüentou o hit-parade de todos os países de língua inglesa.

   A visita aos sites internacionais mostra um repertório eclético, que vai de "Mamãe Eu Quero", cantado, a clássicos do bolero. Mas há uma faceta que só agora se revela, com a ampliação do acesso às músicas através da internet: o das interpretações de músicas clássicas. As versões para violão, feitas por Natalino, nada ficam a dever aos mestres maiores. Especialmente as peças de Chopin ("Valsa em Dó Sustenido Menor" e "Fantasia Impromptu") que estão no nível das melhores versões de André Segóvia para a obra de Johann Sebastian Bach.

   Morando em Nova York, com aproximadamente 85 anos de idade, há oito anos Natalino perdeu o irmão Antenor. Casou-se com uma violonista japonesa que o acompanha. No momento, está gravando seu primeiro CD solo, em uma igreja em Sussex, na Inglaterra. Gravou apenas três faixas porque não suportou o frio, mas deve voltar para completar a obra. Lá, ficou hospedado na casa dos pais de Amanda Cook, o mais novo prodígio do violão inglês, moça de 21 anos e fã de carteirinha de Natalino.

   O depoimento abaixo foi dado em uma hora e meia de entrevista por telefone, de seu apartamento em Nova York, de frente ao Central Park e a sociedade arrecadadora de direitos autorais, que lhe garante entre 5 a 10 mil dólares mês, por suas 45 composições.

   Natalino nasceu em uma aldeia Tabajara, na serra do Ibiapaba, reivindicada pelo Ceará e pelo Piauí. Era um dos 15 filhos de um índio. Algumas biografias apontam o pai como cacique ou guerreiro. Na verdade, conta ele, o pai foi um guerreiro, como tal presenteado com um colar de dentes de onça e autorizado a casar.

   Em 1930 apareceu na aldeia uma tropa chefiada pelo tenente Hildebrando Moreira Lima, que vinha conter outra que descia do Piauí. A tropa ficou 20 dias na aldeia, quando Natalino tinha por volta de dez ou 12 anos. Os soldados conheceram os poderes dos curadores locais, batizaram alguns dos índios e ensinaram um pouco de português e, quando partiram, deixou saudades imensas na família de Natalino.

   Chegaram ao Rio três anos depois. Nunca haviam dormido em cama até então. Depois de morar num albergue, compraram uma casa no Realengo, na rua Tecoté, que até hoje é da família.

   Natalino ganhou um violão tenor (de quatro cordas) e passou a dominar o instrumento. Não aprendeu a ler, mas tocava a ponto se apresentar na rua com o irmão, recebendo donativos. Decidiram procurar uma rádio para tocar. Foram até a rádio Cruzeiro do Sul e conheceram o diretor Paulo Roberto, que os batizou de Índios Tabajara.

   Dali foram trabalhar na Casa do Caboclo, casa de shows. Depois, se empregaram em um circo e, mais tarde em Belo Horizonte, foram contratados por um cassino. Após fazer o circuito dos cassinos em Minas Gerais, receberam convite para se apresentar na rádio El Mundo, de Buenos Aires.

   Percorreram várias capitais latino-americanas até chegar ao México. Lá se apresentaram no Night Club El Pateo, que tinha como apresentador Ricardo Montalban. Certo dia, Natalino entrou em um cinema e assistiu Cornel Wilde interpretando Fréderic Chopin. Apaixonou-se pela música clássica. Saiu do cinema, entrou em uma loja de música e adquiriu "Compêndios de Moderna Harmonia" de Rimsky-Korsakov. Um ano depois fez a transcrição para violão de "Valsa em Dó Sustenido Menor", de Chopin, um clássico de interpretação.

   Enquanto estuda para terminar seu primeiro CD solo, Natalino ainda faz planos de voltar ao Brasil. Tem propriedades por aqui mas admite que morar em Nova York é muito prático, principalmente pela garantia dos direitos autorais. Quando indagado porque não gravou mais música brasileira, sua resposta é de uma objetividade pouco indígena. Gravava o que o povo queria, porque precisava de dinheiro para comer e se vestir. E a base hispânica era maior que a brasileira.

   Arquivos com algumas músicas clássicas interpretadas por Natalino podem ser encontrados no endereço www.spcult.com.br.

(© Folha de S. Paulo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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