Aos 85 anos, Natalino, um dos dois
irmãos do grupo de violonistas, grava primeiro CD solo em Sussex, na
Inglaterra
LUÍS NASSIF
COLUNISTA DA FOLHA
Entre em um desses programas de
download na internet, o Emule, por exemplo. Se buscar na pesquisa, haverá 72
menções de Baden Powell, 68 de Tom Jobim, 67 de Carmen Miranda, 66 de
Laurindo de Almeida. Se juntar Indios Tabajara e Indios Tabajara (sem o
esse), a soma de menções salta para 87.
Talvez tenham sido os artistas
brasileiros que mais venderam no mundo, depois de Carmen Miranda. Em 1963, o
bolero "Maria Elena" tornou-se sucesso mundial, através dos violões de dois
índios cearenses que correram a América Latina até bater no México e Estados
Unidos. A música desbancou "She Loves You", dos Beatles, numa semana e
freqüentou o hit-parade de todos os países de língua inglesa.
A visita aos sites internacionais
mostra um repertório eclético, que vai de "Mamãe Eu Quero", cantado, a
clássicos do bolero. Mas há uma faceta que só agora se revela, com a
ampliação do acesso às músicas através da internet: o das interpretações de
músicas clássicas. As versões para violão, feitas por Natalino, nada ficam a
dever aos mestres maiores. Especialmente as peças de Chopin ("Valsa em Dó
Sustenido Menor" e "Fantasia Impromptu") que estão no nível das melhores
versões de André Segóvia para a obra de Johann Sebastian Bach.
Morando em Nova York, com
aproximadamente 85 anos de idade, há oito anos Natalino perdeu o irmão
Antenor. Casou-se com uma violonista japonesa que o acompanha. No momento,
está gravando seu primeiro CD solo, em uma igreja em Sussex, na Inglaterra.
Gravou apenas três faixas porque não suportou o frio, mas deve voltar para
completar a obra. Lá, ficou hospedado na casa dos pais de Amanda Cook, o
mais novo prodígio do violão inglês, moça de 21 anos e fã de carteirinha de
Natalino.
O depoimento abaixo foi dado em uma
hora e meia de entrevista por telefone, de seu apartamento em Nova York, de
frente ao Central Park e a sociedade arrecadadora de direitos autorais, que
lhe garante entre 5 a 10 mil dólares mês, por suas 45 composições.
Natalino nasceu em uma aldeia
Tabajara, na serra do Ibiapaba, reivindicada pelo Ceará e pelo Piauí. Era um
dos 15 filhos de um índio. Algumas biografias apontam o pai como cacique ou
guerreiro. Na verdade, conta ele, o pai foi um guerreiro, como tal
presenteado com um colar de dentes de onça e autorizado a casar.
Em 1930 apareceu na aldeia uma tropa
chefiada pelo tenente Hildebrando Moreira Lima, que vinha conter outra que
descia do Piauí. A tropa ficou 20 dias na aldeia, quando Natalino tinha por
volta de dez ou 12 anos. Os soldados conheceram os poderes dos curadores
locais, batizaram alguns dos índios e ensinaram um pouco de português e,
quando partiram, deixou saudades imensas na família de Natalino.
Chegaram ao Rio três anos depois.
Nunca haviam dormido em cama até então. Depois de morar num albergue,
compraram uma casa no Realengo, na rua Tecoté, que até hoje é da família.
Natalino ganhou um violão tenor (de
quatro cordas) e passou a dominar o instrumento. Não aprendeu a ler, mas
tocava a ponto se apresentar na rua com o irmão, recebendo donativos.
Decidiram procurar uma rádio para tocar. Foram até a rádio Cruzeiro do Sul e
conheceram o diretor Paulo Roberto, que os batizou de Índios Tabajara.
Dali foram trabalhar na Casa do
Caboclo, casa de shows. Depois, se empregaram em um circo e, mais tarde em
Belo Horizonte, foram contratados por um cassino. Após fazer o circuito dos
cassinos em Minas Gerais, receberam convite para se apresentar na rádio El
Mundo, de Buenos Aires.
Percorreram várias capitais
latino-americanas até chegar ao México. Lá se apresentaram no Night Club El
Pateo, que tinha como apresentador Ricardo Montalban. Certo dia, Natalino
entrou em um cinema e assistiu Cornel Wilde interpretando Fréderic Chopin.
Apaixonou-se pela música clássica. Saiu do cinema, entrou em uma loja de
música e adquiriu "Compêndios de Moderna Harmonia" de Rimsky-Korsakov. Um
ano depois fez a transcrição para violão de "Valsa em Dó Sustenido Menor",
de Chopin, um clássico de interpretação.
Enquanto estuda para terminar seu
primeiro CD solo, Natalino ainda faz planos de voltar ao Brasil. Tem
propriedades por aqui mas admite que morar em Nova York é muito prático,
principalmente pela garantia dos direitos autorais. Quando indagado porque
não gravou mais música brasileira, sua resposta é de uma objetividade pouco
indígena. Gravava o que o povo queria, porque precisava de dinheiro para
comer e se vestir. E a base hispânica era maior que a brasileira.
Arquivos com algumas músicas
clássicas interpretadas por Natalino podem ser encontrados no endereço
www.spcult.com.br.
(©
Folha de S. Paulo)