O livro mais cearense de
José de Alencar ganha edição igual à primeira, de 1865. A iniciativa foi do
poeta e editor Virgílio Maia
Eleuda de Carvalho
da Redação
O mito de fundação do
Ceará, melhor, da criação do cearense, está poeticamente narrado em um
livrinho que já trilhou quase século e meio desde que veio a lume pela
primeira vez. Escrito por José de Alencar, Iracema faz parte
de um conjunto textual em que o autor se propôs reconstituir os então pouco
mais de quatro séculos da chegada dos primeiros lusitanos a este lado de cá
do planeta. Romântico, sim, que era a escola estética de então - mas também
épico, e num estilo novo da épica: trazendo ao primeiro plano heróis
mestiços, heróis selvagens, e uma natureza de tirar o fôlego. ''Verdes mares
bravios da minha terra natal'', cantava Alencar a sua mais bela canção de
exílio.
Pois, em todo o Ceará não havia
sequer um exemplar daquela edição de 1865. Foi quando Virgílio Maia, poeta e
editor (criador da Biblioteca O Curumim Sem Nome e do Colégio de Heráldica
Nordestina), catou daqui e dali, perguntou, uniu esforços alhures. E agora
nos apresenta Iracema tal como veio ao mundo pela primeira
vez, mas acrescido de uma apresentação do editor Cláudio Giordano, de um
texto crítico de Sânzio de Azevedo e - cereja do quitute - agregando a
primeira crítica que esta lenda do Ceará ganhou, aquela escrita por Machado
de Assis, um ano após o lançamento. Além do mais, a edição contém a
fotografia da escultura ''Iracema Guardiã'', de Zenon Barreto, o soneto de
mesmo título feito por Virgílio Maia e lindas aquarelas de Côca Torquato.
Machado de Assis
foi profético, no seu artigo publicado no Correio do Rio de Janeiro,
em 23 de janeiro de 1866: ''Há de viver este livro. Ele tem em si as forças
que resistem ao tempo''. Que lhe chamem lenda, poema, romance, diz ainda
Machado: ''O futuro chamar-lhe-á obra-prima''. José Martiniano de Alencar
nasceu em Messejana (CE), em primeiro de maio de 1829, no sitiozinho do seu
pai, que era então presidente da província. A família, sofrendo perseguições
que acompanharam o clã dos Alencar desde as guerras pela independência, vai
de muda para a então capital do reino, quando o escritor conta dez anos de
idade. Esta viagem por terras do sertão até Salvador seria fundadora da sua
mitologia pessoal. O filho do senador Alencar seguiu no encalço a veia
política paterna, que também lhe trouxe um colar de dissabores. Mas, através
da literatura, o neto de dona Bárbara recriava um país menos impossível,
mais harmônico, mais propenso a filtrar as qualidades dos diversos povos que
o formaram, mais do que peneirando seus defeitos atávicos (tão explorados
pelos autores realistas e naturalistas das gerações seguintes).
José de Alencar criou um painel
histórico e estético do Brasil, desde antes de 1500, com o romance
indigenista Ubirajara, e traçou um perfil de mulheres que
foram muito além do papel a elas destinado, naquele tempo - tão fortes e
guerreiras quanto haviam sido Bárbara de Alencar e dona Ana Tristão. Doze
anos antes de morrer, em 1877, afligido pela tuberculose, ele trazia à luz o
encontro entre a bela tabajara e o guerreiro branco Martim. No livrinho, que
ora nos chega, tão juvenil quanto naqueles idos do século 19, um extenso
repertório de termos e topônimos indígenas, explicados à minúcia pelo
próprio autor, em notas no final. Pois é o que o leitor do século 21 também
vai saborear, acrescido de um frescor contemporâneo trazido pelos textos
complementares, o substrato de época do genial Machado, mais o poema da
introdução e as aquarelas de Côca. ''Tudo passa sobre a terra'', diz
Alencar, ao final de sua história. Mas a arte, esta ficará para nos deixar
seus sinais.
O POVO - Além de ter recriado O
Pão, da Padaria Espiritual (1892-1896), inclusive encartando edições
fac similares do jornal da agremiação criada por Antônio Sales, você agora
nos traz a primeira edição de Iracema, este poema emblemático
de José de Alencar, e mito fundador da nossa história.
Virgílio Maia - Em conversa com o Sânzio de
Azevedo (poeta e professor), fiquei, digamos, um pouco impressionado com o
fato de não existir no Ceará nenhum exemplar da primeira edição de
Iracema. Sânzio, inclusive, me disse que nunca havia posto os olhos
numa e não tinha notícias. Talvez, talvez, poderia ter na Biblioteca
Nacional. Nem o bibliófilo José Bonifácio Câmara, que possuía a maior
biblioteca cearense do Brasil, tinha exemplar da primeira edição, nem o
bibliófilo Plínio Doyle. Um amigo de São Paulo, Cláudio Giordano, da editora
Giordano, me disse ter conhecimento que o bibliófilo José Mindlin possuía um
exemplar. Então, sugeri, que tal a gente fazer uma edição fac similar da
primeira edição, com alguma coisa nova? Na hora, sugeri um ensaio do Sânzio.
Ele disse, vamos fazer. Giordano é muito amigo do Mindlin, que permitiu que
se usasse o seu exemplar. A partir daí, tivemos o apoio da Imprensa Oficial
de São Paulo e da Oboé Cultural. Incluímos umas aquarelas da Côca Torquato,
um soneto meu (sobre escultura de Zenon Barreto), o ensaio do Sânzio, o
texto de apresentação do Cláudio Giordano e, uma coisa muito importante, a
crítica que o Machado de Assis fez em 1866, vaticinando o sucesso e a
permanência que o livro teria através dos tempos.
OP - Tanto naquela primeira crítica de
Machado de Assis, quanto nos leitores que lhe sucederam, os estudos sobre
Iracema destacam o caráter poético da narrativa. Seria o nome
Iracema, como disseram depois, anagrama de América?
VM - Parece, realmente, que Iracema é um
poema. Tanto é que ainda hoje há pessoas que sabem trechos inteiros do
livro, porque o ritmo tem um efeito mnemônico. Por exemplo, ''além, muito
além daquela serra/ que inda azula no horizonte/ nasceu Iracema''. O livro
tem, como subtítulo, Lenda do Ceará, não é? Embora tenha este
substrato histórico, o Iracema todo é uma metáfora. A metáfora
do encontro português com a terra cearense e nordestina. Iracema
é um anagrama perfeito de América, e vale atentar que nos mapas mais
antigos o topônimo América designava o Nordeste brasileiro, depois é que se
estendeu para o continente todo e mais recentemente os Estados Unidos. Num
livro português sobre topônimos, no verbete ''américa'', o autor diz que o
nome vem não de Américo Vespúcio, mas de uma palavra indígena:
''haimé-ri-iquê'', que designava a Ibiapaba, e se pode traduzir por ''lado
do nascente à pique'', porque a Ibiapaba é abrupta no Ceará e desce
devagarzinho para o Piauí. É a Ibiapaba que Alencar deu como sendo o torrão
natal de Iracema, a tabajara. Isso é uma coisa que deve ser estudada com
maior cuidado. Inclusive, porque Américo Vespúcio se chamava Alberico.
Naquela época, os aventureiros às vezes acrescentavam ao nome deles o nome
do lugar conquistado. O Jerônimo de Albuquerque, quando tomou o Maranhão dos
franceses, passou a se chamar Jerônimo Albuquerque Maranhão.
OP - Que diferenças você pode apontar
entre esta primeira edição e as posteriores? E há também a coincidência
histórica, da chegada de Martim...
VM - O Sânzio, que é estudioso do assunto,
encontrou inúmeras modificações. Está aí o valor desta edição. Para ele, o
texto definitivo é o da oitava edição, salvo engano, de 1928, que teria sido
emendada e corrigida por um filho de José de Alencar. Para uma reedição de
luxo, em preparo para o ano que vem, quando se completam 140 anos do
lançamento, o Sânzio vai se basear nesta oitava edição. Esta edição fac
similar foi feita para lembrar esta data, 1603, a primeira presença
portuguesa no Ceará. O lançamento era para ter sido ano passado, mas houve
um atraso na impressão, feita na Imprensa Oficial de São Paulo. Era para ser
em outubro, mas ficou agora para o começo do ano, com a pegada do inverno.
OP - Iracema, passados tantos anos, ainda emociona o
leitor. Você não acha?
VM - Li Iracema quando tinha uns dez anos de idade, hoje
tenho quase 50. E, relendo, vi como o livro é bonito, muito bonito, a
história muito bem contada. Desse encontro dos europeus com os povos
americanos, não tem nada parecido, não. O Brasil tem um batistério, com a
carta de Pero Vaz de Caminha. Qual é a terra que tem um romance, digamos
assim, do seu nascimento, do caráter de Iracema? Não conheço. Por outro
lado, o Brasil é o maior país católico do mundo e não tem nenhum santo. Até
a Coréia tem, trinta e tantos! Ainda a questão da América... O próprio
Machado de Assis, no ensaio dele, fala em poesia americana. E o Alencar
chama Iracema de indígena americana. Cecília Meireles, no começo do seu
Romanceiro da Inconfidência, diz, ''pelos sertões americanos''. Você vê que
a palavra América era de cá.
OP - No romance, queria que você destacasse o código
de honra dos índios, ao ponto de proteger o estrangeiro, porque ele está ali
como hóspede. Tem a ver com o nosso código de honra sertanejo, herdado dos
códigos ibéricos?
VM - A questão de que o hóspede é sagrado, não é? O código de
honra do sertanejo cearense me parece coisa de matriz indígena, talvez não
seja uma coisa portuguesa. Até porque eles estavam aqui como conquistadores.
OP - Virgílio, e o lançamento desta edição fac similar
vai começar por aqui?
VM - Aqui. A apresentação será da escritora Beatriz
Alcântara. Agora, apenas 120 exemplares estarão à venda, porque a tiragem
foi pequena, mil exemplares, repartida entre a Biblioteca O Curumim Sem
Nome, a Oboé, a Editora Giordano e a Imprensa Oficial de São Paulo.
SERVIÇO
Iracema (edição fac-similar) - de José de Alencar. Edição Imprensa Oficial
de São Paulo, Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes e Biblioteca O Curumim
Sem Nome. Lançamento nacional hoje, às 19h30min, no Centro Cultural Oboé
(rua Maria Tomásia, 531 - Aldeota). Ilustrações: Côca Torquato.
Apresentação: Beatriz Alcântara. O livro, com 207 páginas, custa R$ 45 e
pode ser adquirido pelo site da Imprensa Oficial:
www.imprensaoficial.com.br/livraria. Para a noite de lançamento, preço
especial: R$ 40. Inforamções: 264.7038.
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