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06/02/2004

 

 

Virgílio Maia organizou a edição fac similar do mais cearense dos romances de José de Alencar
 

O livro mais cearense de José de Alencar ganha edição igual à primeira, de 1865. A iniciativa foi do poeta e editor Virgílio Maia

Eleuda de Carvalho
da Redação

   O mito de fundação do Ceará, melhor, da criação do cearense, está poeticamente narrado em um livrinho que já trilhou quase século e meio desde que veio a lume pela primeira vez. Escrito por José de Alencar, Iracema faz parte de um conjunto textual em que o autor se propôs reconstituir os então pouco mais de quatro séculos da chegada dos primeiros lusitanos a este lado de cá do planeta. Romântico, sim, que era a escola estética de então - mas também épico, e num estilo novo da épica: trazendo ao primeiro plano heróis mestiços, heróis selvagens, e uma natureza de tirar o fôlego. ''Verdes mares bravios da minha terra natal'', cantava Alencar a sua mais bela canção de exílio.

   Pois, em todo o Ceará não havia sequer um exemplar daquela edição de 1865. Foi quando Virgílio Maia, poeta e editor (criador da Biblioteca O Curumim Sem Nome e do Colégio de Heráldica Nordestina), catou daqui e dali, perguntou, uniu esforços alhures. E agora nos apresenta Iracema tal como veio ao mundo pela primeira vez, mas acrescido de uma apresentação do editor Cláudio Giordano, de um texto crítico de Sânzio de Azevedo e - cereja do quitute - agregando a primeira crítica que esta lenda do Ceará ganhou, aquela escrita por Machado de Assis, um ano após o lançamento. Além do mais, a edição contém a fotografia da escultura ''Iracema Guardiã'', de Zenon Barreto, o soneto de mesmo título feito por Virgílio Maia e lindas aquarelas de Côca Torquato.

   Machado de Assis foi profético, no seu artigo publicado no Correio do Rio de Janeiro, em 23 de janeiro de 1866: ''Há de viver este livro. Ele tem em si as forças que resistem ao tempo''. Que lhe chamem lenda, poema, romance, diz ainda Machado: ''O futuro chamar-lhe-á obra-prima''. José Martiniano de Alencar nasceu em Messejana (CE), em primeiro de maio de 1829, no sitiozinho do seu pai, que era então presidente da província. A família, sofrendo perseguições que acompanharam o clã dos Alencar desde as guerras pela independência, vai de muda para a então capital do reino, quando o escritor conta dez anos de idade. Esta viagem por terras do sertão até Salvador seria fundadora da sua mitologia pessoal. O filho do senador Alencar seguiu no encalço a veia política paterna, que também lhe trouxe um colar de dissabores. Mas, através da literatura, o neto de dona Bárbara recriava um país menos impossível, mais harmônico, mais propenso a filtrar as qualidades dos diversos povos que o formaram, mais do que peneirando seus defeitos atávicos (tão explorados pelos autores realistas e naturalistas das gerações seguintes).

   José de Alencar criou um painel histórico e estético do Brasil, desde antes de 1500, com o romance indigenista Ubirajara, e traçou um perfil de mulheres que foram muito além do papel a elas destinado, naquele tempo - tão fortes e guerreiras quanto haviam sido Bárbara de Alencar e dona Ana Tristão. Doze anos antes de morrer, em 1877, afligido pela tuberculose, ele trazia à luz o encontro entre a bela tabajara e o guerreiro branco Martim. No livrinho, que ora nos chega, tão juvenil quanto naqueles idos do século 19, um extenso repertório de termos e topônimos indígenas, explicados à minúcia pelo próprio autor, em notas no final. Pois é o que o leitor do século 21 também vai saborear, acrescido de um frescor contemporâneo trazido pelos textos complementares, o substrato de época do genial Machado, mais o poema da introdução e as aquarelas de Côca. ''Tudo passa sobre a terra'', diz Alencar, ao final de sua história. Mas a arte, esta ficará para nos deixar seus sinais.


O POVO - Além de ter recriado O Pão, da Padaria Espiritual (1892-1896), inclusive encartando edições fac similares do jornal da agremiação criada por Antônio Sales, você agora nos traz a primeira edição de Iracema, este poema emblemático de José de Alencar, e mito fundador da nossa história.

Virgílio Maia - Em conversa com o Sânzio de Azevedo (poeta e professor), fiquei, digamos, um pouco impressionado com o fato de não existir no Ceará nenhum exemplar da primeira edição de Iracema. Sânzio, inclusive, me disse que nunca havia posto os olhos numa e não tinha notícias. Talvez, talvez, poderia ter na Biblioteca Nacional. Nem o bibliófilo José Bonifácio Câmara, que possuía a maior biblioteca cearense do Brasil, tinha exemplar da primeira edição, nem o bibliófilo Plínio Doyle. Um amigo de São Paulo, Cláudio Giordano, da editora Giordano, me disse ter conhecimento que o bibliófilo José Mindlin possuía um exemplar. Então, sugeri, que tal a gente fazer uma edição fac similar da primeira edição, com alguma coisa nova? Na hora, sugeri um ensaio do Sânzio. Ele disse, vamos fazer. Giordano é muito amigo do Mindlin, que permitiu que se usasse o seu exemplar. A partir daí, tivemos o apoio da Imprensa Oficial de São Paulo e da Oboé Cultural. Incluímos umas aquarelas da Côca Torquato, um soneto meu (sobre escultura de Zenon Barreto), o ensaio do Sânzio, o texto de apresentação do Cláudio Giordano e, uma coisa muito importante, a crítica que o Machado de Assis fez em 1866, vaticinando o sucesso e a permanência que o livro teria através dos tempos.

OP - Tanto naquela primeira crítica de Machado de Assis, quanto nos leitores que lhe sucederam, os estudos sobre Iracema destacam o caráter poético da narrativa. Seria o nome Iracema, como disseram depois, anagrama de América?

VM - Parece, realmente, que Iracema é um poema. Tanto é que ainda hoje há pessoas que sabem trechos inteiros do livro, porque o ritmo tem um efeito mnemônico. Por exemplo, ''além, muito além daquela serra/ que inda azula no horizonte/ nasceu Iracema''. O livro tem, como subtítulo, Lenda do Ceará, não é? Embora tenha este substrato histórico, o Iracema todo é uma metáfora. A metáfora do encontro português com a terra cearense e nordestina. Iracema é um anagrama perfeito de América, e vale atentar que nos mapas mais antigos o topônimo América designava o Nordeste brasileiro, depois é que se estendeu para o continente todo e mais recentemente os Estados Unidos. Num livro português sobre topônimos, no verbete ''américa'', o autor diz que o nome vem não de Américo Vespúcio, mas de uma palavra indígena: ''haimé-ri-iquê'', que designava a Ibiapaba, e se pode traduzir por ''lado do nascente à pique'', porque a Ibiapaba é abrupta no Ceará e desce devagarzinho para o Piauí. É a Ibiapaba que Alencar deu como sendo o torrão natal de Iracema, a tabajara. Isso é uma coisa que deve ser estudada com maior cuidado. Inclusive, porque Américo Vespúcio se chamava Alberico. Naquela época, os aventureiros às vezes acrescentavam ao nome deles o nome do lugar conquistado. O Jerônimo de Albuquerque, quando tomou o Maranhão dos franceses, passou a se chamar Jerônimo Albuquerque Maranhão.

OP - Que diferenças você pode apontar entre esta primeira edição e as posteriores? E há também a coincidência histórica, da chegada de Martim...

VM - O Sânzio, que é estudioso do assunto, encontrou inúmeras modificações. Está aí o valor desta edição. Para ele, o texto definitivo é o da oitava edição, salvo engano, de 1928, que teria sido emendada e corrigida por um filho de José de Alencar. Para uma reedição de luxo, em preparo para o ano que vem, quando se completam 140 anos do lançamento, o Sânzio vai se basear nesta oitava edição. Esta edição fac similar foi feita para lembrar esta data, 1603, a primeira presença portuguesa no Ceará. O lançamento era para ter sido ano passado, mas houve um atraso na impressão, feita na Imprensa Oficial de São Paulo. Era para ser em outubro, mas ficou agora para o começo do ano, com a pegada do inverno.

OP - Iracema, passados tantos anos, ainda emociona o leitor. Você não acha?

VM - Li Iracema quando tinha uns dez anos de idade, hoje tenho quase 50. E, relendo, vi como o livro é bonito, muito bonito, a história muito bem contada. Desse encontro dos europeus com os povos americanos, não tem nada parecido, não. O Brasil tem um batistério, com a carta de Pero Vaz de Caminha. Qual é a terra que tem um romance, digamos assim, do seu nascimento, do caráter de Iracema? Não conheço. Por outro lado, o Brasil é o maior país católico do mundo e não tem nenhum santo. Até a Coréia tem, trinta e tantos! Ainda a questão da América... O próprio Machado de Assis, no ensaio dele, fala em poesia americana. E o Alencar chama Iracema de indígena americana. Cecília Meireles, no começo do seu Romanceiro da Inconfidência, diz, ''pelos sertões americanos''. Você vê que a palavra América era de cá.

OP - No romance, queria que você destacasse o código de honra dos índios, ao ponto de proteger o estrangeiro, porque ele está ali como hóspede. Tem a ver com o nosso código de honra sertanejo, herdado dos códigos ibéricos?

VM - A questão de que o hóspede é sagrado, não é? O código de honra do sertanejo cearense me parece coisa de matriz indígena, talvez não seja uma coisa portuguesa. Até porque eles estavam aqui como conquistadores.

OP - Virgílio, e o lançamento desta edição fac similar vai começar por aqui?

VM - Aqui. A apresentação será da escritora Beatriz Alcântara. Agora, apenas 120 exemplares estarão à venda, porque a tiragem foi pequena, mil exemplares, repartida entre a Biblioteca O Curumim Sem Nome, a Oboé, a Editora Giordano e a Imprensa Oficial de São Paulo.

SERVIÇO
Iracema (edição fac-similar) - de José de Alencar. Edição Imprensa Oficial de São Paulo, Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes e Biblioteca O Curumim Sem Nome. Lançamento nacional hoje, às 19h30min, no Centro Cultural Oboé (rua Maria Tomásia, 531 - Aldeota). Ilustrações: Côca Torquato. Apresentação: Beatriz Alcântara. O livro, com 207 páginas, custa R$ 45 e pode ser adquirido pelo site da Imprensa Oficial: www.imprensaoficial.com.br/livraria. Para a noite de lançamento, preço especial: R$ 40. Inforamções: 264.7038.

(© NoOlhar.com.br)

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