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 Subversão de Waly Salomão volta oficial

11/02/2004

 

 

 

Marco da contracultura nos anos 70, "Me Segura Qu'Eu Vou Dar um Troço" é relançado pela Biblioteca Nacional

MÁRVIO DOS ANJOS
DA REDAÇÃO

   A reedição comemorativa de "Me Segura Qu'Eu Vou Dar um Troço" -marco da contracultura nacional escrito pelo poeta, compositor e intelectual Waly Salomão (1944-2003)- traz consigo um doce sabor de ironia, do ponto de vista histórico.

   O livro surge em 1972. Preso por porte de drogas, Salomão cumpre 18 dias numa cela no Carandiru, em São Paulo. Nesse cenário, cria, sob o pseudônimo Waly Sailormoon (o "Marujeiro da Lua"), sua obra de estréia, de caráter libertário, antiacadêmico, urgente. Publicado, rapidamente se esgota.

   Corta para 2004. Editado pela Aeroplano em parceria com a Biblioteca Nacional, "Me Segura" vira celebração oficial -uma homenagem ao autor, secretário nacional do Livro morto em maio do ano passado, pouco depois de ser empossado pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil.

   De subversão a patrimônio, "Me Segura" ganhou edição de luxo em capa dura, admiradores famosos e a chance de demonstrar sua atualidade, como afirma a diretora da Aeroplano e professora da UFRJ, Heloísa Buarque de Hollanda, que organizou a obra.

   "Me Segura'" permanece atual por seu valor especificamente literário. Pela invenção contínua de estruturas poéticas poliédricas, pelo trabalho no limite entre os gêneros literários e, principalmente, pela força de uma imagética fascinante e brutal no seu melhor sentido", diz Hollanda.

   Para atestar sua atemporalidade, o relançamento hoje, no Leblon (zona sul do Rio), conta com presenças de cabeças de vários tempos: poetas como Antonio Cicero (que escreve o ensaio introdutório), Eucanaã Ferraz e Chacal, e músicos como Caetano, Gil, Adriana Calcanhotto, O Rappa e Jards Macalé, entre outros.

   No trabalho de reedição, houve a preocupação de mostrar que o livro pertence ao seu tempo. O novo projeto gráfico e a organização tiveram a mão de Luciano Figueiredo, co-autor da capa original de 72. Foi mantida a foto que retrata Salomão e o colunista da Folha José Simão (em vastas cabeleiras e bocas-de-sino) na praia de Copacabana, ao lado da menina Rubia Mattos, que vivia no morro de São Carlos.

   "Participei de muitos episódios desse livro, nós éramos como irmãos. Acho que é um retrato essencial e pulsante dos anos da repressão, quando você tinha a coisa da luta armada mas também tinha a luta da cultura underground. É como relançar "On the Road", do Kerouac", diz Simão.

   Sobre a capa, Figueiredo vai além: "A própria presença do autor, segurando uma faixa com a palavra "Fa-Tal", é uma situação experimental daqueles anos", diz o artista, hoje diretor do Centro de Artes Hélio Oiticica.

   A experimentação nas reflexões vem em torrente, num verso libertário e liberado, que flerta com a prosa e vice-versa. "Uma liberação da escritura", como o próprio Salomão afirmaria depois.

   "É o manifesto de uma pessoa só", diz o poeta Armando Freitas Filho, "não apenas literário, mas de posicionamentos e costumes".

   Uma escrita que, para Hollanda, não precisa de uma definição à parte. "Trata-se de poesia pura. Ainda que sempre brincando com os limites entre poesia e prosa, a obra de Waly é poesia em estado de alerta, 24 horas por dia."

ME SEGURA QU'EU VOU DAR UM TROÇO. De: Waly Salomão. Editora: Aeroplano e Biblioteca Nacional. Quanto: R$ 35 (promocional; 208 págs.). Quando: hoje, às 19h. Onde: Dantes Livraria (r. Dias Ferreira, 45, Leblon, Rio, tel. 0/xx/21/2511-3480).

(© Folha de S. Paulo)


TRECHO

"O profeta vivo dentro de uma cova (...) incorporando à sua experiência acontecimentos que, lembrados e relatados, deviam propriamente ser postos na 3ª pessoa. Mas que queremos dizer com esse "propriamente'? Será o eu de uma pessoa uma coisa aprisionada dentro de si mesma, rigorosamente enclausurada dentro dos limites da carne e do tempo? Acaso muito dos elementos que o constituem não pertencem a um mundo na sua frente e fora dele? A idéia de que cada pessoa é ela própria e não pode ser outra não será (...) uma convenção que arbitrariamente deixa de levar em conta as transições que ligam a consciência individual à geral?"

WALY SALOMÃO, em "Me Segura"

(© Folha de S. Paulo)

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