Music from Pernambuco
atende demanda do mercado internacional, fecha contratos e aguarda
negociações
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Aos gringos
interessam mais as raízes. Pelo menos tem sido essa a impressão obtida na
Europa pelos produtores do Music From Pernambuco, Paulo André Pires e Melina
Hickson, que em grandes eventos internacionais como a Midem e a Womex estão
percebendo uma maior demanda pelos ritmos folclóricos do que por
experimentações pop contemporâneas dos músicos locais. Por meio do projeto,
apoiado pelo fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, eles levaram para os
encontros um CD com músicas de 22 artistas, acompanhando material de
divulgação e contato de todos eles. Se qualquer negócio fechado já seria
lucro para a cultura local, o resultado atendeu as expectativas, com mais de
dez contratos confirmados (alguns a serem ampliados), 930 coletâneas
distribuídas pessoalmente entre produtores estrangeiros e sinalizações
positivas de gravadoras interessadas nas bandas.
O projeto continua até abril, período
que ainda inclui a feira Strictly Mundial, dissidência da Womex, que este
ano acontece em Istambul na Turquia. O material também foi distribuído no
Mercado Cultural de Salvador. Os principais eventos, entretanto, foram mesmo
a Womex, realizada este ano em Sevilha, e a Midem, sediada em Cannes. A
primeira (sigla para World Music Expo), é um dos principais ambientes
internacionais de negociações entre festivais, casas de espetáculo,
produtores e artistas dos cinco continentes, com a participação de mais de
1800 agentes de 1050 empresas de 80 países, 174 estandes com 250 exibidores,
40 showcases de artistas e 200 membros da imprensa.
O Music From Pernambuco levou a esses eventos
músicas de DJ Dolores & Aparelhagem, Nação Zumbi, Otto, Maracatu Estrela
Brilhante, Tambores da Oxum, Lia de Itamaracá, Samba de Coco Raízes de
Arcoverde, Comadre Fulozinha, Maciel Salú e o Terno do Terreiro, Arlindo dos
Oito Baixos, Chá de Zabumba, Siba e a Fuloresta, Orquestra do Maestro Duda,
Naná Vasconcelos, Alceu Valença, Silvério Pessoa, Cordel do Fogo Encantado,
Cascabulho, Mundo Livre S/A, Eddie, Bonsucesso Samba Clube. Para a próxima
edição,prevista para o segundo semestre, a intenção é preparar um DVD com as
performances dos músicos. Mais do que ilustrar, isso forneceria aos
estrangeiros informações sobre a estrutura e o porte das bandas.
Até agora, a empresa Extreme Music,
especializada em coletâneas internacionais temáticas, é o maior cliente do
Music. Através do projeto, ela encomendou músicas de Siba, Lia de Itamaracá,
Sá Grama, Maracatu Estrela Brilhante e Arlindo dos Oito Baixos para serem
incluídas no disco Passport to Brazil. A gravadora ainda pediu para conhecer
melhor os CDs próprios dos artistas e demonstrou interesse por Silvério e
Cascabulho para o futuro. Seus produtos são mais voltados para o mercado de
trilhas sonoras, sem comercialização em lojas.
Desdobramentos - Siba e a
Fuloresta do Samba, que já estão com turnê européia marcada, ainda caíram
nas graças do selo Iris Music, de Paris, que vai lançar na Europa o CD do
grupo de Nazaré da Mata. O selo Suave, também da capital parisiense, está
produzindo uma caixa sobre o forró, e já pediu os contatos de Chá de Zabumba
e Arlindo dos Oito Baixos. A banda Eddie conquistou os representantes da
gravadora Nylon, de Portugal, para ter o disco Olinda Original Style lançado
por lá.
Nem todos os resultados do Music From
Pernambuco são imediatos, pois os CDs foram distribuídos e os produtores
estrangeiros ainda devem entrar em contato com os músicos quando estiverem
produzindo seus eventos ou procurando nomes para trabalhar, ações que não
acontecem necessariamente nas feiras. Outros demoram para estudar propostas,
mas já acenam positivamente, como as quatro gravadoras que se interessaram
por distribuir o disco da Nação Zumbi. Paralelamente ao Music, DJ Dolores &
Aparelhagem também está com um número crescente de propostas vindas de
vários países. "Ele é o principal novo nome brasileiro no exterior", analisa
Paulo André, que o produz. O DJ, com a antiga Orchestra Santa Massa, acaba
de ganhar um importante prêmio da BBC.
Para reforçar a importância do projeto, Paulo
André conta que diversos produtores internacionais, como Michael Waterworld
(Extreme), já vieram ao Rio de Janeiro procurar artistas para investir,
voltando para a Europa de mãos vazias. Esses mesmos olheiros estão agora
contratando os artistas pernambucanos depois de conhecerem o Music From
Pernambuco. O exemplo já está sendo seguido pelo Ceará, que está planejando
se inspirar na iniciativa.
(©
Pernambuco.com)
Olheiros na praça
Dois olheiros
internacionais de peso chegaram ao Recife para, sem compromissos oficiais,
vivenciarem de perto a música feita em Pernambuco durante uma semana. Um
deles é Borkowski Akbar, diretor geral da Womex, um das mais importante
feiras de música internacionais. O outro é Frank London, que faz parte do
movimento klesmer alemão (música pop judaica) e também é um dos
articuladores de uma nova valorização das orquestras e bandas de metais.
Apesar de não se comprometerem a assinar contratos, eles possuem interesses
bastante específicos por aqui.
Borkowski, diretor da produtora Piranha Kultur,
esteve no Recife no ano passado. Como as bandas pernambucanas foram as
primeiras brasileiras a se apresentar e ser valorizadas na Womex, o produtor
faz questão de passar por Recife quando vem ao Brasil, mesmo quando recebe
convites para ir apenas ao Rio de Janeiro (como agora). Ele está
acompanhando Frank London, músico da banda Klesmetics, que já gravou pela
gravadora Piranha Records.
Além do CD de sua banda, London também gravou
um disco em que ele reúne os feras europeus das brassbands, que trabalham
privilegiando o naipe de metais. Seu interesse no Recife é, logicamente,
conhecer as orquestras de frevo e os instrumentistas da região. Além disso,
o artista quer ver a primeira sinagoga das Américas, na rua do Bom Jesus,
para depois desenvolver um projeto juntando tudo, talvez um disco ou um DVD.
Ele também deve entrar em contato com o naipe de metais de grupos do
interior, como os da Fuloresta do Samba que acompanha Siba (a ciranda, por
exemplo, é um gênero onde o sopro, literalmente, é muito forte).
Borkowski deve ainda iniciar as primeiras
reuniões sobre a realização de um evento internacional de música no Recife,
em parceria com a Astronave Produções. Segundo Paulo André, o evento levaria
o carimbo da Womex e não seria especificamente voltado para a divulgação da
música pernambucana, pois a cidade funcionaria apenas como uma espécie de
sede.
(©
Pernambuco.com)