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 Música de raiz para o Mundo ouvir

11/02/2004

 

 

Naná Vasconcelos
 

Music from Pernambuco atende demanda do mercado internacional, fecha contratos e aguarda negociações

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   Aos gringos interessam mais as raízes. Pelo menos tem sido essa a impressão obtida na Europa pelos produtores do Music From Pernambuco, Paulo André Pires e Melina Hickson, que em grandes eventos internacionais como a Midem e a Womex estão percebendo uma maior demanda pelos ritmos folclóricos do que por experimentações pop contemporâneas dos músicos locais. Por meio do projeto, apoiado pelo fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, eles levaram para os encontros um CD com músicas de 22 artistas, acompanhando material de divulgação e contato de todos eles. Se qualquer negócio fechado já seria lucro para a cultura local, o resultado atendeu as expectativas, com mais de dez contratos confirmados (alguns a serem ampliados), 930 coletâneas distribuídas pessoalmente entre produtores estrangeiros e sinalizações positivas de gravadoras interessadas nas bandas.

   O projeto continua até abril, período que ainda inclui a feira Strictly Mundial, dissidência da Womex, que este ano acontece em Istambul na Turquia. O material também foi distribuído no Mercado Cultural de Salvador. Os principais eventos, entretanto, foram mesmo a Womex, realizada este ano em Sevilha, e a Midem, sediada em Cannes. A primeira (sigla para World Music Expo), é um dos principais ambientes internacionais de negociações entre festivais, casas de espetáculo, produtores e artistas dos cinco continentes, com a participação de mais de 1800 agentes de 1050 empresas de 80 países, 174 estandes com 250 exibidores, 40 showcases de artistas e 200 membros da imprensa.

   O Music From Pernambuco levou a esses eventos músicas de DJ Dolores & Aparelhagem, Nação Zumbi, Otto, Maracatu Estrela Brilhante, Tambores da Oxum, Lia de Itamaracá, Samba de Coco Raízes de Arcoverde, Comadre Fulozinha, Maciel Salú e o Terno do Terreiro, Arlindo dos Oito Baixos, Chá de Zabumba, Siba e a Fuloresta, Orquestra do Maestro Duda, Naná Vasconcelos, Alceu Valença, Silvério Pessoa, Cordel do Fogo Encantado, Cascabulho, Mundo Livre S/A, Eddie, Bonsucesso Samba Clube. Para a próxima edição,prevista para o segundo semestre, a intenção é preparar um DVD com as performances dos músicos. Mais do que ilustrar, isso forneceria aos estrangeiros informações sobre a estrutura e o porte das bandas.

    Até agora, a empresa Extreme Music, especializada em coletâneas internacionais temáticas, é o maior cliente do Music. Através do projeto, ela encomendou músicas de Siba, Lia de Itamaracá, Sá Grama, Maracatu Estrela Brilhante e Arlindo dos Oito Baixos para serem incluídas no disco Passport to Brazil. A gravadora ainda pediu para conhecer melhor os CDs próprios dos artistas e demonstrou interesse por Silvério e Cascabulho para o futuro. Seus produtos são mais voltados para o mercado de trilhas sonoras, sem comercialização em lojas.

   Desdobramentos - Siba e a Fuloresta do Samba, que já estão com turnê européia marcada, ainda caíram nas graças do selo Iris Music, de Paris, que vai lançar na Europa o CD do grupo de Nazaré da Mata. O selo Suave, também da capital parisiense, está produzindo uma caixa sobre o forró, e já pediu os contatos de Chá de Zabumba e Arlindo dos Oito Baixos. A banda Eddie conquistou os representantes da gravadora Nylon, de Portugal, para ter o disco Olinda Original Style lançado por lá.

   Nem todos os resultados do Music From Pernambuco são imediatos, pois os CDs foram distribuídos e os produtores estrangeiros ainda devem entrar em contato com os músicos quando estiverem produzindo seus eventos ou procurando nomes para trabalhar, ações que não acontecem necessariamente nas feiras. Outros demoram para estudar propostas, mas já acenam positivamente, como as quatro gravadoras que se interessaram por distribuir o disco da Nação Zumbi. Paralelamente ao Music, DJ Dolores & Aparelhagem também está com um número crescente de propostas vindas de vários países. "Ele é o principal novo nome brasileiro no exterior", analisa Paulo André, que o produz. O DJ, com a antiga Orchestra Santa Massa, acaba de ganhar um importante prêmio da BBC.

   Para reforçar a importância do projeto, Paulo André conta que diversos produtores internacionais, como Michael Waterworld (Extreme), já vieram ao Rio de Janeiro procurar artistas para investir, voltando para a Europa de mãos vazias. Esses mesmos olheiros estão agora contratando os artistas pernambucanos depois de conhecerem o Music From Pernambuco. O exemplo já está sendo seguido pelo Ceará, que está planejando se inspirar na iniciativa.

(© Pernambuco.com)


Olheiros na praça

   Dois olheiros internacionais de peso chegaram ao Recife para, sem compromissos oficiais, vivenciarem de perto a música feita em Pernambuco durante uma semana. Um deles é Borkowski Akbar, diretor geral da Womex, um das mais importante feiras de música internacionais. O outro é Frank London, que faz parte do movimento klesmer alemão (música pop judaica) e também é um dos articuladores de uma nova valorização das orquestras e bandas de metais. Apesar de não se comprometerem a assinar contratos, eles possuem interesses bastante específicos por aqui.

   Borkowski, diretor da produtora Piranha Kultur, esteve no Recife no ano passado. Como as bandas pernambucanas foram as primeiras brasileiras a se apresentar e ser valorizadas na Womex, o produtor faz questão de passar por Recife quando vem ao Brasil, mesmo quando recebe convites para ir apenas ao Rio de Janeiro (como agora). Ele está acompanhando Frank London, músico da banda Klesmetics, que já gravou pela gravadora Piranha Records.

   Além do CD de sua banda, London também gravou um disco em que ele reúne os feras europeus das brassbands, que trabalham privilegiando o naipe de metais. Seu interesse no Recife é, logicamente, conhecer as orquestras de frevo e os instrumentistas da região. Além disso, o artista quer ver a primeira sinagoga das Américas, na rua do Bom Jesus, para depois desenvolver um projeto juntando tudo, talvez um disco ou um DVD. Ele também deve entrar em contato com o naipe de metais de grupos do interior, como os da Fuloresta do Samba que acompanha Siba (a ciranda, por exemplo, é um gênero onde o sopro, literalmente, é muito forte).

   Borkowski deve ainda iniciar as primeiras reuniões sobre a realização de um evento internacional de música no Recife, em parceria com a Astronave Produções. Segundo Paulo André, o evento levaria o carimbo da Womex e não seria especificamente voltado para a divulgação da música pernambucana, pois a cidade funcionaria apenas como uma espécie de sede.

(© Pernambuco.com)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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