Elas não estão nem aí para o fardo de carregar a alfaia ou
o atabaque. Cada vez mais, as garotas comandam o baticum
GEISA AGRICIO
Não há mais ambiente ou esfera
social em que as mulheres não dividam atenções com o sexo oposto. E se a
arte imita mesmo a vida, no circuito ‘batuqueiro’ não é de se surpreender
que elas estejam também sob a luz dos holofotes. Antes restritas ao vocal ou
ao corpo de baile das agremiações carnavalescas, as mulheres dobram mais
essa barreira das tradições sexistas e conquistam o espaço na percussão,
provando que lugar de mulher é mesmo na cozinha, mas na de conjuntos
musicais.
Levadas pela curiosidade de
vivenciar um pouco mais a cultura popular, sejam em maracatus tradicionais,
grupos estilizados ou bandas profissionais, elas experimentam a sensação de
colaborar na produção do som ao qual se dedicam, fazendo parte do batuque.
Seja com o delicado maraca ou com as pesadas alfaias e caixas, hoje é
possível encontrar mulheres com qualquer instrumento percussivo em punho, e
cada vez mais em pé de igualdade com a ala masculina. Dedicadas, as garotas
colorem às batidas pernambucanas.
Precursoras do baticum
pernambucano, as meninas da banda Comadre Fulozinha, Isaar França e Karina
Buhr, hoje nacionalmente conhecidas, começaram sua trajetória profissional
já com instrumentos percussivos. Nos anos 90 tocavam em boizinhos do
Carnaval, sambadas de maracatu, cavalos-marinhos e afoxés. Em 1997, criaram
a banda que, na época, era formada apenas por mulheres.
Depois de escaparem do estigma de
“banda regional de saias”, a Comadre Fulozinha transformou-se em referência
na nova geração de grupos inspirados na cultura popular e tornou-se
inspiração para outras garotas. Meninas da comunidade do Poço da Panela as
foram procurar para solicitar aulas de percussão. A oficina voluntária vem
desde o ano 2000 formando jovens percussionistas, como Kássia Pajeú, que com
apenas 15 anos já integra o elenco das comadres.
Outras há muito na estrada, desde
meados da década de 90, são as irmãs gêmeas Ana Freire e Lourdes Araújo.
Como muitas começaram apenas cantando: integraram o back vocal de Erasto
Vasconcelos e depois o do irmão Naná. A proximidade com dois dos maiores
percussionistas do mundo trouxe-lhes a curiosidade para também tocar os
instrumentos. Atualmente, Ana toca no grupo Azambumba. Lourdes integra a
banda da cantora paulista Renata Rosa e se prepara para seguir em turnê
européia com o grupo belga Think of One, que esteve no Recife no ano
passado.
A percussão não é uma inspiração
estritamente profissional. Algumas mulheres, em sua maioria de classe média,
acabam descobrindo no batuque um novo hobby, e fazem da percussão uma
maneira divertida de conhecer as raízes dos sons que admiram: de escolas e
oficinas percussivas a nações de tradicionais maracatus, passando por
agremiações mais modernas.
O grupo Viramundo, criado em 2002
por ex-integrantes do Badia, primeiro maracatu exclusivamente de mulheres,
ainda é majoritariamente feminino, e apesar do grande volume de cerca de 100
batuqueiros, nenhum integrante tem aspirações profissionais. Há ainda outros
conjuntos em que elas são maioria como no Corpos Percussivos e na oficina de
percussão do Espaço Usina.
(© Jornal do
Commercio-PE)
Garotas pilotam cozinha do baticum
Apesar do sucesso entre o público, algumas mulheres ainda sofrem preconceito
dentro do ambiente dos grupos percussivos
O espaço existe sim. Elas já são
maioria em vários grupos, têm bandas exclusivas, já trabalharam com
grandes artistas, gravaram discos e até já fizeram turnês nacionais e
internacionais. Mesmo assim, as mulheres que optaram pela percussão como
carreira registram que o caminho não é fácil e quem nem todos os
preconceitos foram derrubados.
Karina Buhr, da Comadre Fulozinha,
lembra que nos tempos em que tocava na banda Eddie chegou a ser barrada em
passagens de som, porque técnicos a confundiam como uma fã ou namorada de
algum dos integrantes, e nunca acreditavam que ela tocava na banda.
Mesmo depois do nome consagrado
das comadres, até mesmo por profissionais da imprensa, elas foram
estigmatizadas como uma banda “vocal” feminina. “É como se ignorassem todo
nosso conhecimento e potencial. Nos esforçamos para mostrar nosso trabalho
como percussionistas”, lamenta Karina.
Isaar França, outra comadre, que
integrava também a Orquestra Santa Massa, lembra de um episódio
discriminatório que aconteceu no ano passado em um estúdio de gravação. Um
músico amigo pediu para que ela indicasse o nome de um percussionista, e ela
destacou o nome de Karina. Recebeu como resposta: “parece bom, pode ser
interessante chamar uma mulher”.
“O que mais me impressionou foi
que, primeiro, não eram pessoas leigas. Segundo, ele pensou em Karina, não
pelo trabalho dela, que já conhecia, mas pelo ‘exotismo’ de ser uma mulher”,
lamenta Isaar.
Karina diz ainda que a barreira
que não conseguiu destruir foi mesmo a das tradições. “Eu passei anos
tocando em maracatus de ensaios a desfiles, mas na hora dos batuques no
terreiro, eu não podia tocar. Apenas uma única vez pude chacoalhar o maraca,
mas nunca bater o atabaque”.
Outras que também não escaparam de
serem mal-vistas foram as irmãs Ana Freire e Lourdes Araújo. Elas comentam
que quando tocavam no Maracatu Estrela Brilhante, pessoas de fora da
agremiação, em geral estudiosos, costumavam questionar suas reais intenções
em participar da nação.
“O mais difícil eram quando
desvalorizavam-nos como percussionistas e maldosamente afirmavam que nós só
estávamos trabalhando com nomes como Naná e Erasto Vasconcelos, ou Alceu
Valença, que só tínhamos conseguido por éramos ‘bonitinhas e gêmeas’”,
relata Lourdes.
(© Jornal do
Commercio-PE)
Maracatus tradicionais cedem à presença feminina
O mais difícil
espaço a ser conquistado pelas meninas que se dedicam à percussão começa a
se transfigurar num novo cenário feminino: a batucada dos mais
tradicionais maracatus pernambucanos. Pelo menos nos últimos três anos,
nações antigas como Estrela Brilhante, Porto Rico e Leão Coroado abriram
espaço para as mulheres em seu conjunto percussivo.
Devido à vinculação religiosa que
esses maracatus têm com os ritos do candomblé, no século 20, às mulheres era
permitido apenas participar da evolução, ou seja, do grupo de dançarinos.
Com a restruturação dessas
agremiações, no fim da década de 90, elas se abriram para integrantes de
fora da comunidade, permitindo que estudantes da classe média dividissem os
rufos dos tambores. Nessa época, as primeiras mulheres participaram dos
desfiles de Carnaval na percussão.
Presidente e rainha do Nação do
Maracatu Porto Rico, Elda Ivo Viana afirma que desde a entrada do mestre
Chacon, em 2002, o Porto Rico vê com bons olhos a presença feminina na
batucada. Do corpo de aproximadamente 80 batuqueiros, cerca de 20 são
mulheres. Apesar disso, ela ainda confessa achar estranho ver um homem
agitar uma maraca e uma mulher tocar alfaia. “O maracatu transformou-se, é
preciso acompanhar as mudanças que o tempo traz, e isso é uma coisa boa. A
única restrição imposta é que elas estejam de corpo limpo para segurar os
instrumentos”, explica Dona Elda, referindo-se à proibição de mulheres
tocarem se estiverem menstruadas. Já no Leão Coroado, o presidente Afonso
Gomes de Aguiar Filho acredita que mulheres demais descaracterizam a
essência do maracatu, e apesar de aceitar mulheres na percussão, no seu
grupo elas não podem assumir, por exemplo, as alfaias principais. (G.A.)
(© Jornal do
Commercio-PE)