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 Mulheres no batuque

11/02/2004

 

 

Isaar Franca, do Comadre Fulozinha
 

Elas não estão nem aí para o fardo de carregar a alfaia ou o atabaque. Cada vez mais, as garotas comandam o baticum

GEISA AGRICIO

   Não há mais ambiente ou esfera social em que as mulheres não dividam atenções com o sexo oposto. E se a arte imita mesmo a vida, no circuito ‘batuqueiro’ não é de se surpreender que elas estejam também sob a luz dos holofotes. Antes restritas ao vocal ou ao corpo de baile das agremiações carnavalescas, as mulheres dobram mais essa barreira das tradições sexistas e conquistam o espaço na percussão, provando que lugar de mulher é mesmo na cozinha, mas na de conjuntos musicais.

   Levadas pela curiosidade de vivenciar um pouco mais a cultura popular, sejam em maracatus tradicionais, grupos estilizados ou bandas profissionais, elas experimentam a sensação de colaborar na produção do som ao qual se dedicam, fazendo parte do batuque. Seja com o delicado maraca ou com as pesadas alfaias e caixas, hoje é possível encontrar mulheres com qualquer instrumento percussivo em punho, e cada vez mais em pé de igualdade com a ala masculina. Dedicadas, as garotas colorem às batidas pernambucanas.

   Precursoras do baticum pernambucano, as meninas da banda Comadre Fulozinha, Isaar França e Karina Buhr, hoje nacionalmente conhecidas, começaram sua trajetória profissional já com instrumentos percussivos. Nos anos 90 tocavam em boizinhos do Carnaval, sambadas de maracatu, cavalos-marinhos e afoxés. Em 1997, criaram a banda que, na época, era formada apenas por mulheres.

   Depois de escaparem do estigma de “banda regional de saias”, a Comadre Fulozinha transformou-se em referência na nova geração de grupos inspirados na cultura popular e tornou-se inspiração para outras garotas. Meninas da comunidade do Poço da Panela as foram procurar para solicitar aulas de percussão. A oficina voluntária vem desde o ano 2000 formando jovens percussionistas, como Kássia Pajeú, que com apenas 15 anos já integra o elenco das comadres.

   Outras há muito na estrada, desde meados da década de 90, são as irmãs gêmeas Ana Freire e Lourdes Araújo. Como muitas começaram apenas cantando: integraram o back vocal de Erasto Vasconcelos e depois o do irmão Naná. A proximidade com dois dos maiores percussionistas do mundo trouxe-lhes a curiosidade para também tocar os instrumentos. Atualmente, Ana toca no grupo Azambumba. Lourdes integra a banda da cantora paulista Renata Rosa e se prepara para seguir em turnê européia com o grupo belga Think of One, que esteve no Recife no ano passado.

   A percussão não é uma inspiração estritamente profissional. Algumas mulheres, em sua maioria de classe média, acabam descobrindo no batuque um novo hobby, e fazem da percussão uma maneira divertida de conhecer as raízes dos sons que admiram: de escolas e oficinas percussivas a nações de tradicionais maracatus, passando por agremiações mais modernas.

   O grupo Viramundo, criado em 2002 por ex-integrantes do Badia, primeiro maracatu exclusivamente de mulheres, ainda é majoritariamente feminino, e apesar do grande volume de cerca de 100 batuqueiros, nenhum integrante tem aspirações profissionais. Há ainda outros conjuntos em que elas são maioria como no Corpos Percussivos e na oficina de percussão do Espaço Usina.

(© Jornal do Commercio-PE)


Garotas pilotam cozinha do baticum

Apesar do sucesso entre o público, algumas mulheres ainda sofrem preconceito dentro do ambiente dos grupos percussivos

   O espaço existe sim. Elas já são maioria em vários grupos, têm bandas exclusivas, já trabalharam com grandes artistas, gravaram discos e até já fizeram turnês nacionais e internacionais. Mesmo assim, as mulheres que optaram pela percussão como carreira registram que o caminho não é fácil e quem nem todos os preconceitos foram derrubados.

   Karina Buhr, da Comadre Fulozinha, lembra que nos tempos em que tocava na banda Eddie chegou a ser barrada em passagens de som, porque técnicos a confundiam como uma fã ou namorada de algum dos integrantes, e nunca acreditavam que ela tocava na banda.

   Mesmo depois do nome consagrado das comadres, até mesmo por profissionais da imprensa, elas foram estigmatizadas como uma banda “vocal” feminina. “É como se ignorassem todo nosso conhecimento e potencial. Nos esforçamos para mostrar nosso trabalho como percussionistas”, lamenta Karina.

   Isaar França, outra comadre, que integrava também a Orquestra Santa Massa, lembra de um episódio discriminatório que aconteceu no ano passado em um estúdio de gravação. Um músico amigo pediu para que ela indicasse o nome de um percussionista, e ela destacou o nome de Karina. Recebeu como resposta: “parece bom, pode ser interessante chamar uma mulher”.

   “O que mais me impressionou foi que, primeiro, não eram pessoas leigas. Segundo, ele pensou em Karina, não pelo trabalho dela, que já conhecia, mas pelo ‘exotismo’ de ser uma mulher”, lamenta Isaar.

   Karina diz ainda que a barreira que não conseguiu destruir foi mesmo a das tradições. “Eu passei anos tocando em maracatus de ensaios a desfiles, mas na hora dos batuques no terreiro, eu não podia tocar. Apenas uma única vez pude chacoalhar o maraca, mas nunca bater o atabaque”.

   Outras que também não escaparam de serem mal-vistas foram as irmãs Ana Freire e Lourdes Araújo. Elas comentam que quando tocavam no Maracatu Estrela Brilhante, pessoas de fora da agremiação, em geral estudiosos, costumavam questionar suas reais intenções em participar da nação.

   “O mais difícil eram quando desvalorizavam-nos como percussionistas e maldosamente afirmavam que nós só estávamos trabalhando com nomes como Naná e Erasto Vasconcelos, ou Alceu Valença, que só tínhamos conseguido por éramos ‘bonitinhas e gêmeas’”, relata Lourdes.

(© Jornal do Commercio-PE)


Maracatus tradicionais cedem à presença feminina

   O mais difícil espaço a ser conquistado pelas meninas que se dedicam à percussão começa a se transfigurar num novo cenário feminino: a batucada dos mais tradicionais maracatus pernambucanos. Pelo menos nos últimos três anos, nações antigas como Estrela Brilhante, Porto Rico e Leão Coroado abriram espaço para as mulheres em seu conjunto percussivo.

   Devido à vinculação religiosa que esses maracatus têm com os ritos do candomblé, no século 20, às mulheres era permitido apenas participar da evolução, ou seja, do grupo de dançarinos.

   Com a restruturação dessas agremiações, no fim da década de 90, elas se abriram para integrantes de fora da comunidade, permitindo que estudantes da classe média dividissem os rufos dos tambores. Nessa época, as primeiras mulheres participaram dos desfiles de Carnaval na percussão.

   Presidente e rainha do Nação do Maracatu Porto Rico, Elda Ivo Viana afirma que desde a entrada do mestre Chacon, em 2002, o Porto Rico vê com bons olhos a presença feminina na batucada. Do corpo de aproximadamente 80 batuqueiros, cerca de 20 são mulheres. Apesar disso, ela ainda confessa achar estranho ver um homem agitar uma maraca e uma mulher tocar alfaia. “O maracatu transformou-se, é preciso acompanhar as mudanças que o tempo traz, e isso é uma coisa boa. A única restrição imposta é que elas estejam de corpo limpo para segurar os instrumentos”, explica Dona Elda, referindo-se à proibição de mulheres tocarem se estiverem menstruadas. Já no Leão Coroado, o presidente Afonso Gomes de Aguiar Filho acredita que mulheres demais descaracterizam a essência do maracatu, e apesar de aceitar mulheres na percussão, no seu grupo elas não podem assumir, por exemplo, as alfaias principais. (G.A.)

(© Jornal do Commercio-PE)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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