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 Ariano Suassuna clama por identidade cultural

12/02/2004

 

 

Monalisa Lins/AE

Ariano Suassuna, na PUC de São Paulo
 

O escritor Ariano Suassuna discursou na abertura do seminário Conteúdo Brasil hoje em SP, criticando a indústria do lixo cultural

   São Paulo - Ariano Suassuna, convidado especial do seminário Conteúdo Brasil, realizado hoje no Tuca, numa promoção conjunta da PUC de São Paulo com a Rede Globo de Televisão, não deixou por menos. Sobrou até uma crítica aos promotores do encontro pela inclusão, no programa, de um “coffee break” entre sua palestra e a formação dos grupos de discussão com notáveis como o cineasta Hector Babenco, o ator Antonio Fagundes e o escritor Zuenir Ventura. Não exatamente por causa da “pausa para o café”, mas porque os organizadores permitiram o contrabando de uma expressão americana num seminário destinado justamente a repensar os rumos da produção cultural brasileira.

   O acadêmico paraibano é autor de O Auto da Compadecida e criador do Movimento Armorial, que defende há 30 anos a preservação da cultura nacional. Sua palestra não foi muito diferente do infatigável discurso contra o colonialismo cultural que repete todas as vezes em que ouve o nome de Michael Jackson e Madonna, os dois crucificados em sua aula-espetáculo aos participantes do seminário. Para provar que nem mesmo ele, quando jovem, escapou da lavagem cerebral colonialista, Suassuna lembrou de um antigo filme de George Stevens, Gunga Din, de 1939, em que três soldados ingleses reprimem um levante de rebeldes na Índia do século 19. Detalhe: com a ajuda de um carregador de água indiano de pele escura, que sonha ser um militar britânico loiro e de olhos azuis. “Lembro que chorei quando Gunga Din morreu e foi enterrado com honras de herói”, revelou, estabelecendo uma correspondência entre guerra imperialista e colonização cultural.

   Suassuna, que detesta viajar, aceitou participar do seminário por acreditar que o brasileiro é capaz de escapar à síndrome de Gunga Din, reencontrando sua identidade perdida. “Fico me perguntando se virei paranóico, mas parece claro que existe uma política de dominação por trás de tudo isso”, referindo-se à realidade transcultural do mundo globalizado. “Se, antes, os Estados Unidos mandavam porta-aviões para dominar um país, hoje basta mandar Michael Jackson ou Madonna”, resumiu. Citou como exemplo de fusão híbrida – ou bizarra, considerando sua expressão – a música do pernambucano Chico Science, inventor do “mangue-beat”, mistura de maracatu com rock.

   O escritor e dramaturgo, que ocupa a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, criticou a influência da cultura estrangeira citando o escritor russo Boris Pasternak, autor de Doutor Jivago, um autor nacionalista banido pelo regime soviético e, segundo Suassuna, tão importante como Tolstoi. “Como Pasternak, digo que é preciso cerrar os dentes e compartilhar o destino de nosso país.” E qual é esse destino? Não é o de preservar a cultura brasileira numa redoma, esclarece. É, sim, preservar as manifestações regionais e evitar um genocídio cultural. “Como Michelet, acredito que uma nação se torne uma alma e que violar essa alma seja um crime”, concluiu, referindo-se ao historiador, apóstolo do nacionalismo francês no século 19.

   Suassuna também citou o sociólogo italiano Domenico De Masi, que critica a obsessão consumista nas sociedades pós-industriais e defende a idéia do ócio criativo, a mesma esboçada pelo escritor paraibano em sua peça Farsa da Boa Preguiça, de 1960. “Esse é o caminho para nossa libertação”, sugeriu. (Antonio Gonçalves Filho)

(© estadao.com.br)


Seminário examina relação da produção cultural com estrangeiro

DA REPORTAGEM LOCAL

   A dita globalização, a entrada de capital estrangeiro, as novas mídias e outras demandas características dos tempos que correm são alvo de reflexão no "Conteúdo Brasil - Seminário de Valorização da Produção Cultural Brasileira", que acontece hoje no Anfiteatro do Tuca, em São Paulo.

   O escritor paraibano Ariano Suassuna ("O Auto da Compadecida") foi escalado para abrir o evento com sua aula-espetáculo peculiar, em que se revela um prosador de mão-cheia na defesa da cultura popular.

   Suassuna falará por cerca de 90 minutos, em palestra aberta ao público. Na seqüência, o seminário ganha divisão em grupos com representantes das áreas de cinema, teatro, televisão, livros, internet, arquitetura, música, educação e tecnologia.

   São cinco grupos de trabalho, com os seguintes temas: "O Impacto da Produção Estrangeira no Mercado Cultural e na Cultura Brasileira"; "As Diversas Formas de Expressão Cultural e sua Interdependência"; "Papel e Limites do Capital Estrangeiro na Produção Cultural Brasileira"; "O Impacto das Novas Tecnologias e a Regulação da Comunicação Social e da Cultura" e "A Questão da Qualidade na Mídia e na Cultura".

   "A idéia do seminário é, basicamente, estimular o país a repensar a sua produção cultural e fazer escolhas relativas à forma, conteúdo e maneiras de transmitir suas mensagens", afirma o coordenador-geral, Gabriel Priolli, 50.

   "No Brasil, o mundo da cultura e da comunicação são afetados por esse processo de globalização. O produto estrangeiro entra cada vez mais e ainda há a possibilidade de ingresso do capital estrangeiro no setor de comunicação." Em contrapartida, diz Priolli, há o caminho da internacionalização da produção brasileira.

   É esse impacto efetivo sobre o que se deve regular ou valorizar que estimulou a parceria da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) com a Rede Globo de Televisão.

   Entre as personalidades confirmadas para os grupos de discussão, estão os diretores Guel Arraes, Luis Carlos Barreto e Hector Babenco (cinema); Antônio Fagundes, Regina Duarte, Maria Adelaide Amaral e Jorge Cunha Lima (TV e teatro); Hermano Vianna (educação), Carlos Fayet (arquitetura); e Roberto Duailibi, Washington Olivetto e Nizan Guanaes (publicidade).

CONTEÚDO BRASIL - SEMINÁRIO DE VALORIZAÇÃO DA PRODUÇÃO CULTURAL BRASILEIRA. Quando: hoje, a partir das 9h. Onde: Anfiteatro do Tuca (r. Monte Alegre, 1.024, Perdizes, tel. 0/ xx/ 11/3670-8458). A palestra com Ariano Suassuna é aberta ao público (reservas pelo e-mail seminario@tvpuc.com.br).

(© Folha de S. Paulo)

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