Daniela Name
Caetano Veloso, elegante e
encasacado, parecia Gene Kelly em “Cantando na chuva”. Mas não cantou. Ficou
quietinho, com o guarda-chuva xadrez protegendo-o do temporal e permitindo
que ele estivesse ali, na rabeira do toldo em frente à Livraria Dantes,
olhando Adriana Calcanhotto fazer o trabalho de voz-e-violão na homenagem ao
poeta Waly Salomão. O relançamento do livro “Me segura qu’eu vou dar um
troço” (Aeroplano/Biblioteca Nacional) parou a Rua Dias Ferreira e fez muita
gente se lembrar do tempo em que o Baixo Leblon não era só cenário da novela
das oito, mas uma espécie de Triângulo das Bermudas de todos os boêmios e
artistas do Rio.
O poeta Antonio Cicero, o compositor
Jards Macalé, os artistas Luciano Figueiredo, Antonio Dias e Luiz Zerbini e
os cineastas Cacá Diegues, Ivan Cardoso, Julio Bressane e Suzana de Moraes
foram alguns dos que lembraram o tempo em que aquele pedaço da cidade fazia
muita gente se perder e se achar ao lado dos amigos. Waly viveu com
intensidade esta e outras épocas. Morto no ano passado, o poeta foi figura
fundamental da contracultura.
Parceiro de Caetano em letras como
“Mel”; produtor de shows históricos como “Fa-tal”, de Gal Costa; amigo
unha-e-carne do artista Hélio Oiticica e do poeta Torquato Neto, ele
participou de boa parte das transformações que sacudiram o Rio entre o fim
dos anos 60 e a metade da década seguinte. Publicado em 1972, “Me segura
qu’eu vou dar um troço” é o testemunho de um período em que a arte tentava
mudar a vida e a forma de ver a vida, apesar da dureza do regime militar. O
livro é assinado por Waly “Sailormoon” e desenhos do poeta recuperados na
nova edição mostram auto-retratos em que ele aparece em barquinhos de papel,
como o “marujeiro da lua”.
— Estou emocionado, porque, ao
folhear estas páginas, vi como este livro é atual — disse Cacá Diegues,
totalmente afinado com o clima nada nostálgico da noite.
Apesar da saudade dos amigos, não
houve pranto para o poeta. Grande estusiasta do AfroReggae, Waly foi
lembrado pela batida do grupo. O batuque em latões de lixo e galões de
gasolina foi a chamada para a dança da chuva. A multidão que se apertava
embaixo da marquise arriscou passinhos e foi compartilhando guarda-chuvas
até ganhar o asfalto, aproveitando o trânsito interrompido naquele trecho da
rua.
Convidados de outro lançamento aderiram à festa
A empolgação era tanta que os
convidados para o lançamento do livro da advogada Marisa Gandelman, na
Letras & Expressões, acabaram enfrentando o toró e entrando no barco de
“Sailormoon”.
— Comecei a declamar tremendo. Achei
que, se pudesse, Waly estaria presente — lembrou o irmão do homenageado, o
poeta Jorge Salomão, que declamou junto com Antonio Cicero e Michel Melamed.
As sessões de poesia se alternavam
com as de cantoria. Macalé, Otto e o artista Cabelo deram pocket shows
depois de Calcanhotto, que sintetizou a sensação geral:
— Tem muita gente reunida aqui, mas
nem com todo mundo junto conseguimos fazer o barulho que Waly sempre fazia
sozinho.
(©
O Globo)