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 Uma festa na chuva para Waly ‘Sailormoon’a

12/02/2004

 

 

 

Daniela Name

   Caetano Veloso, elegante e encasacado, parecia Gene Kelly em “Cantando na chuva”. Mas não cantou. Ficou quietinho, com o guarda-chuva xadrez protegendo-o do temporal e permitindo que ele estivesse ali, na rabeira do toldo em frente à Livraria Dantes, olhando Adriana Calcanhotto fazer o trabalho de voz-e-violão na homenagem ao poeta Waly Salomão. O relançamento do livro “Me segura qu’eu vou dar um troço” (Aeroplano/Biblioteca Nacional) parou a Rua Dias Ferreira e fez muita gente se lembrar do tempo em que o Baixo Leblon não era só cenário da novela das oito, mas uma espécie de Triângulo das Bermudas de todos os boêmios e artistas do Rio.

   O poeta Antonio Cicero, o compositor Jards Macalé, os artistas Luciano Figueiredo, Antonio Dias e Luiz Zerbini e os cineastas Cacá Diegues, Ivan Cardoso, Julio Bressane e Suzana de Moraes foram alguns dos que lembraram o tempo em que aquele pedaço da cidade fazia muita gente se perder e se achar ao lado dos amigos. Waly viveu com intensidade esta e outras épocas. Morto no ano passado, o poeta foi figura fundamental da contracultura.

   Parceiro de Caetano em letras como “Mel”; produtor de shows históricos como “Fa-tal”, de Gal Costa; amigo unha-e-carne do artista Hélio Oiticica e do poeta Torquato Neto, ele participou de boa parte das transformações que sacudiram o Rio entre o fim dos anos 60 e a metade da década seguinte. Publicado em 1972, “Me segura qu’eu vou dar um troço” é o testemunho de um período em que a arte tentava mudar a vida e a forma de ver a vida, apesar da dureza do regime militar. O livro é assinado por Waly “Sailormoon” e desenhos do poeta recuperados na nova edição mostram auto-retratos em que ele aparece em barquinhos de papel, como o “marujeiro da lua”.

   — Estou emocionado, porque, ao folhear estas páginas, vi como este livro é atual — disse Cacá Diegues, totalmente afinado com o clima nada nostálgico da noite.

   Apesar da saudade dos amigos, não houve pranto para o poeta. Grande estusiasta do AfroReggae, Waly foi lembrado pela batida do grupo. O batuque em latões de lixo e galões de gasolina foi a chamada para a dança da chuva. A multidão que se apertava embaixo da marquise arriscou passinhos e foi compartilhando guarda-chuvas até ganhar o asfalto, aproveitando o trânsito interrompido naquele trecho da rua.

Convidados de outro lançamento aderiram à festa

   A empolgação era tanta que os convidados para o lançamento do livro da advogada Marisa Gandelman, na Letras & Expressões, acabaram enfrentando o toró e entrando no barco de “Sailormoon”.

   — Comecei a declamar tremendo. Achei que, se pudesse, Waly estaria presente — lembrou o irmão do homenageado, o poeta Jorge Salomão, que declamou junto com Antonio Cicero e Michel Melamed.

   As sessões de poesia se alternavam com as de cantoria. Macalé, Otto e o artista Cabelo deram pocket shows depois de Calcanhotto, que sintetizou a sensação geral:

   — Tem muita gente reunida aqui, mas nem com todo mundo junto conseguimos fazer o barulho que Waly sempre fazia sozinho.

(© O Globo)  

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