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15/02/2004
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Capiba |
JOSÉ TELES
Por coincidência, em 2004, dois
ícones do Carnaval pernambucano completariam cem anos: Edgard Ramos de
Moraes e Lourenço da Fonseca Barbosa. Edgard Moraes e Capiba não fizeram
apenas músicas carnavalescas, mas ficaram conhecidos pelos frevos que
compuseram.
O primeiro nasceu em 1º de novembro
de 1904 no Recife (na Rua Benfica, na Madalena), o segundo, em 28 de outubro
de 1904, em Surubim, no Agreste. Ambos viveram bastante para deixar uma obra
consistente e volumosa.
Edgard Moraes faleceu em 31 de março
de 1974 e Capiba em 31 de dezembro de 1977. Aos dois é dedicado o Carnaval
do Recife deste ano.
(©
Jornal do Commercio-PE)
Lirismo é a tônica de Edgard Moraes
Edgard Moraes foi
mais atuante nos velhos carnavais do Recife. Assim como o irmão mais velho,
Raul Moraes, (nascido em 1891 e falecido em 1937), ele fez música para
vários blocos, conta-se que em um único ano, nada menos que 12 agremiações
desfilaram com marchas assinadas por Edgard Moraes.
O compositor, no entanto, foi mais
prolífico entre as décadas de 20 e 40, embora tenha composto até os anos 70.
Suas primeiras músicas foram feitas em 1923. Nos anos 30 firmou-se como um
dos mais importantes autores de músicas para o Carnaval. Não apenas autor
como também um dos mais conhecidos foliões, Edgard Moraes ajudou a fundar,
entre outros, os blocos Pirilampos, Turunas de São José, Jacarandá e
Corações Futuristas.
Ele iniciou o aprendizado musical
com o irmão, ao qual prestou homenagem nos frevos-de-bloco Saudade de
Raul Moraes (1951) e A dor de uma saudade, uma das mais belas
músicas do Carnaval pernambucano, gravada em 1961 pelo coral Mocambinho na
Folia. Mais conhecido pelos melancólicos frevos-de-bloco, que formam a
maioria de sua obra gravada, no entanto Edgard Moraes incursionou por outros
gêneros. Entre suas composições há valsa (Maria Neuza), maracatu (Cambinda
de ouro), choro (Sustenta o baixo violão), vários frevos-canção e
de rua, e até jingle (Land Rover é o maior).
Sua composição mais cantada nos
carnavais, e também a mais gravada, foi composta em 1962, é o frevo-de-bloco
Valores do passado, em que relembra os principais blocos dos velhos
carnavais (“Bloco das flores/Andaluza/ Pirilampos...”).
Curiosamente, este frevo, dono de
uma das mais belas melodias do gênero, tirou em segundo lugar num concurso,
perdendo para a pouco conhecida Panorama de folião, de Luís de França
(o Luís Boquinha), e somente passaria a ser conhecida, e aclamada, uma
década mais tarde, com a gravação feita pelo Quinteto Violado e Zélia
Barbosa, no álbum Música Popular do Nordeste (Marcus Pereira).
Hoje, Valores do passado
foi incorporado ao repertório do Bloco da Saudade e, recentemente, foi
gravada pelo Coral Edgard Moraes (formado por parentes do compositor) e por
Alceu Valença.
(©
Jornal do Commercio-PE)
Capiba, santo de casa faz milagre
Lourenço da Fonseca
Barbosa é nome pouco familiar aos pernambucanos. Já o apelido pelo qual foi
chamado toda a vida, Capiba, para os conterrâneos é sinônimo de Carnaval. A
grande maioria de sua canções, muitas das quais dos anos 30, são
reconhecidas aos primeiros compassos: Oh Bela, Frevo e ciranda,
É de amargar, Vamos pra casa de Noca, Madeira que cupim não
rói, a lista é imensa. Capiba tinha a receita certa para compor canções
que caíam rapidamente no gosto do folião. Não apenas isto, compunha nos mais
diversos estilos, do popular ao erudito. Para o maestro Guerra Peixe o mais
completo compositor brasileiro, tal a abrangência de sua obra.
Filho de maestro de banda
(Severino Atanásio), aprendeu as primeiras notas junto com as primeiras
letras. Aos sete anos já lia música, aos dez, fazia parte da banda Lira da
Borborema, em Taperoá (PB), uma das várias cidades pelas quais a família de
Capiba morou, até se fixar, em 1915, em Campina Grande (PB). Nessa cidade
que Capiba definiu-se como músico. Embora todos seus irmãos tocassem algum
instrumento, e durante algum tempo ganhassem a vida com eles, Capiba foi o
único que levou a música a sério durante toda a vida (seu irmão Marambá
também teve algum sucesso).
O piano que aprendeu, em tempo
recorde, aos 12 anos, o acompanharia por toda carreira. Com o instrumento,
fez as suas 215 composições gravadas, e mais 513 que continuam inéditas,
segundo o levantamento do pesquisador José Batista Alves (leia matéria na
página 8). Em 1924, Capiba foi estudar em João Pessoa (então chamada de
Paraíba). Lá imergiu de uma vez por todas na música. Tocou na noite, numa
jazz band, ganhou seu primeiro concurso, com Flor das Ingratas.
Em 1930, Capiba veio para o
Recife, como concursado do Banco do Brasil. Desprezou todas as oportunidades
de mudar para o Rio de Janeiro. Viajava com freqüência ao Sudeste, para
apresentações em rádio, TV, ou simplesmente para cair na boemia, como
aconteceu em 1937, com o colega de pensão Fernando Lobo. Ele foi dos poucos
compositores de província a conseguir ser gravado pelos maiores nomes do
rádio sem precisar deixar sua terra. E apesar de ser admirado pelos
pernambucanos como compositor carnavalesco, os sucessos nacionais de Capiba
foram todos com música de meio-de-ano. O primeiro deles foi Maria Betânia,
com Nelson Gonçalves, em 1944, depois vieram Serenata suburbana, e
A mesma rosa amarela (parceria com Carlos Penna Filho).
Capiba tomaria novo impulso a
partir de 1960, com os LPs de frevo lançados pela Rozenblit, interpretados
por Claudionor Germano. Velho, para os padrões da época, aos 56 anos Capiba
casaria com Maria José da Silva, Zezita, e passaria a compor prolificamente.
Nos badalados festivais dos anos 60, entrou na disputa (tendo Ariano
Suassuna como parceiro) com filhos de colegas de juventude (Edu Lobo, filho
de Fernando Lobo e Théo de Barros, autor de Disparada, filho de
Téofilo de Barros Fº).
Folião inveterado até os últimos
anos, Capiba nunca deixou de emplacar ao menos uma música nos carnavais
pernambucanos. Embora seus discos gravados na Rozenblit continuem em
catálogo (e vendendo bem), no entanto, comete-se uma injustiça com sua vasta
obra inédita, que merece e deve ser gravada.
(©
Jornal do Commercio-PE)
Memória é salva com muita dedicação
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Capiba
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Coral Edgard Moraes
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O funcionário público José Batista Alves dedica-se a
recuperar a obra de grandes compositores
O funcionário
público José Batista Alves, cumpre religiosamente, seu horário na repartição
e, em seguida, começa a trabalhar no que realmente gosta: a pesquisa
musical. Há duas décadas, realiza o que se pode chamar de investigação
cultural: “Não acredito em pesquisador só de jornal ou revista. É preciso
que vá até à fonte. É o que sempre faço”, jacta-se. Com seus próprios
recursos, viajou a vários estados do País para consultar coleções, comprar
discos ou entrevistar cantores e compositores. Com isto tem preciosas
entrevistas inéditas.
Em seu escritório improvisado, na
casa em que mora, na Várzea, Batista mantém uma selecionada coleção de
discos (muitos raros 78rpm, a exemplo de Não quero mais, a primeira
música gravada de Capiba, presenteada pelo próprio compositor), e um
organizadíssimo arquivo, com fichas escritas à mão, Ele não aderiu ainda ao
computador. Até as capas dos 78rpm que improvisa são artesanais. Nestes
implacáveis arquivos estão catalogadas as obras completas de Jackson do
Pandeiro, Luiz Gonzaga e de Rosil Cavalcanti,pernambucano autor de entre
outros sucessos, Sebastiana e Na base da chinela (gravados
originalmente por Jackson do Pandeiro).
Uma de suas tarefas mais elogiosas
foi a catalogação da obra completa de Capiba, inclusive das músicas
inéditas, a qual dedicou um dia na semana, durante oito anos: “Soube pelo
radialista Hugo Martins que ele precisava de uma pessoa para este trabalho,
e me ofereci. Capiba ajudava muito, porque guardava quase tudo sobre sua
carreira. Tinha a maioria dos discos, um grande arquivo fotográfico, e muito
recorte de jornais e revistas”.
(©
Jornal do Commercio-PE)
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Recife recorda Edgard Moraes |
Homenageado do Carnaval 2004, ano do
seu centenário, compositor fez história no frevo
Michelle de Assumpção
Da equipe do DIARIO
Em 1962 - quase trinta anos após ter começado na vida
artística, primeiro como boêmio, depois profissionalmente - o
pernambucano Edgard Moraes compôs a canção que imortalizaria seu nome
e sua obra. Composições feitas antes também tinham muito valor, mas
como "compositor pobre não tinha vez, tinha que ser apadrinhado por
algum dono de clube noturno", ele seguiu conhecido apenas pela
família, os amigos e alguns artistas que circulavam na cena de então.
A exemplo de Capiba e Nelson Ferreira, esses sim, gozando de um status
mais elevado. Capiba, como alto funcionário do Banco do Brasil;
Ferreira, diretor artístico da gravadora Rozemblit. Edgard vivia ali,
compondo humildemente frevos de bloco, perguntando aos filhos se
gostavam das letras e eventualmente participando dos festivais de
música. E, claro, cumprindo sua jornada diária como balconista de uma
loja de peças de automóvel.
Depois de canções de todos os gêneros,
valsas, choros, maxixes, baiões, canções sertanejas, maracatus, sambas
etc, compôs a clássicaValores do Passado, que o consagrou
definitivamente. Não logo quando foi composta, em 1962, mas anos
depois, quando alguns amigos recifenses levaram sua partitura ao
carioca Jacob do Bandolim, músico afamado e respeitado no Rio de
Janeiro. "Valores do Passado fez-me chorar...é simplesmente
empolgante", teria dito em depoimento a uma rádio, o que espalhou o
nome de Edgard e engrandeceu sua composição, posteriormente gravada
por Elba Ramalho, Teca Calazans, Amelinha e, finalmente, pelo Bloco da
Saudade, que fez de Valores seu hino.
O bloco era um sonho de Edgard, que desde
1923 já havia fundado diversos blocos locais, tais como Pirilampos,
Jacarandá, Turunas de São José, Corações Futuristas, Rebelde Imperial,
entre outros. O bloco com o nome Saudade tinha exatamente a função de
resgatar esses valores do passado. Idealizado em 1973, um ano antes de
sua morte, numa conversa com os amigos Marcelo Varella e Antônio José
Madureira (Zoca), o Bloco da Saudade desfilou pela primeira vez um ano
depois. Edgard aindapresenciou a estréia, morreria dias depois, num
fim de tarde do dia 31 de março de 1974, aos 70 anos, em sua casa, no
bairro de Campo Grande. Hoje, no mesmo endereço, suas filhas e netas
realizam semanalmente o ensaio do bloco Edgard Moraes. Há 16
carnavais, relembram o passado através das canções de Edgard e seus
contemporâneos.
HOMENAGEM - O Carnaval do
Recife, como é praxe, elege anualmente uma personalidade de relevância
para a cultura da cidade. Maurício de Nassau seria o nome da vez, até
as filhas e netas de Edgard tomarem conhecimento da escolha. Através
de uma carta enviada à Secretaria de Cultura da Cidade, reivindicaram
a homenagem para o pai e avô, neste ano em que se comemora o
centenário de nascimento do compositor. Justiça foi feita e Edgard
será o nome a ser lembrado neste Carnaval. Uma homenagem simbólica,
mas com fortes significados, sobretudo para a família do músico.
"Ele tinha ressentimento até demais, ele
falou do esquecimento numa música que agora não lembro, dizia que
tinha panela nesses festivais, não conseguia o espaço que achava que
merecia", conta Yara Moraes, uma das filhas do compositor, que hoje
guarda parte de sua memória: fotos, recortes de jornais e revistas,
onde eventualmente suas partituras eram publicadas, para que se
fizessem reconhecer pelas orquestras que a executariam nos dias de
Momo.
"Eu vivo sempre a cantar/ para
esquecer a dor/ procuro num sorriso ocultar/ da vida todo o amargor",
escreveu melancólico e ressentido na letra da canção Recordando a
Mocidade, que dona Yara não conseguiu lembrar, e que foi gravada no
disco Carnaval Divinal, do Bloco da Saudade.
Recordar Edgard Moraes é também
recordar Raul Moraes, o irmão sem o qual o compositor não teria sido
quem foi. Raul, treze anos mais velho que Edgard, era pianista, um
erudito, havia estudado em Porto Alegre, onde morou por 12 anos. Ele
fez Edgard prometer, em seu leito de morte, que também aprenderia
música. Até então, tocava violão, compunha e cantava, "muito mal",
segundo Yara, mas era o suficiente paraas reuniões com os amigos.
(©
Pernambuco.com)
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Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)
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