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 Estrelas anônimas do Carnaval

15/02/2004

 

 

Naná Vasconcelos
 

Mestres populares aceitam de bom grado parceria com músicos famosos, mas reclamam mais espaço na mídia

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   Afinal, quem faz a festa? Naná Vasconcelos ou o Maracatu Porto Rico que está tocando ao seu lado? Antônio Nóbrega ou o Caboclinho Sete Flechas que ele recebe no palco? Siba ou Roque, integrante da Fuloresta do Samba? Será que as atenções estão mais voltadas para os mestres de cerimônia do que para as verdadeiras atrações? O encontro entre artistas famosos e grupos populares tem o objetivo de valorizar os mestres da cultura do povo, mas a mídia e o público acabam confundindo as verdadeiras e autênticas estrelas do Carnaval.

   Naná Vasconcelos não quer aparecer mais do que os mestres de maracatu que vão se reunir ao seu lado na abertura do Carnaval do Recife. Apesar de sua foto e seu nome estarem sendo mais divulgados do que o dos batuqueiros (vistos como uma massa anônima uniforme e sem individualidade), o percussionista se considera apenas um pequeno detalhe em uma festa, muito menos importante por sua presença do que pela reunião das nações afro-pernambucanas. "A divulgação é muito generalizante. São nações,cada uma com suas características.

  Segundo o músico, a reunião dessas nações de maracatu é algo raro e a disposição d os mestres em aceitar participar da festa é algo muito mais relevante que sua presença entre eles. Ele elogia a Prefeitura por ceder este valioso espaço, mas questiona a ausência de detalhamento sobre os grupos nos panfletos com a programação. "Meu nome está sempre presente, mas eles não mostram os nomes do mestres e nem das nações. Mas não sou eu, são eles que vão tocar."

   VISIBILIDADE - Siba pondera sobre a questão, lembrando que ela envolve dois problemas diferentes. Para ele, uma coisa é a incoerência e a generalização na divulgação dos artistas populares. Outra coisa é a maior exposição do nome de um artista específico mais famoso em detrimento dos músicos que o acompanham, o que não seria necessariamente um problema. "É natural que meu nome apareça no caso da Fuloresta, pois trata-se de um projeto concebido por mim, com minha direção e cujas canções são de minha autoria. É normal queuma banda tenha uma figura principal", começa esclarecendo, lembrando que no disco de ciranda colocou o nome de Barachinha ao lado do seu porque ali realmente existia uma co-autoria. "Se os músicos que me acompanham não são reconhecidos como deveriam, isso já é outro problema, que envolve inclusive a formação dos que fazem a mídia".

   O papel de Siba em relação aos músicos de Nazaré da Mata deve ser incluído com cuidado nessa discussão, pois ele não é uma pessoa de fora que está ali para divulgar, ensinar, registrar ou preservar a cultura popular. "Eu sou da tradição, moro em Nazaré da Mata, sou mestre de maracatu e vivo com eles de igual para igual. É mais fácil dizerem por aí que eu estou vindo do Mestre Ambrósio para me dedicar a este trabalho, mas a verdade é que eu já fazia parte disso e mesmo quando morava em São Paulo não me distanciei".

   CUMPLICIDADE - Se na abertura do Carnaval do Recife os Maracatus vão estar com Naná Vasconcelos, no encerramento Antônio Carlos Nóbrega também não quer ser o centrodas atenções ao dividir o palco com as agremiações Caboclinho Sete Flechas, Boi Faceiro, Urso mimoso, Afoxé Alafin Oyó, Maracatu Piaba de Ouro, Escola de Samba Galeria do ritmo, Bloco Madeira do Rosarinho, Maracatu Estrela Brilhante, Clube Reisado Imperial e Troça Batutas de Água Fria.

   "O nome da agremiação deveria aparecer maior do que o dele", opina Valmir Carneiro Gondim, presidente do Batutas, que só tem elogios a fazer ao trabalho e a postura de Nóbrega. "Muita gente vai pra ver ele e acaba conhecendo nossa troça, mas nosso nome é mais importante", pondera. Paulo Sérgio, artista do Caboclinho Sete Flechas, onde dança, toca e exerce o papel de secretário, também é um grande admirador de Nóbrega, a quem já ensinou muitos passos, e valoriza o espaço que ganha com a ajuda do músico. Ele confirma, entretanto, que sente falta de uma maior atenção para seu grupo em projetos como esse do Carnaval.

   "Pro nosso Boi, é importantíssimo aparecer, de qualquer forma, e nada como ter Nóbrega nos ajudando para isso",observa Aelson da Hora, organizador do Boi Faceiro, que, por outro lado, critica a diferença de cachê que seu grupo recebe em relação ao pago aos músicos do cantor. Ele reconhece o valor do evento, mas se impressiona com certos tratamentos: "É sempre Nóbrega que está com a gente e nunca a gente que está com ele. Chegaram a me pedir pra trazer um boi menor, porque o nosso atrapalharia o espaço no palco. Ora, como eles podem convidar um boi e pedir outro? Que tirem o material do palco, mas não o nosso boi!".

(© Pernambuco.com)


Apresentações no Recife

* Encerramento do Carnaval Multicultural do Recife - Com Caboclinho Sete Flechas, Boi Faceiro, Urso mimoso, Afoxé Alafin Oyó, Maracatu Piaba de Ouro, Escola de Samba Galeria do ritmo, Bloco Madeira do Rosarinho, Maracatu Estrela Brilhante, Clube Reisado Imperial e Troça Batutas de Água Fria. Condução: Antônio Carlos Nóbrega e banda. Terça, dia 24, 22h30, no Marco Zero

* Encontro de Maracatus - Com os maracatus nação Estrela Brilhante, Luanda, Axé da Lua, Leão Coroado, Encanto da Alegria, Elefante, Sol Nascente, Porto Rico, Gato Preto, Encanto do Dendê e Cambinda Estrela. Condução: Naná Vasconcelos. Ensaio: Segunda, dia 17, às 19h, no Marco Zero. Cortejo e Encontro: Sexta, dia 20, às 18h, saindo da Rua da Moeda em direção ao Marco Zero.

* Siba e a Fuloresta do Samba - Semana Pré: Amanhã, às 22h, na Rua da Moeda; Carnaval: Sábado, dia 21, às 22h, no Pólo Chão de Estrelas.

n Show de Naná Vasconcelos - Sábado, dia 21, às 23h30, no Pólo Várzea; Domingo, dia 22, no Pólo Nova Descoberta.

* Show de Antônio Carlos Nóbrega - Sábado, dia 21, no Pólo Casa Amarela.

(© Pernambuco.com)

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