Mestres populares
aceitam de bom grado parceria com músicos famosos, mas reclamam mais espaço
na mídia
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Afinal, quem faz a festa? Naná Vasconcelos ou o Maracatu Porto Rico que está
tocando ao seu lado? Antônio Nóbrega ou o Caboclinho Sete Flechas que ele
recebe no palco? Siba ou Roque, integrante da Fuloresta do Samba? Será que
as atenções estão mais voltadas para os mestres de cerimônia do que para as
verdadeiras atrações? O encontro entre artistas famosos e grupos populares
tem o objetivo de valorizar os mestres da cultura do povo, mas a mídia e o
público acabam confundindo as verdadeiras e autênticas estrelas do Carnaval.
Naná Vasconcelos não quer aparecer mais do que
os mestres de maracatu que vão se reunir ao seu lado na abertura do Carnaval
do Recife. Apesar de sua foto e seu nome estarem sendo mais divulgados do
que o dos batuqueiros (vistos como uma massa anônima uniforme e sem
individualidade), o percussionista se considera apenas um pequeno detalhe em
uma festa, muito menos importante por sua presença do que pela reunião das
nações afro-pernambucanas. "A divulgação é muito generalizante. São
nações,cada uma com suas características.
Segundo o músico, a reunião dessas nações de maracatu é algo raro e a
disposição d os mestres em aceitar participar da
festa é algo muito mais relevante que sua presença entre eles. Ele elogia a
Prefeitura por ceder este valioso espaço, mas questiona a ausência de
detalhamento sobre os grupos nos panfletos com a programação. "Meu nome está
sempre presente, mas eles não mostram os nomes do mestres e nem das nações.
Mas não sou eu, são eles que vão tocar."
VISIBILIDADE - Siba pondera sobre a
questão, lembrando que ela envolve dois problemas diferentes. Para ele, uma
coisa é a incoerência e a generalização na divulgação dos artistas
populares. Outra coisa é a maior exposição do nome de um artista específico
mais famoso em detrimento dos músicos que o acompanham, o que não seria
necessariamente um problema. "É natural que meu nome apareça no caso da
Fuloresta, pois trata-se de um projeto concebido por mim, com minha direção
e cujas canções são de minha autoria. É normal queuma banda tenha uma figura
principal", começa esclarecendo, lembrando que no disco de ciranda colocou o
nome de Barachinha ao lado do seu porque ali realmente existia uma
co-autoria. "Se os músicos que me acompanham não são reconhecidos como
deveriam, isso já é outro problema, que envolve inclusive a formação dos que
fazem a mídia".
O papel de Siba em relação aos músicos de
Nazaré da Mata deve ser incluído com cuidado nessa discussão, pois ele não é
uma pessoa de fora que está ali para divulgar, ensinar, registrar ou
preservar a cultura popular. "Eu sou da tradição, moro em Nazaré da Mata,
sou mestre de maracatu e vivo com eles de igual para igual. É mais fácil
dizerem por aí que eu estou vindo do Mestre Ambrósio para me dedicar a este
trabalho, mas a verdade é que eu já fazia parte disso e mesmo quando morava
em São Paulo não me distanciei".
CUMPLICIDADE - Se na abertura do
Carnaval do Recife os Maracatus vão estar com Naná Vasconcelos, no
encerramento Antônio Carlos Nóbrega também não quer ser o centrodas atenções
ao dividir o palco com as agremiações Caboclinho Sete Flechas, Boi Faceiro,
Urso mimoso, Afoxé Alafin Oyó, Maracatu Piaba de Ouro, Escola de Samba
Galeria do ritmo, Bloco Madeira do Rosarinho, Maracatu Estrela Brilhante,
Clube Reisado Imperial e Troça Batutas de Água Fria.
"O nome da agremiação deveria aparecer maior do
que o dele", opina Valmir Carneiro Gondim, presidente do Batutas, que só tem
elogios a fazer ao trabalho e a postura de Nóbrega. "Muita gente vai pra ver
ele e acaba conhecendo nossa troça, mas nosso nome é mais importante",
pondera. Paulo Sérgio, artista do Caboclinho Sete Flechas, onde dança, toca
e exerce o papel de secretário, também é um grande admirador de Nóbrega, a
quem já ensinou muitos passos, e valoriza o espaço que ganha com a ajuda do
músico. Ele confirma, entretanto, que sente falta de uma maior atenção para
seu grupo em projetos como esse do Carnaval.
"Pro nosso Boi, é importantíssimo aparecer, de
qualquer forma, e nada como ter Nóbrega nos ajudando para isso",observa
Aelson da Hora, organizador do Boi Faceiro, que, por outro lado, critica a
diferença de cachê que seu grupo recebe em relação ao pago aos músicos do
cantor. Ele reconhece o valor do evento, mas se impressiona com certos
tratamentos: "É sempre Nóbrega que está com a gente e nunca a gente que está
com ele. Chegaram a me pedir pra trazer um boi menor, porque o nosso
atrapalharia o espaço no palco. Ora, como eles podem convidar um boi e pedir
outro? Que tirem o material do palco, mas não o nosso boi!".
(©
Pernambuco.com)
Apresentações no Recife
*
Encerramento do Carnaval Multicultural do Recife - Com Caboclinho Sete
Flechas, Boi Faceiro, Urso mimoso, Afoxé Alafin Oyó, Maracatu Piaba de Ouro,
Escola de Samba Galeria do ritmo, Bloco Madeira do Rosarinho, Maracatu
Estrela Brilhante, Clube Reisado Imperial e Troça Batutas de Água Fria.
Condução: Antônio Carlos Nóbrega e banda. Terça, dia 24, 22h30, no Marco
Zero
* Encontro de Maracatus - Com os maracatus nação
Estrela Brilhante, Luanda, Axé da Lua, Leão Coroado, Encanto da Alegria,
Elefante, Sol Nascente, Porto Rico, Gato Preto, Encanto do Dendê e Cambinda
Estrela. Condução: Naná Vasconcelos. Ensaio: Segunda, dia 17, às 19h, no
Marco Zero. Cortejo e Encontro: Sexta, dia 20, às 18h, saindo da Rua da
Moeda em direção ao Marco Zero.
* Siba e a Fuloresta do Samba - Semana Pré:
Amanhã, às 22h, na Rua da Moeda; Carnaval: Sábado, dia 21, às 22h, no Pólo
Chão de Estrelas.
n Show de Naná Vasconcelos - Sábado, dia 21, às 23h30, no Pólo Várzea;
Domingo, dia 22, no Pólo Nova Descoberta.
* Show de
Antônio Carlos Nóbrega - Sábado, dia 21, no Pólo Casa Amarela.
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