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 Uma lição para o Mundo aprender

15/02/2004

 

 

Cena da peça Vau da Sarapalha, sucesso do
Teatro-Escola Piolim, que será tema de documentário do paraibano Bertrand Lira
 

JVC Festival de Vídeo de Tóquio premia produção paraibana Bom Dia, Maria de Nazaré!, de temática social

Augusto Pinheiro
Da equipe do DIARIO

   O diretor paraibano Bertrand Lira levou o JVC Grand Prize, um dos dois prêmios mais importantes do 26º JVC Festival de Vídeo de Tóquio. Ele concorreu com o vídeo Bom Dia, Maria de Nazaré!, sobre a instalação de uma rádio comunitária na favela homônima de João Pessoa (PB). Foi o único brasileiro entre os 30 finalistas.

   Bertrand, que é professor do curso de rádio e TV na UFPB (Universidade Federal da Paraíba), ganhou 400 mil ienes (cerca de R$ 10 mil) e uma câmera mini-DV de alta resolução da JVC, patrocinadora do evento, além de um troféu. Ele foi ao Japão, com tudo pago, para receber o prêmio. Além da participação na premiação, seu roteiro incluía uma visita à JVC, city tour por Tóquio e um coquetel para a imprensa. O outro grande prêmio do festival é o Video Grand Prize, que paga 500 mil ienes.

   "Foi totalmente inesperado. Quando me ligaram, para dizer que eu havia ganho, fiquei atônito, nem fiz festa", conta o videasta. Foram 2.881 vídeos inscritos de 36países (938 só do Japão). Ele recebeu a notícia às vésperas da virada do ano passado, mas, a pedido da JVC, que só queria que o resultado fosse divulgado após a premiação, manteve a informação em segredo.

   O diretor embarcou na última terça-feira para Tóquio, onde fica até o dia 17. O vídeo premiado foi um projeto de extensão da UFPB. Bertrand orientou alunos do curso de rádio e TV para registrar o envolvimento da comunidade com a rádio comunitária. O projeto venceu o edital do Laboratório de Desenvolvimento de Materiais Instrucionais (LDMI), da própria universidade, que forneceu equipamentos, ilha de edição e bolsa para os alunos. A câmera utilizada foi uma mini-DV com três CCD. O vídeo também teve o apoio da Liberta (ONG responsável pela implantação da rádio) e da Cead (Coordenação Institucional de Educação à Distância).

   Para Bertrand, o que influenciou na vitória foi a temática do vídeo. "Mostra uma comunidade que reage à situação de miséria. A rádio comunitária melhorou a auto-estima dessas pessoas. Acho que isso sensibilizou o júri. O vídeo não fala de violência, de nada negativo", coloca. Ele acrescenta a coincidência de ter utilizado a canção Miséria no Japão, interpretada por Ney Matogrosso e Pedro Luís.

   VIAGEM - Bertrand resolveu inscrever o vídeo no festival de Tóquio em agosto do ano passado, antes de embarcar para o Catarina Festival de Documentário, em Balneário Camboriú (SC), quando viu um cartaz na UFPB. "Fiquei interessado pela possibilidade de viajar para o Japão", conta o videasta. Ele enviou uma fita VHS sem legendas.

   Bom Dia, Maria de Nazaré!, que tem 20 minutos, abre com o depoimento de uma moradora atestando que, após a instalação da rádio, as pessoas passaram a ter orgulho de dizer onde moram. Os depoimentos foram coletados em situações cotidianas -como a mulher que fala enquanto cata o feijão. Faz falta, no entanto, a identificação das pessoas.

   Da rejeição de moradores a um programa de rap -aliás, a trilha do vídeo- ao envolvimento das crianças em programas sobre saúde e higiene,o trabalho mostra como a rádio transformou a vida da comunidade carente. "A gente anuncia tudo na rádio: missa, batizado, casamento", diz outra moradora.

   Os próprios moradores receberam treinamento para operar os equipamentos. A rádio funciona por meio de alto-falantes instalados nos postes da favela. O vídeo utiliza uma linguagem simples, tradicional, sem revoluções de linguagem ou estéticas.

   Entre os novos projetos de Bertrand, que já filmou em super-8 e 16 mm, está um vídeo sobre a Teatro-Escola Piolim, referência das artes cênicas paraibanas, cujo maior sucesso é a peça Vau da Sarapalha.

(© Pernambuco.com)


Pernambuco na retomada do cinema

Mostra vai exibir curtas e longas produzidos nos últimos anos

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   Superando dificuldades e enfrentando preconceitos, o cinema pernambucano conseguiu um inédito ritmo de produção entre 1990 e 2000. Pela primeira vez, essa safra é completamente reunida em uma mostra retrospectiva, que passa a acontecer uma vez por mês a partir desta segunda-feira, no Cine-Teatro Apolo. De That's a Lero Lero a A História da Eternidade e de Baile Perfumado a Amarelo Manga, o festival vai reexibir 36 curtas e três longas-metragens, sempre seguidos de debates com os realizadores. Tudo o que foi lançado em 16 e 35 milímetros deve entrar na programação.

   Dividida em 11 módulos temáticos, a mostra Retomada do Cinema Pernambucano passa a acontecer sempre na última segunda-feira útil do mês. Marcada para as 19h30, a primeira sessão apresenta curtas documentários dirigidos por cineastas que ainda não lançaram um segundo filme no Estado. Integram a programação Tejucupapo, de Marcílio Brandão, Vitrais, de Cecília Araújo, A Composição do Vazio, de Marcos Henrique Lopes, e Brennand Ovo Omnia, de Liz Donovan.

   Os outros módulos seguirão temas ou obras de cineastas. Uma das noites, por exemplo, será dedicada a filmes que abordam assombrações e figuras folclóricas. Em outros, cineastas como Hilton Lacerda (A Visita e Simião Martiniano), Lírio Ferreira (O Crime da Imagem, That's a Lero Lero e Baile Perfumado) e Camilo Cavalcante (A História da Eternidade, Os Dois Velhinhos e O Velho, o Mar e o Lago) ganham espaço.

   Na primeira sessão, a diversidade de linguagens nos limites do documentário é característica marcante. Enquanto A Composição do Vazio é todo construído a partir de depoimentos de pensadores, Vitrais intercala entrevistas, imagens feitas em locações da cidade e cenas de ficção e reconstituição de época. O primeiro discute e revela a obra do filósofo pernambucano Evaldo Coutinho. O segundo percorre as principais obras de arte vitralista do Recife, com linda direção de fotografia de Jane Malaquias, que aproveita bem os efeitos das luzes que atravessam os coloridos painéis de vidro. Os personagens principais do filme são os artistas Heinrich Moser e Mariane Perreti, autora do vitral da Catedral de Brasília, que revela paras as câmeras seu ateliê em Olinda.

   Mais experimental, Brennand - Ovo Omnia é um ensaio visual poético pela obra e pelos pensamentos do artista plástico Francisco Brennand. Enquanto o ceramista expõe seus pensamentos sobre o mundo e a arte, a câmera percorre sua oficina cerâmica, revelando suas criaturas e detalhes de forma alucinante (mais um ótimo trabalho de fotografia de Jacques Cheuiche, que filma as peças com personalidade e movimento). Em Tejucupapo, o tema é a vida das trabalhadoras de um vilarejo rodeado de manguezais localizado no município de Goiana, que todos os anos montam um grande espetáculo teatral ao ar livre.

(© Pernambuco.com)


Novos documentários vêm por aí

Roteiros de vídeo premiados em concurso da Massangana Multimídia começam a sair do papel. Nova edição virá reformulada, para facilitar a produção dos trabalhos

MARCELO PEDROSO
Da Editoria de Brasil/Internacional

   Seis meses depois de ter sido contemplado pelo Concurso Massangana Multimídia de Roteiros para Documentários em Vídeo, da Fundaj, o vídeo Gangarras do Bandeira, de Cátia Oliveira e Lula Clemente, começou a ser gravado no início da semana, em Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste do Estado. O outro projeto vencedor do concurso, o Recife 3x4, de Janaína Cordeiro, tem previsão para iniciar as filmagens em março, ou seja, sete meses depois do prêmio e quatro após o prazo para conclusão da obra, inicialmente estabelecido para dezembro.

   O grande intervalo de tempo entre a divulgação do prêmio e a execução dos projetos serviu para que os organizadores detectassem algumas incongruências no modelo do concurso, então em sua primeira edição. Resultado: este ano, ele volta com mudanças que, além de facilitar a produção dos documentários, visam também a atrair mais pessoas interessadas em participar, inclusive gente de outros Estados do Nordeste.

   Os vencedores do concurso deste ano vão receber, além das cinco diárias de equipamentos e de edição e do apoio técnico de funcionários da Fundaj, uma soma em dinheiro para auxiliar a execução do vídeo. O valor, no entanto, ainda não definido, depende da generosidade dos parceiros que a fundação pretende conquistar. Mas a coordenadora geral da Massangana Multimídia, Adelina Pontual, adianta que espera oferecer pelo menos R$ 10 mil aos vencedores.

   “É o mínimo necessário para a realização de um documentário. O prazo de conclusão dos projetos do ano passado teve que ser prorrogado porque apenas com as diárias não era possível rodar os vídeos. Por isso, esses projetos tiveram que correr atrás de patrocínio para viabilizar as filmagens. Foi a partir desta situação que nós reformulamos o concurso”, esclarece.

   Este ano, os organizadores pretendem também estabelecer o tema livre para os projetos. Na edição anterior, os projetos tinham que se pautar pelo assunto “Apartheid social: em busca de uma nova abolição”. As inscrições devem ser abertas entre os meses de abril e maio. Quinze projetos participaram da seleção no ano passado, mas as expectativa é que o número aumente este ano.

   DIFICULDADES – Quando viram seu projeto aprovado pelo concurso, em setembro, os diretores Cátia Oliveira e Lula Clemente não imaginavam que enfrentariam tantas dificuldades para executá-lo. “Quando fomos para o papel, o orçamento chegava a R$ 12 mil, porque incluía despesas com alimentação, transporte, hospedagem da equipe, compra de fitas e várias outras coisas”, conta Cátia.

   Durante os últimos seis meses, a vida dos dois se converteu na luta por patrocínios e apoios. A salvação foi a entrada da Chesf no projeto, que arcou com todos os custos da produção, tanto de Gangarras do Bandeira, quanto de Recife 3x4.

   Gangarras... trata de uma comunidade próxima a Santa Cruz do Capibaribe, cuja população tem traços europeus como pele, olhos e cabelos claros. Já Recife 3x4 se propõe a abordar a relação que os moradores da periferia têm com a metrópole. Os dois documentários devem ser finalizados no segundo semestre.

(© Jornal do Commercio-PE)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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