JVC Festival de Vídeo de Tóquio premia
produção paraibana Bom Dia, Maria de Nazaré!, de temática social
Augusto Pinheiro
Da equipe do DIARIO
O diretor
paraibano Bertrand Lira levou o JVC Grand Prize, um dos dois prêmios mais
importantes do 26º JVC Festival de Vídeo de Tóquio. Ele concorreu com o vídeo Bom Dia, Maria de
Nazaré!, sobre a instalação de uma rádio comunitária na favela homônima de
João Pessoa (PB). Foi o único brasileiro entre os 30 finalistas.
Bertrand, que é professor do curso de rádio e
TV na UFPB (Universidade Federal da Paraíba), ganhou 400 mil ienes (cerca de
R$ 10 mil) e uma câmera mini-DV de alta resolução da JVC, patrocinadora do
evento, além de um troféu. Ele foi ao Japão, com tudo pago, para receber o
prêmio. Além da participação na premiação, seu roteiro incluía uma visita à
JVC, city tour por Tóquio e um coquetel para a imprensa. O outro grande
prêmio do festival é o Video Grand Prize, que paga 500 mil ienes.
"Foi totalmente inesperado. Quando me
ligaram, para dizer que eu havia ganho, fiquei atônito, nem fiz festa",
conta o videasta. Foram 2.881 vídeos inscritos de 36países (938 só do
Japão). Ele recebeu a notícia às vésperas da virada do ano passado, mas, a
pedido da JVC, que só queria que o resultado fosse divulgado após a
premiação, manteve a informação em segredo.
O diretor embarcou na última terça-feira para
Tóquio, onde fica até o dia 17. O vídeo premiado foi um projeto de extensão
da UFPB. Bertrand orientou alunos do curso de rádio e TV para registrar o
envolvimento da comunidade com a rádio comunitária. O projeto venceu o
edital do Laboratório de Desenvolvimento de Materiais Instrucionais (LDMI),
da própria universidade, que forneceu equipamentos, ilha de edição e bolsa
para os alunos. A câmera utilizada foi uma mini-DV com três CCD. O vídeo
também teve o apoio da Liberta (ONG responsável pela implantação da rádio) e
da Cead (Coordenação Institucional de Educação à Distância).
Para Bertrand, o que influenciou na
vitória foi a temática do vídeo. "Mostra uma comunidade que reage à situação
de miséria. A rádio comunitária melhorou a auto-estima dessas pessoas. Acho
que isso sensibilizou o júri. O vídeo não fala de violência, de nada
negativo", coloca. Ele acrescenta a coincidência de ter utilizado a canção
Miséria no Japão, interpretada por Ney Matogrosso e Pedro Luís.
VIAGEM - Bertrand resolveu inscrever
o vídeo no festival de Tóquio em agosto do ano passado, antes de embarcar
para o Catarina Festival de Documentário, em Balneário Camboriú (SC), quando
viu um cartaz na UFPB. "Fiquei interessado pela possibilidade de viajar para
o Japão", conta o videasta. Ele enviou uma fita VHS sem legendas.
Bom Dia, Maria de Nazaré!, que tem 20
minutos, abre com o depoimento de uma moradora atestando que, após a
instalação da rádio, as pessoas passaram a ter orgulho de dizer onde moram.
Os depoimentos foram coletados em situações cotidianas -como a mulher que
fala enquanto cata o feijão. Faz falta, no entanto, a identificação das
pessoas.
Da rejeição de moradores a um programa de rap
-aliás, a trilha do vídeo- ao envolvimento das crianças em programas sobre
saúde e higiene,o trabalho mostra como a rádio transformou a vida da
comunidade carente. "A gente anuncia tudo na rádio: missa, batizado,
casamento", diz outra moradora.
Os próprios moradores receberam
treinamento para operar os equipamentos. A rádio funciona por meio de
alto-falantes instalados nos postes da favela. O vídeo utiliza uma linguagem
simples, tradicional, sem revoluções de linguagem ou estéticas.
Entre os novos projetos de Bertrand, que já
filmou em super-8 e 16 mm, está um vídeo sobre a Teatro-Escola Piolim,
referência das artes cênicas paraibanas, cujo maior sucesso é a peça Vau da
Sarapalha.
(©
Pernambuco.com)
Pernambuco na retomada do cinema
Mostra vai exibir curtas e
longas produzidos nos últimos anos
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Superando dificuldades e enfrentando preconceitos, o cinema pernambucano
conseguiu um inédito ritmo de produção entre 1990 e 2000. Pela primeira vez,
essa safra é completamente reunida em uma mostra retrospectiva, que passa a
acontecer uma vez por mês a partir desta segunda-feira, no Cine-Teatro
Apolo. De That's a Lero Lero a A História da Eternidade e de Baile Perfumado
a Amarelo Manga, o festival vai reexibir 36 curtas e três longas-metragens,
sempre seguidos de debates com os realizadores. Tudo o que foi lançado em 16
e 35 milímetros deve entrar na programação.
Dividida em 11 módulos temáticos, a mostra
Retomada do Cinema Pernambucano passa a acontecer sempre na última
segunda-feira útil do mês. Marcada para as 19h30, a primeira sessão
apresenta curtas documentários dirigidos por cineastas que ainda não
lançaram um segundo filme no Estado. Integram a programação Tejucupapo, de
Marcílio Brandão, Vitrais, de Cecília Araújo, A Composição do Vazio, de
Marcos Henrique Lopes, e Brennand Ovo Omnia, de Liz Donovan.
Os outros módulos seguirão temas ou obras de
cineastas. Uma das noites, por exemplo, será dedicada a filmes que abordam
assombrações e figuras folclóricas. Em outros, cineastas como Hilton Lacerda
(A Visita e Simião Martiniano), Lírio Ferreira (O Crime da Imagem, That's a
Lero Lero e Baile Perfumado) e Camilo Cavalcante (A História da Eternidade,
Os Dois Velhinhos e O Velho, o Mar e o Lago) ganham espaço.
Na primeira sessão, a diversidade de linguagens
nos limites do documentário é característica marcante. Enquanto A Composição
do Vazio é todo construído a partir de depoimentos de pensadores, Vitrais
intercala entrevistas, imagens feitas em locações da cidade e cenas de
ficção e reconstituição de época. O primeiro discute e revela a obra do
filósofo pernambucano Evaldo Coutinho. O segundo percorre as principais
obras de arte vitralista do Recife, com linda direção de fotografia de Jane
Malaquias, que aproveita bem os efeitos das luzes que atravessam os
coloridos painéis de vidro. Os personagens principais do filme são os
artistas Heinrich Moser e Mariane Perreti, autora do vitral da Catedral de
Brasília, que revela paras as câmeras seu ateliê em Olinda.
Mais experimental, Brennand - Ovo Omnia é um
ensaio visual poético pela obra e pelos pensamentos do artista plástico
Francisco Brennand. Enquanto o ceramista expõe seus pensamentos sobre o
mundo e a arte, a câmera percorre sua oficina cerâmica, revelando suas
criaturas e detalhes de forma alucinante (mais um ótimo trabalho de
fotografia de Jacques Cheuiche, que filma as peças com personalidade e
movimento). Em Tejucupapo, o tema é a vida das trabalhadoras de um vilarejo
rodeado de manguezais localizado no município de Goiana, que todos os anos
montam um grande espetáculo teatral ao ar livre.
(©
Pernambuco.com)
Novos documentários vêm por aí
Roteiros de vídeo premiados em concurso da Massangana Multimídia começam a
sair do papel. Nova edição virá reformulada, para facilitar a produção dos
trabalhos
MARCELO PEDROSO
Da Editoria de Brasil/Internacional
Seis meses depois de ter sido
contemplado pelo Concurso Massangana Multimídia de Roteiros para
Documentários em Vídeo, da Fundaj, o vídeo Gangarras do Bandeira, de Cátia
Oliveira e Lula Clemente, começou a ser gravado no início da semana, em
Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste do Estado. O outro projeto vencedor do
concurso, o Recife 3x4, de Janaína Cordeiro, tem previsão para iniciar as
filmagens em março, ou seja, sete meses depois do prêmio e quatro após o
prazo para conclusão da obra, inicialmente estabelecido para dezembro.
O grande intervalo de tempo entre
a divulgação do prêmio e a execução dos projetos serviu para que os
organizadores detectassem algumas incongruências no modelo do concurso,
então em sua primeira edição. Resultado: este ano, ele volta com mudanças
que, além de facilitar a produção dos documentários, visam também a atrair
mais pessoas interessadas em participar, inclusive gente de outros Estados
do Nordeste.
Os vencedores do concurso deste
ano vão receber, além das cinco diárias de equipamentos e de edição e do
apoio técnico de funcionários da Fundaj, uma soma em dinheiro para auxiliar
a execução do vídeo. O valor, no entanto, ainda não definido, depende da
generosidade dos parceiros que a fundação pretende conquistar. Mas a
coordenadora geral da Massangana Multimídia, Adelina Pontual, adianta que
espera oferecer pelo menos R$ 10 mil aos vencedores.
“É o mínimo necessário para a
realização de um documentário. O prazo de conclusão dos projetos do ano
passado teve que ser prorrogado porque apenas com as diárias não era
possível rodar os vídeos. Por isso, esses projetos tiveram que correr atrás
de patrocínio para viabilizar as filmagens. Foi a partir desta situação que
nós reformulamos o concurso”, esclarece.
Este ano, os organizadores
pretendem também estabelecer o tema livre para os projetos. Na edição
anterior, os projetos tinham que se pautar pelo assunto “Apartheid social:
em busca de uma nova abolição”. As inscrições devem ser abertas entre os
meses de abril e maio. Quinze projetos participaram da seleção no ano
passado, mas as expectativa é que o número aumente este ano.
DIFICULDADES – Quando viram
seu projeto aprovado pelo concurso, em setembro, os diretores Cátia Oliveira
e Lula Clemente não imaginavam que enfrentariam tantas dificuldades para
executá-lo. “Quando fomos para o papel, o orçamento chegava a R$ 12 mil,
porque incluía despesas com alimentação, transporte, hospedagem da equipe,
compra de fitas e várias outras coisas”, conta Cátia.
Durante os últimos seis meses, a
vida dos dois se converteu na luta por patrocínios e apoios. A salvação foi
a entrada da Chesf no projeto, que arcou com todos os custos da produção,
tanto de Gangarras do Bandeira, quanto de Recife 3x4.
Gangarras... trata de uma
comunidade próxima a Santa Cruz do Capibaribe, cuja população tem traços
europeus como pele, olhos e cabelos claros. Já Recife 3x4 se propõe a
abordar a relação que os moradores da periferia têm com a metrópole. Os dois
documentários devem ser finalizados no segundo semestre.
(©
Jornal do Commercio-PE)