Estátua de Luiz Lopes, feita pelo cartunista Ique sob encomenda de Cesar
Maia, será instalada em Ipanema
Múcio Bezerra
Um corneteiro atrapalhado que mudou, com um toque, o desfecho da Batalha
de Pirajá, na Bahia, em 8 de novembro de 1822, vai, enfim, ser homenageado
com uma estátua na esquina das Ruas Visconde de Pirajá e Garcia D-Ávila, em
Ipanema - o bairro mais baiano do Rio, pelo menos nos nomes de seus
logradouros. O monumento, em bronze, com 1,70 metro de altura, encomendado
pelo prefeito Cesar Maia ao cartunista e escultor Ique, ficará pronto em
meados de abril.
- Fazer esculturas é um desafio e um prazer muito grande.
A escultura, sem pedestal, ficará junto ao poste. Ao lado, terá uma placa,
explicando toda a história. O monumento será o de um corneteiro com pernas
desproporcionais, pés cambaleantes, narigudo, orelhudo, corneta na boca, ao
lado de um canhão quebrado. Será uma charge tridimensional - informa Ique,
consagrado chargista do Jornal do Brasil.
A história não registra se foi por problema de audição,
estratégia de gênio, loucura ou desobediência mesmo, que Luiz Lopes tocou
avançar quando a ordem recebida tinha sido a de recuar a tropa brasileira,
durante a Batalha de Pirajá. As forças portuguesas eram muito mais
numerosas. Ao ouvir o toque do corneteiro trapalhão, os portugueses acharam
que o inimigo havia recebido reforços e bateram em retirada de Pirajá - um
lugar estratégico para ligar Salvador com o interior do estado.
As escaramuças entre os fiéis à Coroa portuguesa e
patriotas brasileiros se intensificaram quando, em 7 de setembro de 1822,
ouviram do Ipiranga às margens plácidas, de um povo heróico o brado
retumbante. A Bahia, comandada por um general português, não gostou.
Maranhão e Pará, também não. Revoltaram-se contra as ordens do imperador
Pedro I.
A derrota em Pirajá mostrou aos portugueses e aos grandes
comerciantes baianos fiéis a Lisboa que eles não podiam romper o cerco a
Salvador - por mar, lá estava o almirante Cochrane, escocês contratado pelo
imperador para sufocar os separatistas do Norte e do Nordeste (o Sul e o
Sudeste aderiram imediatamente à Proclamação da Independência do Brasil).
O Almirante Cochrane virou avenida engarrafada da Tijuca.
E os baianos de Pirajá? Os grandes fazendeiros da família Pires de Carvalho
e Albuquerque - Joaquim, Antônio Joaquim e Francisco Elesbão -, que tinham
apoiado dom Pedro I contra os portugueses, ganharam as graças do imperador,
títulos de nobreza e, cem anos depois, no loteamento Ipanema, foram
homenageados em ruas do lugar. E lá estão na moda daquele bairro chique da
Zona Sul, Joaquim, o Visconde de Pirajá; Antônio Joaquim, o visconde de
Garcia D'Ávila; e Francisco Elesbão, o barão de Jaguaribe.
E há ainda ilustres baianas, patriotas que apoiaram a
Independência do Brasil, a nomear logradouros de Ipanema: Maria Quitéria de
Jesus, que fugiu da casa dos pais, vestiu-se como soldado escocês (de
saiote) e juntou-se às tropas brasileiras; e Joana Angélica, a abadessa do
Convento da Lapa, de Salvador, assassinada a golpes de baionetas por
soldados portugueses, que violaram a clausura do lugar.
Cesar Maia soube dessa história toda em pesquisa na
Internet, ficou entusiasmado com o corneteiro trapalhão que mudou os rumos
de uma batalha e, quando Ique lhe propôs fazer uma estátua de Betinho
(Herbert de Souza), o pioneiro da campanha contra a fome no País, o prefeito
disse que queria, sim, homenagear o irmão do Henfil. Mas primeiro faria
justiça à memória de Luiz Lopes.
Um personagem que a professora de história Maria de
Lourdes Viana Lyra, autora dos livros A utopia do poderoso império e
A construção da unidade nacional, sobre o Primeiro Reinado e a
Regência, pouco conhece. A historiadora não confirma a trapalhada heróica do
corneteiro, mas elogiou a disposição de Cesar Maia de homenagear Luiz Lopes,
uma pessoa do povo, com uma estátua num dos bairros mais valorizados da
cidade.
O bairro mais baiano do Rio terá, ainda, a presença, em
monumento elaborado por Ique, dos cariocas Tom Jobim e Vinícius de Moraes,
que compuseram Garota de Ipanema, a música brasileira mais conhecida
no mundo.
Único a ganhar prêmio Esso de Charge, nos dois anos em
que essa categoria (depois extinta) esteve em disputa, em 1990 e 1991, Ique
tem dois livros publicados e já se prepara para lançar mais dois, de
cartoons.
(©
Jornal do Brasil)