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 Homenagem a um corneteiro trapalhão

15/02/2004

 

 

Diego Henrique

Ique, do JB, faz sua primeira 'charge tridimensional'
 

Estátua de Luiz Lopes, feita pelo cartunista Ique sob encomenda de Cesar Maia, será instalada em Ipanema

Múcio Bezerra

   Um corneteiro atrapalhado que mudou, com um toque, o desfecho da Batalha de Pirajá, na Bahia, em 8 de novembro de 1822, vai, enfim, ser homenageado com uma estátua na esquina das Ruas Visconde de Pirajá e Garcia D-Ávila, em Ipanema - o bairro mais baiano do Rio, pelo menos nos nomes de seus logradouros. O monumento, em bronze, com 1,70 metro de altura, encomendado pelo prefeito Cesar Maia ao cartunista e escultor Ique, ficará pronto em meados de abril.

   - Fazer esculturas é um desafio e um prazer muito grande. A escultura, sem pedestal, ficará junto ao poste. Ao lado, terá uma placa, explicando toda a história. O monumento será o de um corneteiro com pernas desproporcionais, pés cambaleantes, narigudo, orelhudo, corneta na boca, ao lado de um canhão quebrado. Será uma charge tridimensional - informa Ique, consagrado chargista do Jornal do Brasil.

   A história não registra se foi por problema de audição, estratégia de gênio, loucura ou desobediência mesmo, que Luiz Lopes tocou avançar quando a ordem recebida tinha sido a de recuar a tropa brasileira, durante a Batalha de Pirajá. As forças portuguesas eram muito mais numerosas. Ao ouvir o toque do corneteiro trapalhão, os portugueses acharam que o inimigo havia recebido reforços e bateram em retirada de Pirajá - um lugar estratégico para ligar Salvador com o interior do estado.

   As escaramuças entre os fiéis à Coroa portuguesa e patriotas brasileiros se intensificaram quando, em 7 de setembro de 1822, ouviram do Ipiranga às margens plácidas, de um povo heróico o brado retumbante. A Bahia, comandada por um general português, não gostou. Maranhão e Pará, também não. Revoltaram-se contra as ordens do imperador Pedro I.

   A derrota em Pirajá mostrou aos portugueses e aos grandes comerciantes baianos fiéis a Lisboa que eles não podiam romper o cerco a Salvador - por mar, lá estava o almirante Cochrane, escocês contratado pelo imperador para sufocar os separatistas do Norte e do Nordeste (o Sul e o Sudeste aderiram imediatamente à Proclamação da Independência do Brasil).

   O Almirante Cochrane virou avenida engarrafada da Tijuca. E os baianos de Pirajá? Os grandes fazendeiros da família Pires de Carvalho e Albuquerque - Joaquim, Antônio Joaquim e Francisco Elesbão -, que tinham apoiado dom Pedro I contra os portugueses, ganharam as graças do imperador, títulos de nobreza e, cem anos depois, no loteamento Ipanema, foram homenageados em ruas do lugar. E lá estão na moda daquele bairro chique da Zona Sul, Joaquim, o Visconde de Pirajá; Antônio Joaquim, o visconde de Garcia D'Ávila; e Francisco Elesbão, o barão de Jaguaribe.

   E há ainda ilustres baianas, patriotas que apoiaram a Independência do Brasil, a nomear logradouros de Ipanema: Maria Quitéria de Jesus, que fugiu da casa dos pais, vestiu-se como soldado escocês (de saiote) e juntou-se às tropas brasileiras; e Joana Angélica, a abadessa do Convento da Lapa, de Salvador, assassinada a golpes de baionetas por soldados portugueses, que violaram a clausura do lugar.

   Cesar Maia soube dessa história toda em pesquisa na Internet, ficou entusiasmado com o corneteiro trapalhão que mudou os rumos de uma batalha e, quando Ique lhe propôs fazer uma estátua de Betinho (Herbert de Souza), o pioneiro da campanha contra a fome no País, o prefeito disse que queria, sim, homenagear o irmão do Henfil. Mas primeiro faria justiça à memória de Luiz Lopes.

   Um personagem que a professora de história Maria de Lourdes Viana Lyra, autora dos livros A utopia do poderoso império e A construção da unidade nacional, sobre o Primeiro Reinado e a Regência, pouco conhece. A historiadora não confirma a trapalhada heróica do corneteiro, mas elogiou a disposição de Cesar Maia de homenagear Luiz Lopes, uma pessoa do povo, com uma estátua num dos bairros mais valorizados da cidade.

   O bairro mais baiano do Rio terá, ainda, a presença, em monumento elaborado por Ique, dos cariocas Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que compuseram Garota de Ipanema, a música brasileira mais conhecida no mundo.

   Único a ganhar prêmio Esso de Charge, nos dois anos em que essa categoria (depois extinta) esteve em disputa, em 1990 e 1991, Ique tem dois livros publicados e já se prepara para lançar mais dois, de cartoons.

(© Jornal do Brasil)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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