Jefferson Gonçalves,
gaitista carioca, finaliza trabalho no qual consegue unir com competência os
sons feitos em Pernambuco e nos Estados Unidos
MARCOS TOLEDO
As semelhanças entre a música
nordestina e o blues norte-americano chamam a atenção de artistas que buscam
na união destes gêneros uma nova alquimia musical capaz de despertar novos
interesses. Embora não se trate de um feito inédito, pela primeira vez foi
obtido um resultado acima da média, comparável aos melhores trabalhos de
blues do mercado, mas com esse algo a mais, que é o charme da musicalidade
nordestina brasileira. Estamos falando do novo CD Gréia, do virtuoso
gaitista carioca Jefferson Gonçalves.
Apaixonado por Pernambuco e pelos
ritmos do Nordeste, Jefferson adotou a gíria local para batizar seu
trabalho, curtido após várias sessões em Caruaru, no Recife, no Rio de
Janeiro e na Califórnia (EUA), num vaivém de gravações entre músicos de
variados estilos e origens.
A ‘gréia’, porém, está apenas no
nome do álbum e na forma bem-humorada de encarar as dificuldades que existem
para se concretizar um trabalho independente. Em meio à produção de blues no
Brasil na última década, de gaitistas a guitarristas e cantores, este disco
está entre os melhores já realizados.
Fundador da banda Baseado em
Blues, uma das principais do País, e do trio Blues Etc., Jefferson Gonçalves
é um gaitista de experiência internacional que tem uma boa didática como
instrutor, possui um selo próprio em parceria com o guitarrista Big Joe
Manfra e assina uma linha de gaitas fabricada especialmente sob sua
consultoria pela Hering Harmônicas.
No momento, enquanto lança seu
primeiro trabalho solo, Jefferson aproveita para reformular a própria
carreira, pois está deixando a Baseado. “Já não estava dando mais”, explica.
Com ele saíram também o baixista e o guitarrista. “Não estávamos mais
concordando na concepção de idéias.” O gaitista, contudo, salienta que não
realizou Gréia pensando em se dedicar apenas a uma carreira solo.
“Nunca descartei a Baseado, que era o carro-chefe”, diz. “Mas, agora, estou
com paz na alma.”
MARCO ZERO – Em meio a este
turbilhão de atividades e decisões, Jefferson encontrou ainda tempo para
finalizar seu CD. “Eu vi meu disco solo... Ele começou no Recife”. Este bem
que poderia ser o título do trabalho, que teve seu ponto de partida na
capital pernambucana. Aqui, em junho de 2002, no estúdio Manguenitude, o
músico carioca realizou as primeiras sessões que teve a participação do dono
do estúdio, Zé da Flauta, do baterista Giovanni Papaleo (Uptown Band), do
violinista Sérgio Ferraz (Sonoris Fabrica) e do sanfoneiro Derico Alves
(ex-Quinteto Violado).
“Wild girl foi a coisa mais
louca de gravação. Ele (Papaleo, que assina a produção com Jefferson) gravou
primeiro sozinho duas levadas (de bateria) sem metrônomo nem nada”, conta o
gaitista. Só depois foram colocados gaita, guitarra, sanfona, baixo e voz.
“Aí foi que a gente foi dando ‘corpo’ à música. Todos os gringos (que tocam
no CD) perguntam: ‘Quem está tocando a bateria?’”, orgulha-se.
Ainda no Recife, no Estúdio
Fábrica, Jefferson garantiu a participação do percussionista Airto Moreira.
Daqui, foi para Caruaru onde, no estúdio Martins Digital, realizou sessões
com Tavares da Gaita. Além de contar com a presença do veterano gaitista
pernambucano, cumpriu a promessa de registrar a música de Tavares, reunida
em um CD já finalizado que só depende da obtenção um pouco mais de recursos
para ser prensado (confira na matéria abaixo).
“Giovanni me mostrou muito o
‘caminho das pedras’”, confessa Jefferson. “Zé da Flauta também me mostrou
muito material, e contou muito a minha convivência com Tavares. Minha
preocupação era não soar falso. Não sou conhecedor da música nordestina. O
próprio Geová da Gaita toca melhor do que eu. Tentei colocar meu estilo.
Coloquei minha idéia e encaixou”, avalia.
(©
Jornal do Commercio-PE)
CD especial é tributo a Tavares da Gaita
Além de convidar Tavares da Gaita para participar de seu primeiro
álbum solo, Jefferson Gonçalves resolveu gravar um CD apenas com as
composições do músico pernambucano. O compromisso foi a forma que o gaitista
carioca encontrou de agradecer o aprendizado que obteve com Tavares e, ao
mesmo tempo, de homenageá-lo. “Quando o conheci, vi que poderia fazer outros
ritmos além do blues”, explica Jefferson.
O disco de Tavares está pronto
para ser prensado desde o ano passado – inclusive com o layout da capa,
assinado pela artista plástica recifense Mila Andrade –, apenas na
dependência da obtenção de recursos. Ao todo, conta com 19 faixas, sendo
quatro com depoimentos do compositor e 15 músicas nas quais ele toca
acompanhado do percussionista Lucivan Max. Jefferson participa apenas de uma
das faixas, assim como seu ex-companheiro da banda Baseado em Blues, o
também percussionista Marco B.Z. Outros dois músicos, Airto Moreira
(percussão) e Xande Rasec (violão), marcam presença em dois temas cada um.
O repertório do disco é formado
por músicas já conhecidas de Tavares e outras que ele criou durante as
gravações, realizadas entre junho de 2002 e março de 2003, no estúdio
Martins Digital, em Caruaru. Em abril do ano passado, Jefferson mixou o
trabalho no Making of, ao lado de Fábio Mesquita (outro ex-Baseado), e
masterizou no Visom, ambos no Rio de Janeiro.
“Tavares tem uma grande
contribuição cultural para Pernambuco”, avalia Jefferson, que só gastou
cerca de R$ 8 mil para produzir o CD porque conseguiu descontos nos estúdios
e alguns músicos tocaram sem cobrar cachê. “É um crime esperar uma pessoa
morrer para homenageá-la. Nem ele (Tavares) quer isso. Estou batalhando para
lançar o disco e ele curtir”, garante. O produtor acredita que com mais R$ 6
mil consegue prensar mil cópias e entregá-las a Tavares.