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 Unidos ao som da gaita

19/02/2004

 

 

O artista pernambucano de Caruaru, Tavares da Gaita
 

Jefferson Gonçalves, gaitista carioca, finaliza trabalho no qual consegue unir com competência os sons feitos em Pernambuco e nos Estados Unidos

MARCOS TOLEDO

   As semelhanças entre a música nordestina e o blues norte-americano chamam a atenção de artistas que buscam na união destes gêneros uma nova alquimia musical capaz de despertar novos interesses. Embora não se trate de um feito inédito, pela primeira vez foi obtido um resultado acima da média, comparável aos melhores trabalhos de blues do mercado, mas com esse algo a mais, que é o charme da musicalidade nordestina brasileira. Estamos falando do novo CD Gréia, do virtuoso gaitista carioca Jefferson Gonçalves.

   Apaixonado por Pernambuco e pelos ritmos do Nordeste, Jefferson adotou a gíria local para batizar seu trabalho, curtido após várias sessões em Caruaru, no Recife, no Rio de Janeiro e na Califórnia (EUA), num vaivém de gravações entre músicos de variados estilos e origens.

   A ‘gréia’, porém, está apenas no nome do álbum e na forma bem-humorada de encarar as dificuldades que existem para se concretizar um trabalho independente. Em meio à produção de blues no Brasil na última década, de gaitistas a guitarristas e cantores, este disco está entre os melhores já realizados.

   Fundador da banda Baseado em Blues, uma das principais do País, e do trio Blues Etc., Jefferson Gonçalves é um gaitista de experiência internacional que tem uma boa didática como instrutor, possui um selo próprio em parceria com o guitarrista Big Joe Manfra e assina uma linha de gaitas fabricada especialmente sob sua consultoria pela Hering Harmônicas.

   No momento, enquanto lança seu primeiro trabalho solo, Jefferson aproveita para reformular a própria carreira, pois está deixando a Baseado. “Já não estava dando mais”, explica. Com ele saíram também o baixista e o guitarrista. “Não estávamos mais concordando na concepção de idéias.” O gaitista, contudo, salienta que não realizou Gréia pensando em se dedicar apenas a uma carreira solo. “Nunca descartei a Baseado, que era o carro-chefe”, diz. “Mas, agora, estou com paz na alma.”

   MARCO ZERO – Em meio a este turbilhão de atividades e decisões, Jefferson encontrou ainda tempo para finalizar seu CD. “Eu vi meu disco solo... Ele começou no Recife”. Este bem que poderia ser o título do trabalho, que teve seu ponto de partida na capital pernambucana. Aqui, em junho de 2002, no estúdio Manguenitude, o músico carioca realizou as primeiras sessões que teve a participação do dono do estúdio, Zé da Flauta, do baterista Giovanni Papaleo (Uptown Band), do violinista Sérgio Ferraz (Sonoris Fabrica) e do sanfoneiro Derico Alves (ex-Quinteto Violado).

   Wild girl foi a coisa mais louca de gravação. Ele (Papaleo, que assina a produção com Jefferson) gravou primeiro sozinho duas levadas (de bateria) sem metrônomo nem nada”, conta o gaitista. Só depois foram colocados gaita, guitarra, sanfona, baixo e voz. “Aí foi que a gente foi dando ‘corpo’ à música. Todos os gringos (que tocam no CD) perguntam: ‘Quem está tocando a bateria?’”, orgulha-se.

   Ainda no Recife, no Estúdio Fábrica, Jefferson garantiu a participação do percussionista Airto Moreira. Daqui, foi para Caruaru onde, no estúdio Martins Digital, realizou sessões com Tavares da Gaita. Além de contar com a presença do veterano gaitista pernambucano, cumpriu a promessa de registrar a música de Tavares, reunida em um CD já finalizado que só depende da obtenção um pouco mais de recursos para ser prensado (confira na matéria abaixo).

   “Giovanni me mostrou muito o ‘caminho das pedras’”, confessa Jefferson. “Zé da Flauta também me mostrou muito material, e contou muito a minha convivência com Tavares. Minha preocupação era não soar falso. Não sou conhecedor da música nordestina. O próprio Geová da Gaita toca melhor do que eu. Tentei colocar meu estilo. Coloquei minha idéia e encaixou”, avalia.

(© Jornal do Commercio-PE)


CD especial é tributo a Tavares da Gaita

   Além de convidar Tavares da Gaita para participar de seu primeiro álbum solo, Jefferson Gonçalves resolveu gravar um CD apenas com as composições do músico pernambucano. O compromisso foi a forma que o gaitista carioca encontrou de agradecer o aprendizado que obteve com Tavares e, ao mesmo tempo, de homenageá-lo. “Quando o conheci, vi que poderia fazer outros ritmos além do blues”, explica Jefferson.

   O disco de Tavares está pronto para ser prensado desde o ano passado – inclusive com o layout da capa, assinado pela artista plástica recifense Mila Andrade –, apenas na dependência da obtenção de recursos. Ao todo, conta com 19 faixas, sendo quatro com depoimentos do compositor e 15 músicas nas quais ele toca acompanhado do percussionista Lucivan Max. Jefferson participa apenas de uma das faixas, assim como seu ex-companheiro da banda Baseado em Blues, o também percussionista Marco B.Z. Outros dois músicos, Airto Moreira (percussão) e Xande Rasec (violão), marcam presença em dois temas cada um.

   O repertório do disco é formado por músicas já conhecidas de Tavares e outras que ele criou durante as gravações, realizadas entre junho de 2002 e março de 2003, no estúdio Martins Digital, em Caruaru. Em abril do ano passado, Jefferson mixou o trabalho no Making of, ao lado de Fábio Mesquita (outro ex-Baseado), e masterizou no Visom, ambos no Rio de Janeiro.

   “Tavares tem uma grande contribuição cultural para Pernambuco”, avalia Jefferson, que só gastou cerca de R$ 8 mil para produzir o CD porque conseguiu descontos nos estúdios e alguns músicos tocaram sem cobrar cachê. “É um crime esperar uma pessoa morrer para homenageá-la. Nem ele (Tavares) quer isso. Estou batalhando para lançar o disco e ele curtir”, garante. O produtor acredita que com mais R$ 6 mil consegue prensar mil cópias e entregá-las a Tavares.

(© Jornal do Commercio-PE)

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