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 Jazz nas alturas

20/02/2004

 

 

Heraldo do Monte
 

Uma das atrações do Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga, que tem início amanhã, o violonista pernambucano Heraldo do Monte conta histórias de sua carreira. O evento é uma alternativa já consolidada para aqueles que fogem da tradicional folia carnavalesca

Christiane Viana
Especial para O POVO

   Por pouco o violonista Heraldo do Monte não desiste precocemente da música. Ainda na infância, ele inventou de fazer parte da banda da escola. Restou-lhe o clarinete para tocar. Acontece que soprava e soprava sem conseguir tirar um som decente do instrumento. Já estava ficando frustrado, considerando-se um fracasso total, quando foi descoberto o ''problema'': um colega de turma havia entupido o clarinete!

   Trauma solucionado, o garoto dominou o instrumento. Depois, investiu no violão, no qual acabou se consagrando como um dos melhores músicos do País. Em seu currículo, destaca-se a participação no Quarteto Novo, ao lado dos igualmente bambas Hermeto Pascoal, Airto Moreira e Theo de Barros. Hoje dedicado à carreira solo, o pernambucano Heraldo é uma das atrações do Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga. Ele toca amanhã, em apresentação única, no Teatro Rachel de Queiroz.

   São quatro dias de evento na região do Maciço de Baturité e mais quatro em Fortaleza - de 26 a 29, no Centro Dragão do Mar. O Festival, que teve início como uma ousada idéia da Via de Comunicação, já se encontra em sua quinta edição este ano, firmando-se como a principal alternativa para aqueles que desejam fugir da folia carnavalesca. Além de Heraldo, apresentam-se aqui desta vez Renato Borghetti, Gílson Peranzzetta e Big Gilson, entre tantos outros. Em âmbito local, é a chance de conferir talentos como Idilva Germano e Lúcio Ricardo.

   Paralelamente aos shows oficiais, a programação inclui ainda jam sessions gratuitas e eventos como oficinas de material reciclado, blitze ecológicas e workshop para músicos profissionais.

   A seguir, a conversa de Heraldo do Monte com o Vida & Arte, na qual ele conta melhor o episódio do clarinete ''mudo'' e outras histórias de sua carreira:

O POVO - É verdade que você começou tocando clarinete porque era o único instrumento disponível na banda da escola?

Heraldo do Monte - (risos) Eu comecei tocando um clarinete pequenininho chamado requinta, aí depois passei para um clarinete normal. Mas essa informação de que era o único instrumento disponível na banda eu não lembrava. É capaz de ser verdade...

OP - E a história de que, no início, você não conseguia tirar nenhum som, pois tinham entupido o clarinete?

Heraldo - É verdade. Fiquei um mês tentando. Já estava ficando complexado. Até que, um dia, resolvi pedir para o maestro Mário Campos fazer uma escala. Foi a minha salvação, porque ele pegou a requinta e o negócio começou a guinchar (risos), fazia igual quando eu tentava tocar. Então, ele descobriu que estava entupida. É que tinha um demônio, lá na escola, chamado Demétrio. Ele estava presente em toda coisa ruim que acontecia (risos).

OP - Como se deu a transição para o violão?

Heraldo - Eu sentia falta de harmonia simultânea, que não tem no clarinete. Então, comprei um violão e comecei a estudar em casa sozinho. No início, usava os métodos do clarinete, por incrível que pareça, pois queria dominar primeiro a teoria que havia aprendido no clarinete e passá-la para o violão.

OP - Mas não são muito diferentes os dois instrumentos?

Heraldo - São. Mas eu fui me acostumando. Depois, comprei uns métodos de guitarra. E fui entrando aos poucos no mundo do violão e da guitarra, que são mais ou menos a mesma coisa.

OP - Sua família tinha ligação com música ou você foi o pioneiro?

Heraldo - Meu pai era trombonista da banda da Polícia Militar. Mas não convivi com ele. Então, a música foi para mim uma coisa instintiva. Eu gostava. Era uma força muito grande que tinha dentro de mim. Apesar de não querer ser músico profissional, acabei me envolvendo. E, gostava tanto, que só vivia estudando.

OP - Não houve como fugir.

Heraldo - É. Eu tinha um emprego meio sem-vergonha (risos) e apareceu uma proposta boa com música. Aí, tive que ir mesmo para o lado profissional.

OP - Esse emprego com música era acompanhando alguém em shows?

Heraldo - Era. Conheci esse cantor que me desencaminhou para a música lá em Recife mesmo. Tocava em boates. Depois fui fazer música instrumental, também em boates, com um pianista chamado Walter Wanderley. E foi ele o responsável por minha vinda para São Paulo. Veio primeiro e mandou me buscar. Não vim de pau-de-arara, vim de avião.

OP - Você começou, portanto, em boates. Depois, tornou-se também um dos mais requisitados músicos de estúdio do Brasil. Qual a diferença entre tocar num ambiente e no outro? Algum deles é melhor?

Heraldo - No estúdio é uma coisa mais burocrática. Você tem horário para começar, não sabe exatamente quem vai acompanhar... Pelo menos, na minha época. A gente sabia que horas deveria estar no estúdio. Mas não sabia quem era o maestro nem o cantor. Então, é uma indústria. E, no palco, a troca de energia com o público não tem nada que substitua.

OP - A participação do público pode interferir na sua apresentação?

Heraldo - Pode, sim. Dependendo da reação... Às vezes, o público não precisa nem se manifestar, assim, gritando. Quando ele está quieto, a gente já sente a vibração, percebe se as pessoas estão gostando ou não. Mesmo que estejam em silêncio.

OP - Como se deu a formação do, inicialmente, Trio Novo, que depois veio a se tornar Quarteto Novo?

Heraldo - A Rhodia, companhia francesa na área da Química e também da Moda, ia lançar uma coleção bem brasileira e chamou o Geraldo Vandré para arranjar um pessoal para tocar com ele. Ele quis, então, músicas bem brasileiras e que os músicos, ao invés de ficarem escondidos, ficassem no palco durante o desfile (risos). Foi aí que se formou o Trio Novo. A gente viajou o Brasil inteiro com essa coleção da Rhodia. E aproveitou essa chance para ir conversando - o Airto Moreira, o Theo de Barros e eu. Era uma coisa muito à frente da época. Depois, chamaram o Hermeto (Pascoal) para fazer um trabalho maior. Voltamos, então, para São Paulo e nos desfizemos de todos nossos discos para não sofrermos nenhuma influência. E começamos a lembrar de coisas da nossa infância e tudo, e a elaborar um som novo mesmo.

OP - Qual a repercussão que o Quarteto teve na época? E, ainda hoje, vocês são reconhecidos por esse trabalho?

Heraldo - Isso marcou muito a vida da gente. Nosso estilo, depois do Quarteto, ainda é influenciado por ele, apesar de não seguirmos exatamente suas leis, principalmente eu e o Hermeto, que relaxamos um pouquinho. Mas, na época, a gente criou uma qualidade nova. Fizemos o primeiro disco de viola com flauta, a primeira improvisação que não era jazzística. E isso... quando o Hermeto foi para os EUA gravar e o Airto foi para lá morar, eles mostraram esse trabalho para músicos de jazz e ficaram todos impressionados com a maneira diferente que tocávamos. Parece que eles também queriam algo diferente para o seu próprio trabalho. Então, isso foi muito influente tanto lá fora como aqui.

OP - O que provocou a separação do grupo? Cada um quis seguir carreira solo?

Heraldo - É, acho que é muita gente boa para ficar junta (risos). Onde está a modéstia, né? Pelos três, digamos (risos)...

OP - Nada disso. Pode se incluir também (risos).

Heraldo - (Risos) Aí, cada um com vontade de fazer um trabalho próprio. Perguntando: ''Será que vou ficar unido a esse pessoal o resto da vida?' Então, a gente foi aos poucos partindo para outros trabalhos.

OP - Vocês chegaram a se encontrar depois, a tocar juntos?

Heraldo - Não, não. Quer dizer, de vez em quando algum empresário vem propor isso. Mas aquilo é algo que teve impacto na década de 60, mas que agora, como todo mundo já assimilou nosso trabalho, já incorporou, não vai parecer nenhuma novidade.

OP - Qual a sua avaliação sobre o mercado de música instrumental no Brasil?

Heraldo - Olha, acho que, no final do século passado, a qualidade começou a ser vista como uma espécie de defeito. Tudo que era feito de modo mais elaborado, em qualquer tipo de arte, foi cedendo a um tipo de coisa mais de diversão, mais breve e menos elaborada, e cada vez mais vulgar, mais vulgar, mais vulgar... Então, tanto a música instrumental brasileira, como o jazz nos Estados Unidos têm que fingir que são ruins para ser aceitos. Você vê pela mídia: o que é pior musicalmente é o que tem mais repercussão. Mas a gente não liga para isso, não. Temos nosso nicho de atuação, nosso público, que vai se renovando a cada geração. E a gente vai vivendo fazendo o som que gosta.

OP - Para gravar, há espaço nas grandes companhias fonográficas, ou é melhor investir em selos independentes?

Heraldo - É. A gente normalmente tem gravado em selos pequenos. Na verdade, sempre gravamos assim. Eu, particularmente, estou fazendo um disco agora com meu filho - Luís do Monte - e alguns músicos em esquema independente. Ainda não temos data marcada para o lançamento, mas será este ano. Vai se chamar Guitarra Brasileira e tem uma música ou mais de cada região do Brasil. Todas compostas por mim.

OP - Para finalizar, gostaria de saber o que você acha de um festival como esse, de jazz & blues, em pleno Carnaval.

Heraldo - Acho tudo uma deliciosa loucura (risos) dessas empresárias aí - Rachel Gadelha e Maria Amélia Mamede - responsáveis pelo evento. E espero que dê certo durante séculos.

DIA-A-DIA

GUARAMIRANGA / ARATUBA
SÁBADO, 21
10h às 12h - Oficina 1: Bonecos e Mamulengos / Oficina 2: Instrumentos Musicais com material reciclado. Na Arena Sebrae.
14h30min - Ensaio Aberto com Heraldo do Monte (PE). No Teatro Rachel de Queiroz.
16h - Cortejo com bonecos gigantes e banda de música, pelas ruas de Guaramiranga.
17h às 19h - Shows no fim da tarde: Banda de Blues da Casa Grande e Lúcio Ricardo. Na Arena Sebrae.
20h - Bitten Blues (CE) / Celso Salim (DF). No Teatro Rachel de Queiroz.
22h - Bossa Jazz - Romeu Castro (CE) / Heraldo do Monte (PE). No Teatro Rachel de Queiroz.
Meia-Noite - Jam Session. Arena Sebrae.
Meia-Noite - Jazz à Meia-Noite. Restaurante Lautrec.

DOMINGO, 22
10h às 12h - Oficina 1: Bonecos e Mamulengos / Oficina 2: Instrumentos Musicais com material reciclado. Na Arena Sebrae.
14h30min - Ensaio Aberto com Sérgio Duarte (SP). No Teatro Rachel de Queiroz
16h - Cortejo com bonecos gigantes e banda de música, pelas ruas de Guaramiranga.
16h às 19h - Pôr-do-Sol com Jazz. No Hotel Resort Mulungu ''Chapada de Lameirão''.
17h às 19h - Shows no fim da tarde: Tambores de Guaramiranga e Romildo Santos. Na Arena Sebrae.
20h - Mazinho Ventura (RJ) / Idilva Germano (CE) em Tributo a Billie Holiday. No Teatro Rachel de Queiroz.
22h - Blues Label (CE) / Sérgio Duarte (SP). No Teatro Rachel de Queiroz.
Meia-Noite - Jam Session. Na Arena Sebrae.

SEGUNDA-FEIRA, 23
10h às 12h - Oficina 1: Bonecos e Mamulengos / Oficina 2: Instrumentos Musicais com material reciclado. Na Arena Sebrae.
14h30min - Ensaio Aberto com Gilson Peranzzetta (RJ). No Teatro Rachel de Queiroz.
16h - Cortejo com bonecos gigantes e banda de música. Pelas ruas de Guaramiranga.
16h às 19h - Pôr-do-Sol com Jazz. No Hotel Resort Mulungu Chapada de Lameirão
17h às 19h - Shows no fim da tarde: Miscelânea e R3 Blues. Na Arena Sebrae.
20h - Adriano Azevedo e Quinteto (CE) / Without Words (Canadá). No Teatro Rachel de Queiroz.
21h - Banda dos Meninos da Casa Grande (Nova Olinda-CE) / Big Gilson & Blues Dynamite (RJ). Em Aratuba (Teatro do Centro de Treinamento).
22h - Manassés e Waldonys (CE) / Gilson Peranzzetta (RJ). No Teatro Rachel de Queiroz.
Meia-Noite - Jam Session. Na Arena Sebrae.
Meia-Noite - Jazz à Meia-Noite. No Restaurante Lautrec.

TERÇA-FEIRA, 24
10h às 12h - Oficina 1: Bonecos e Mamulengos / Oficina 2: Instrumentos Musicais com material reciclado. Na Arena Sebrae.
14h30min - Ensaio Aberto com Renato Borghetti (RS). No Teatro Rachel de Queiroz.
16h - Cortejo com bonecos gigantes e banda de música, pelas ruas de Guaramiranga.
17h às 19h - Shows no fim da tarde: Grupo de Violões de Guaramiranga e Realejo Quartet Jazz. Na Arena Sebrae.
20h - Banda Timbral - Lu de Souza (CE) / Dihelson Mendonça Elektric Band (CE) em Tributo a Chick Corea. No Teatro Rachel de Queiroz.
21h - Miscelânea (Guaramiranga) / Lúcio Ricardo (CE). Em Aratuba (Teatro do Centro de Treinamento)
22h - Edu Negrão (SP) / Renato Borghetti (RS). No Teatro Rachel de Queiroz.
Meia-Noite - Jam Session. Na Arena Sebrae.

programação sujeita a alterações

SERVIÇO:
V Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga - De amanhã, 21, até terça-feira, 24, em Guaramiranga e Aratuba. E de quinta-feira, 26, a domingo, 29, em Fortaleza.

Ingressos: Para shows no Teatro Rachel de Queiroz (Guaramiranga): R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia). À venda até hoje, dia 20, ao meio-dia, em Fortaleza, na Desafinado (Av. Dom Luís, 655, loja 2) e, a partir de sábado, às 14 horas, na bilheteria do teatro. Diariamente, serão vendidos os ingressos para os shows do mesmo dia. Informações: 224.3853 e 264.7230.

Para os shows no Anfiteatro do Centro Dragão do Mar, em Fortaleza: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia). À venda a partir do dia 26, na bilheteria do Anfiteatro.

Para a Festa de Encerramento na Órbita: R$ 10,00. Venda antecipada em Guaramiranga, na secretaria do festival, e no dia 28, na bilheteria da Órbita. Informações: 453.1421 e 264.7230.

(© NoOlhar.com.br)

Visite o site oficial do Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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