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 A estranha música do Jaguaribe Carne

20/02/2004

 

 

Os irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró, do Jaguaribe Carne

Lenda da música paraibana, escola de Chico César e outros artistas, a Jaguaribe Carne finalmente grava seu segundo e instigante álbum

JOSÉ TELES

   O grupo Jaguaribe Carne é uma espécie de lenda urbana musical nordestina. Há três décadas, a banda é comentada. Pedro Osmar, seu fundador, é invariavelmente citado por músicos da geração dele. No entanto, fora de João Pessoa, onde surgiu, em 1974, poucos já viram ou ouviram a banda, ou melhor, projeto. Em torno de Pedro Osmar, e seu irmão Paulo Ró, já circularam dezenas de músicos, entre os quais Chico César, Totonho (de Totonho e Os Cabras) e Escurinho, atual ídolo do pop paraibano.

   A discografia do grupo resumia-se ao LP Jaguaribe Carne Instrumental, de 1993, que trazia uma capa diferente para cada álbum (de um total de mil unidades). No final do ano passado, o Jaguaribe Carne voltou a gravar, agora pelo selo do ex-integrante Chico César, o Chita Discos.

   A exemplo do que fez com as mil capas, Pedro Osmar volta a aplicar a equação “muito nunca é demais”. Vem no Vento (nome do álbum) tem nada menos de 24 participações especiais, e de gente que, com exceção de trabalhar com música, não compartilha de nenhuma, ou quase nenhuma, semelhança estética. Uma lista que inclui Lenine, Elba Ramalho, Elomar, Chico Correia, Lula Queiroga e Escurinho. As bases foram gravadas em João Pessoa, as vozes onde estivessem os cantores (Diana Miranda, por exemplo, gravou na Suíça).

   Pedro Osmar, hoje morando em São Paulo, está passando uma pequena temporada em João Pessoa, de onde conversou, por telefone, sobre o grupo e o novo disco, que está entre os indicados ao Prêmio Tim 2004: “É um caso inusitado até com o Jaguaribe Carne”, comenta ele sobre o ecletismo das participações. Osmar explica que com cada um destes artistas manteve alguma espécie de relacionamento musical. Com Vital Farias, por exemplo, ele emigrou para o Rio de Janeiro há 30 anos: “Lá a primeira coisa que fizemos foi um trabalho com um grupo de teatro do qual participava Elba Ramalho”. Esclarece, portanto, a presença da cantora no CD. “Estes anos todos venho colecionando amigos”. Um dos “colecionados” foi o baiano Xangai, que o levou a outro baiano, o arredio Elomar. Aqui uma curiosidade. A música que Elomar cantaria, Aboiando o peixe-boi já havia sido gravada por Zeca Baleiro. No entanto, Elomar, quando a escutou achou que aquilo era uma incelença, e gravou-a com outro ritmo e título: Incelença para um povo-boi.

   DISCO – “Ligados na modernidade medieval. Elefantes de palha desta indústria de cosméticos”. Esta é a frase que abre Vem no Vento. Aparentemente sem sentido, ela captura o espírito do disco, caótico e ao mesmo tempo cartesianamente organizado, como os melhores trabalhos de Tom Zé, influência assumida de Pedro Osmar. Vem no Vento é um exercício de mimetismo musical. Em cada faixa assume-se o estilo do convidado, ao mesmo tempo que se mantém as características do Jaguaribe Carne. A faixa-título, por exemplo, poderia ser tomada por uma nova composição de Lenine, mas é assinada apenas por Pedro Osmar (é cantada em dueto pelos dois), o mesmo se poderia dizer de Comentário, que tem participação de Lula Queiroga, que a canta com seu autor, Paulo Ró.

   A personalidade de Pedro Osmar é tão forte, que ele faz Xangai desviar-se da cantoria, e soltar a voz acompanhado de uma estridente guitarra elétrica, e o retraído Bráulio Tavares, soltar a voz, gutural, em Ao mesmo tempo (Paulo Ró), uma ensandecida embolada eletrônica espacial (uma das melhores faixas do disco). O CD tem 20 músicas, cada qual mais surpreendente do que a outra. Difícil a comissão julgadora do Prêmio Tim descobrir um disco mais bonito, estranho e instigante.

(Vem no Vento, pode ser encontrado na loja Passa-Disco, no Shopping Sítio da Trindade, em Casa Forte, ou encomendado a Chita Discos, pelo fone (011) 3673.0165)

(© Jornal do Commercio-PE)


Experimentalismo e ritmos regionais

Grupo paraibano Jaguaribe Carne lança Vem no Vento

Marcelo Benevides

   O grupo Jaguaribe Carne é uma espécie de coletivo artístico que vem movimentando a música nordestina há 30 anos. Tendo como núcleo os irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró, o conjunto tem seu nome inspirado em um bairro da cidade de João Pessoa, onde surgiu em 1974, misturando o experimentalismo a ritmos tradicionais como coco e maracatu, aliados a letras cujo caráter poético é bastante acentuado. Dessa forma, compartilharam o cenário alternativo da época com figuras como Lenine e Lula Queiroga. Para celebrar a fertilidade do terreno cultural paraibano, o recém-criado selo Chita Discos, de Chico César, acaba de estrear no mercado com o lançamento do novo disco do Jaguaribe Carne, Vem No Vento.

   Como Chico define no texto de divulgação do CD, “não esperem espetáculo, festinhas de lançamento, videoclipe. Não há tempo, dinheiro, gente nem vontade de fazer essas coisas”. O trabalho, segundo Pedro Osmar na apresentação do álbum, “pretende alcançar pessoas, grupos, entidades e instituições de qualquer lugar, para um possível intercâmbio interplanetário”. Numa intimidade invejável, os irmãos do Jaguaribe Carne recebem uma imensa lista de convidados-cúmplices que reúne nomes como Vital Farias, Totonho, Escurinho, Zeca Baleiro, Elba Ramalho e Chico Correia - é o Nordeste em peso.

   A maioria das faixas de Vem no Vento trazem vinhetas de abertura, devidamente identificadas no encarte do disco. Na música que dá título ao CD, Pedro Osmar faz um dueto vocal com Lenine. Enquanto a minimalista Delírio de Gari divaga sobre a imagem dos urubus (“são aves do paraíso”), Ferrugem Popular, uma das melhores, traz o blues com sotaque nordestino, com a participação de Xangai (“Liberdade é o único sentimento de revolta”). A revolta ainda está presente em Robin Hood Pós, Pois (com Chico César) e no encontro com o violão erudito-popular de Elomar, em Incelença Para Um Peixe-Boi (animal freqüentemente lembrado no universo do grupo).

   O paraibano Chico Correia é o responsável pela releitura eletrônica da instrumental Saltos - a propósito, o Jaguaribe Carne tem três álbuns inteiramente instrumentais no currículo. É caso do LP Jaguaribe Carne (1993), Signagem (1995) e Viola Caipira (1998).

(© Folha-PE)

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