Lenda da música
paraibana, escola de Chico César e outros artistas, a Jaguaribe Carne
finalmente grava seu segundo e instigante álbum
JOSÉ TELES
O grupo Jaguaribe Carne é uma
espécie de lenda urbana musical nordestina. Há três décadas, a banda é
comentada. Pedro Osmar, seu fundador, é invariavelmente citado por músicos
da geração dele. No entanto, fora de João Pessoa, onde surgiu, em 1974,
poucos já viram ou ouviram a banda, ou melhor, projeto. Em torno de Pedro
Osmar, e seu irmão Paulo Ró, já circularam dezenas de músicos, entre os
quais Chico César, Totonho (de Totonho e Os Cabras) e Escurinho, atual ídolo
do pop paraibano.
A discografia do grupo resumia-se
ao LP Jaguaribe Carne Instrumental, de 1993, que trazia uma capa
diferente para cada álbum (de um total de mil unidades). No final do ano
passado, o Jaguaribe Carne voltou a gravar, agora pelo selo do ex-integrante
Chico César, o Chita Discos.
A exemplo do que fez com as mil
capas, Pedro Osmar volta a aplicar a equação “muito nunca é demais”. Vem
no Vento (nome do álbum) tem nada menos de 24 participações especiais, e
de gente que, com exceção de trabalhar com música, não compartilha de
nenhuma, ou quase nenhuma, semelhança estética. Uma lista que inclui Lenine,
Elba Ramalho, Elomar, Chico Correia, Lula Queiroga e Escurinho. As bases
foram gravadas em João Pessoa, as vozes onde estivessem os cantores (Diana
Miranda, por exemplo, gravou na Suíça).
Pedro Osmar, hoje morando em São
Paulo, está passando uma pequena temporada em João Pessoa, de onde
conversou, por telefone, sobre o grupo e o novo disco, que está entre os
indicados ao Prêmio Tim 2004: “É um caso inusitado até com o Jaguaribe
Carne”, comenta ele sobre o ecletismo das participações. Osmar explica que
com cada um destes artistas manteve alguma espécie de relacionamento
musical. Com Vital Farias, por exemplo, ele emigrou para o Rio de Janeiro há
30 anos: “Lá a primeira coisa que fizemos foi um trabalho com um grupo de
teatro do qual participava Elba Ramalho”. Esclarece, portanto, a presença da
cantora no CD. “Estes anos todos venho colecionando amigos”. Um dos
“colecionados” foi o baiano Xangai, que o levou a outro baiano, o arredio
Elomar. Aqui uma curiosidade. A música que Elomar cantaria, Aboiando o
peixe-boi já havia sido gravada por Zeca Baleiro. No entanto, Elomar,
quando a escutou achou que aquilo era uma incelença, e gravou-a com outro
ritmo e título: Incelença para um povo-boi.
DISCO – “Ligados na
modernidade medieval. Elefantes de palha desta indústria de cosméticos”.
Esta é a frase que abre Vem no Vento. Aparentemente sem sentido, ela
captura o espírito do disco, caótico e ao mesmo tempo cartesianamente
organizado, como os melhores trabalhos de Tom Zé, influência assumida de
Pedro Osmar. Vem no Vento é um exercício de mimetismo musical. Em
cada faixa assume-se o estilo do convidado, ao mesmo tempo que se mantém as
características do Jaguaribe Carne. A faixa-título, por exemplo, poderia ser
tomada por uma nova composição de Lenine, mas é assinada apenas por Pedro
Osmar (é cantada em dueto pelos dois), o mesmo se poderia dizer de
Comentário, que tem participação de Lula Queiroga, que a canta com seu
autor, Paulo Ró.
A personalidade de Pedro Osmar é
tão forte, que ele faz Xangai desviar-se da cantoria, e soltar a voz
acompanhado de uma estridente guitarra elétrica, e o retraído Bráulio
Tavares, soltar a voz, gutural, em Ao mesmo tempo (Paulo Ró), uma
ensandecida embolada eletrônica espacial (uma das melhores faixas do disco).
O CD tem 20 músicas, cada qual mais surpreendente do que a outra. Difícil a
comissão julgadora do Prêmio Tim descobrir um disco mais bonito, estranho e
instigante.
(Vem no Vento, pode ser encontrado na loja Passa-Disco, no
Shopping Sítio da Trindade, em Casa Forte, ou encomendado a Chita Discos,
pelo fone (011) 3673.0165)
(©
Jornal do Commercio-PE)
Experimentalismo e ritmos regionais
Grupo paraibano Jaguaribe Carne lança Vem
no Vento
Marcelo Benevides
O grupo Jaguaribe
Carne é uma espécie de coletivo artístico que vem movimentando a música
nordestina há 30 anos. Tendo como núcleo os irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró, o
conjunto tem seu nome inspirado em um bairro da cidade de João Pessoa, onde
surgiu em 1974, misturando o experimentalismo a ritmos tradicionais como
coco e maracatu, aliados a letras cujo caráter poético é bastante acentuado.
Dessa forma, compartilharam o cenário alternativo da época com figuras como
Lenine e Lula Queiroga. Para celebrar a fertilidade do terreno cultural
paraibano, o recém-criado selo Chita Discos, de Chico César, acaba de
estrear no mercado com o lançamento do novo disco do Jaguaribe Carne, Vem No
Vento.
Como Chico define no texto de divulgação do CD, “não
esperem espetáculo, festinhas de lançamento, videoclipe. Não há tempo,
dinheiro, gente nem vontade de fazer essas coisas”. O trabalho, segundo
Pedro Osmar na apresentação do álbum, “pretende alcançar pessoas, grupos,
entidades e instituições de qualquer lugar, para um possível intercâmbio
interplanetário”. Numa intimidade invejável, os irmãos do Jaguaribe Carne
recebem uma imensa lista de convidados-cúmplices que reúne nomes como Vital
Farias, Totonho, Escurinho, Zeca Baleiro, Elba Ramalho e Chico Correia - é o
Nordeste em peso.
A maioria das faixas de Vem no Vento trazem vinhetas de
abertura, devidamente identificadas no encarte do disco. Na música que dá
título ao CD, Pedro Osmar faz um dueto vocal com Lenine. Enquanto a
minimalista Delírio de Gari divaga sobre a imagem dos urubus (“são aves do
paraíso”), Ferrugem Popular, uma das melhores, traz o blues com sotaque
nordestino, com a participação de Xangai (“Liberdade é o único sentimento de
revolta”). A revolta ainda está presente em Robin Hood Pós, Pois (com Chico
César) e no encontro com o violão erudito-popular de Elomar, em Incelença
Para Um Peixe-Boi (animal freqüentemente lembrado no universo do grupo).
O paraibano Chico Correia é o responsável pela
releitura eletrônica da instrumental Saltos - a propósito, o Jaguaribe Carne
tem três álbuns inteiramente instrumentais no currículo. É caso do LP
Jaguaribe Carne (1993), Signagem (1995) e Viola Caipira (1998).
(©
Folha-PE)
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site do Jaguaribe Carne