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 Um piano, uma paixão

20/02/2004

 

 

A professora de música Nízia Diogo Maia
 

Pianista e professora de música, Nízia Diogo Maia faleceu no último dia 9 aos 77 anos, deixando um legado de amor à música clássica, disciplina e dedicação ao estudo do piano

   Cedo da manhã, já por volta das sete horas, a professora Nízia Diogo Maia chegava no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Invariavelmente era a primeira a chegar. Sentava-se ao piano e dava início a seus exercícios diários, antes da chegada dos alunos e outros colegas. Para a pianista Nara Vasconcelos, esta é a principal lembrança da mestra nos tempos de conservatório. ''Praticamente todos da minha geração devem ter esta mesma lembrança. Ela nos deixou esta lição de extrema disciplina. Não abria mão de estar sempre praticando, uma virtude essencial para um instrumentista. Era um professora pontual e objetiva nas suas lições, independente de seu apego aos moldes mais tradicionais de ensino'', adianta.

   No último dia 9, a professora Nízia Diogo Maia faleceu vítima de um aneurisma no coração, aos 77 anos. Para Nara, foi este apego à disciplina e dedicação que lhe rendeu uma carreira longeva e deixou como legado para as várias gerações de músicos cearenses que foram seus alunos. ''Até há pouco, eu a vi acompanhando o Coral de Câmara ao piano'', revela. Hoje, familiares, amigos e ex-alunos fazem homenagem na Missa de 7º dia que será celebrada no Santuário da Paz (na Aldeota), às 19h30min. ''Será uma missa toda cantada pelo Coral de Câmara, do qual foi fundadora e enquanto tinha saúde esteve conosco'', fez questão de salientar a professora Miriam Carlos.

   De família tradicional, era filha de Walderimo Fernandes Maia e Carmelita Diogo Maia, neta do coronel Antonio Diogo e prima do ex-governador César Cals Filho. ''O papai era um apaixonado por música clássica e queria que todas as suas quatro filhas fossem pianistas'', lembrou a caçula Zélia Maia de Assis. ''Somente a Nízia, que era a mais velha, se dedicou aos estudos de piano e seguiu carreira. Nós outras chegamos a ter aulas. Eu, como era a mais nova, fui aluna da própria Nízia. Mas nenhuma das outras continuou'', contou.

   Nízia teve como primeira professora dona Maria de Lourdes Gondim, que era a mestra de todas as garotas da sociedade na época. Depois estudou com Branca Rangel, outra professora de renome em Fortaleza. Integrou a primeira turma de pianistas formadas pelo Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, onde depois se dedicou a ensinar piano, solfejo, harmonia e percepção musical.

   A princípio, sua meta era a carreira de concertista, o que a levou a morar no Rio de Janeiro por dois anos para cursos avançados de piano, quando foi aluna de nomes do porte de Magdalena Tagliaferro e do cearense Jacques Klein. ''Eu ainda era muito pequena, mas lembro que Nízia foi morar no Rio na casa do nosso irmão, Zairo Diógenes Maia. Não houve grande problemas porque ela estava sob os cuidados do irmão mais velho. Fez o curso com a Magdalena Tagliaferro, aproveitou e fez outros cursos também'', conta a irmã.

   Nízia Diogo Maia inclusive representou o Ceará no I Concurso Nacional de Piano, em 1960. ''Ela era uma pianista de uma técnica invejável. Era a única aqui capaz de executar a 'Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro', de Gottschalk, que é uma peça belíssima de grande complexidade'', salientou a amiga Miriam Carlos. ''Ela tinha habilidade especial de leitura à primeira vista, que é uma coisa dificílima. Por isso, Nízia era sempre convidada a acompanhar cantores líricos nacionais e internacionais que vinham se apresentar em Fortaleza'', revelou.

   Apesar do desejo de ser concertista, Nízia Diogo Maia acabou se dedicando mesmo à carreira docente. Chegou a ser professora de Canto Orfeônico e musicologia no colégio da Imaculada Conceição e da escola Alba Frota (quando ainda funcionava no Parque das Crianças). Foi uma das fundadoras do Curso de Música da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ao lado do maestro Orlando Leite, e do Madrigal da Universidade Federal do Ceará. Nos anos 70, ocupou cargo no departamento de promoções da Secretaria da Cultura do Estado e ainda integrou durante 12 anos o Conselho Estadual de Cultura.

   Em 1980, lançou o LP Sons da Terra do Sol, reunindo temas para piano de autores eruditos cearenses da primeira metade do século XX: Alberto Nepomuceno, Branca Bilhar, Elvira Drummond, Paurillo Barroso, entre outros. Este disco ganhou edição em CD nos anos 90. Seu último registro foi a participação como instrumentista e cantora do CD Cantares do Brasil, do Coral de Câmara.

(© NoOlhar.com.br)

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