Pianista e
professora de música, Nízia Diogo Maia faleceu no último dia 9 aos 77 anos,
deixando um legado de amor à música clássica, disciplina e dedicação ao
estudo do piano
Cedo da manhã, já
por volta das sete horas, a professora Nízia Diogo Maia chegava no
Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Invariavelmente era a primeira
a chegar. Sentava-se ao piano e dava início a seus exercícios diários,
antes da chegada dos alunos e outros colegas. Para a pianista Nara
Vasconcelos, esta é a principal lembrança da mestra nos tempos de
conservatório. ''Praticamente todos da minha geração devem ter esta mesma
lembrança. Ela nos deixou esta lição de extrema disciplina. Não abria mão
de estar sempre praticando, uma virtude essencial para um instrumentista.
Era um professora pontual e objetiva nas suas lições, independente de seu
apego aos moldes mais tradicionais de ensino'', adianta.
No último dia 9, a professora Nízia
Diogo Maia faleceu vítima de um aneurisma no coração, aos 77 anos. Para
Nara, foi este apego à disciplina e dedicação que lhe rendeu uma carreira
longeva e deixou como legado para as várias gerações de músicos cearenses
que foram seus alunos. ''Até há pouco, eu a vi acompanhando o Coral de
Câmara ao piano'', revela. Hoje, familiares, amigos e ex-alunos fazem
homenagem na Missa de 7º dia que será celebrada no Santuário da Paz (na
Aldeota), às 19h30min. ''Será uma missa toda cantada pelo Coral de Câmara,
do qual foi fundadora e enquanto tinha saúde esteve conosco'', fez questão
de salientar a professora Miriam Carlos.
De família
tradicional, era filha de Walderimo Fernandes Maia e Carmelita Diogo Maia,
neta do coronel Antonio Diogo e prima do ex-governador César Cals Filho.
''O papai era um apaixonado por música clássica e queria que todas as suas
quatro filhas fossem pianistas'', lembrou a caçula Zélia Maia de Assis.
''Somente a Nízia, que era a mais velha, se dedicou aos estudos de piano e
seguiu carreira. Nós outras chegamos a ter aulas. Eu, como era a mais
nova, fui aluna da própria Nízia. Mas nenhuma das outras continuou'',
contou.
Nízia teve como primeira professora
dona Maria de Lourdes Gondim, que era a mestra de todas as garotas da
sociedade na época. Depois estudou com Branca Rangel, outra professora de
renome em Fortaleza. Integrou a primeira turma de pianistas formadas pelo
Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, onde depois se dedicou a
ensinar piano, solfejo, harmonia e percepção musical.
A princípio, sua meta era a
carreira de concertista, o que a levou a morar no Rio de Janeiro por dois
anos para cursos avançados de piano, quando foi aluna de nomes do porte de
Magdalena Tagliaferro e do cearense Jacques Klein. ''Eu ainda era muito
pequena, mas lembro que Nízia foi morar no Rio na casa do nosso irmão,
Zairo Diógenes Maia. Não houve grande problemas porque ela estava sob os
cuidados do irmão mais velho. Fez o curso com a Magdalena Tagliaferro,
aproveitou e fez outros cursos também'', conta a irmã.
Nízia Diogo Maia
inclusive representou o Ceará no I Concurso Nacional de Piano, em 1960.
''Ela era uma pianista de uma técnica invejável. Era a única aqui capaz de
executar a 'Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro', de
Gottschalk, que é uma peça belíssima de grande complexidade'', salientou a
amiga Miriam Carlos. ''Ela tinha habilidade especial de leitura à primeira
vista, que é uma coisa dificílima. Por isso, Nízia era sempre convidada a
acompanhar cantores líricos nacionais e internacionais que vinham se
apresentar em Fortaleza'', revelou.
Apesar do desejo de ser
concertista, Nízia Diogo Maia acabou se dedicando mesmo à carreira
docente. Chegou a ser professora de Canto Orfeônico e musicologia no
colégio da Imaculada Conceição e da escola Alba Frota (quando ainda
funcionava no Parque das Crianças). Foi uma das fundadoras do Curso de
Música da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ao lado do maestro
Orlando Leite, e do Madrigal da Universidade Federal do Ceará. Nos anos
70, ocupou cargo no departamento de promoções da Secretaria da Cultura do
Estado e ainda integrou durante 12 anos o Conselho Estadual de Cultura.
Em 1980, lançou o LP Sons da
Terra do Sol, reunindo temas para piano de autores eruditos
cearenses da primeira metade do século XX: Alberto Nepomuceno, Branca
Bilhar, Elvira Drummond, Paurillo Barroso, entre outros. Este disco ganhou
edição em CD nos anos 90. Seu último registro foi a participação como
instrumentista e cantora do CD Cantares do Brasil, do Coral
de Câmara.
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