A cantora de folclore pernambucana caiu
nas graças dos modernos e, aos 59 anos, parte para uma turnê internacional
EDUARDO BURCKHARDT
O jornal The New York Times
a chamou de 'diva da música negra'. O francês Le Parisien comparou
sua voz à da cabo-verdiana Cesária Évora. No Brasil, críticos de música
comparam-na a Clementina de Jesus. No entanto, ainda há quem duvide que a
cirandeira Lia de Itamaracá realmente exista. Para muita gente, trata-se de
uma personagem que vive apenas nos versos Essa ciranda quem me deu foi
Lia,/que mora na Ilha de Itamaracá, uma música de domínio público
gravada pela primeira vez por Teca Calazans, em 1963. Mas Lia é real, tem 59
anos e sua existência pode ser comprovada na turnê que iniciou na semana
passada pelo Brasil. Em julho, ela continuará pela Europa. Também poderá ser
vista num documentário, dirigido pela cineasta carioca Karen Akerman, que
dará origem a livro, CD e DVD. 'Eita! É muita felicidade!', festeja Lia.
'Nunca pensei que um dia fosse virar uma estrela de cinema.'
A compositora lançou o primeiro CD
aos 57 anos. Eu Sou Lia, da pernambucana Ciranda Records,
especializada em música 'de raiz', acabou distribuído na França por um selo
de world music. A voz rascante de Lia chamou a atenção. Suas canções foram
batizadas pela imprensa de 'trance music', numa tentativa de explicar o
transe que aquele som causava no público. E os DJs passaram a produzir
versões sampleadas das músicas, que logo conquistaram as pistas de dança. Ao
mesmo tempo, no Brasil, Lia conquistou os modernos. Gravou uma faixa no CD
Rádio Samba, do grupo Nação Zumbi, e teve seu nome citado em versos
dos pernambucanos Lenine e Otto. Em breve, uma de suas cirandas chega às
lojas em versão dub - um reggae marcado por efeitos eletrônicos - no CD
Mauritztadt Dub, da Candeeiro Records.
Nascida Maria Madalena Correa do
Nascimento, Lia foi a única de 22 filhos a se dedicar à música. 'Não puxei a
ninguém, foi dom de Deus e graça de Iemanjá', diz. Embora seja cantora desde
os 17 anos, casada com um músico, havia gravado um único disco, de vinil, em
1977, e nunca recebeu nada por ele. Como fazia poucos shows, em geral pagos
com caixas de cerveja, a estrela das pistas ganhava a vida como merendeira
numa escola pública. Com o salário, sustentou dois filhos adotivos. O
sucesso tardio pode mudar a sorte de Lia. Ela ainda vive na Ilha de
Itamaracá, hoje um bairro popular.
(©
ÉPOCA)