Com a decadência do axé, o rock da Bahia
cresce e volta a fazer sucesso fora do Estado
TIAGO CORDEIRO
Salvador já não é
só a terra da axé music há algum tempo. O estilo não chegou a morrer, como
anunciam seus adversários, mas voltou ao lugar de onde veio: o Carnaval, as
micaretas, as feiras populares. O movimento mais beneficiado pela decadência
foi o rock. Nos últimos dois anos, 20 bandas conseguiram gravar o primeiro
CD e várias encararam com sucesso os principais festivais do país, mostrando
alta criatividade. 'Muitos dos maiores músicos baianos estão no rock. Alguns
grupos não devem nada aos melhores do Brasil', avalia Osvaldo Braminha,
produtor da MTV na cidade.
Uma parte dos
baianos segue a receita pernambucana e mistura guitarras com música de raiz.
O exemplo mais bem-sucedido é o dos Lampirônicos, que estão preparando o
segundo CD e a primeira turnê européia. Em seu segundo disco, recém-lançado,
o Super Fly usa a mesma fórmula. Boas novidades são a cantora Jurema Paes,
que recorre às sanfonas e aos agogôs, e os grupos O Cumbuca, que cruza o som
pesado com os batuques dos afoxés, e Zambotronic, que toca samba, soul, funk
e hardcore, tudo ao mesmo tempo.
Há quem não
concorde com essa postura, apelidada em Salvador de 'rock moqueca', e busque
suas referências longe da Bahia. É o caso das emergentes The Honkers, Tara
Code, Soma e Brinde. É também a opção de Penélope, a primeira banda local de
destaque nacional nos anos 90. Isso para não falar de Rebeca Matta, que
afoga suas guitarras numa ambientação eletrônica, e do mais novo sucesso do
rock baiano, a cantora Pitty.
Pitty faz parte de
uma geração de roqueiros que surgiu há dez anos e acabou submersa pelos
tambores. Hoje esses músicos são produtores das novas bandas e lançam-se em
projetos promissores, como Retrofoguetes e Nancyta e os Grazzers. 'Muita
gente boa só conseguiu se manter graças à indústria do Carnaval', lembra o
produtor André Tavares. 'O axé profissionalizou a música feita em Salvador.'
Alguns artistas,
como o cantor Paquito, tiveram de abolir a guitarra. Depois de liderar uma
banda de rock nos anos 80, ele compôs músicas para Maria Bethânia, produziu
CDs de samba e dirigiu um show de Daniela Mercury. A diva do axé,
curiosamente, iniciou a carreira como vocalista da banda pop-rock Companhia
Clic em 1989. Agora Paquito conseguiu lançar seu primeiro trabalho-solo, o
disco de rock Falso Baiano. 'Não faço música de Carnaval. Fica
parecendo que todo baiano é meio abestalhado.'
O rock baiano tem
uma tradição respeitável. 'A escola soteropolitana de rock é uma das mais
radicais do Brasil. Deve ser reação à força da MPB na Bahia', teoriza Nasi,
o vocalista do Ira!. 'De Raul Seixas até o Camisa de Vênus foram 15 anos de
vácuo. Já estava na hora de acontecer alguma coisa em Salvador', comemora o
cantor Marcelo Nova. A cidade ainda não tem uma rádio dedicada ao estilo e
não existem muitas casas de show abertas aos roqueiros. Mas alguma coisa
acontece em Salvador, e não é Carnaval.
(©
ÉPOCA)