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 Tem moqueca no rock’n’roll

20/02/2004

 

 

Lampirônicos
 

Com a decadência do axé, o rock da Bahia cresce e volta a fazer sucesso fora do Estado

TIAGO CORDEIRO

   Salvador já não é só a terra da axé music há algum tempo. O estilo não chegou a morrer, como anunciam seus adversários, mas voltou ao lugar de onde veio: o Carnaval, as micaretas, as feiras populares. O movimento mais beneficiado pela decadência foi o rock. Nos últimos dois anos, 20 bandas conseguiram gravar o primeiro CD e várias encararam com sucesso os principais festivais do país, mostrando alta criatividade. 'Muitos dos maiores músicos baianos estão no rock. Alguns grupos não devem nada aos melhores do Brasil', avalia Osvaldo Braminha, produtor da MTV na cidade.

   Uma parte dos baianos segue a receita pernambucana e mistura guitarras com música de raiz. O exemplo mais bem-sucedido é o dos Lampirônicos, que estão preparando o segundo CD e a primeira turnê européia. Em seu segundo disco, recém-lançado, o Super Fly usa a mesma fórmula. Boas novidades são a cantora Jurema Paes, que recorre às sanfonas e aos agogôs, e os grupos O Cumbuca, que cruza o som pesado com os batuques dos afoxés, e Zambotronic, que toca samba, soul, funk e hardcore, tudo ao mesmo tempo.

   Há quem não concorde com essa postura, apelidada em Salvador de 'rock moqueca', e busque suas referências longe da Bahia. É o caso das emergentes The Honkers, Tara Code, Soma e Brinde. É também a opção de Penélope, a primeira banda local de destaque nacional nos anos 90. Isso para não falar de Rebeca Matta, que afoga suas guitarras numa ambientação eletrônica, e do mais novo sucesso do rock baiano, a cantora Pitty.

   Pitty faz parte de uma geração de roqueiros que surgiu há dez anos e acabou submersa pelos tambores. Hoje esses músicos são produtores das novas bandas e lançam-se em projetos promissores, como Retrofoguetes e Nancyta e os Grazzers. 'Muita gente boa só conseguiu se manter graças à indústria do Carnaval', lembra o produtor André Tavares. 'O axé profissionalizou a música feita em Salvador.'

   Alguns artistas, como o cantor Paquito, tiveram de abolir a guitarra. Depois de liderar uma banda de rock nos anos 80, ele compôs músicas para Maria Bethânia, produziu CDs de samba e dirigiu um show de Daniela Mercury. A diva do axé, curiosamente, iniciou a carreira como vocalista da banda pop-rock Companhia Clic em 1989. Agora Paquito conseguiu lançar seu primeiro trabalho-solo, o disco de rock Falso Baiano. 'Não faço música de Carnaval. Fica parecendo que todo baiano é meio abestalhado.'

   O rock baiano tem uma tradição respeitável. 'A escola soteropolitana de rock é uma das mais radicais do Brasil. Deve ser reação à força da MPB na Bahia', teoriza Nasi, o vocalista do Ira!. 'De Raul Seixas até o Camisa de Vênus foram 15 anos de vácuo. Já estava na hora de acontecer alguma coisa em Salvador', comemora o cantor Marcelo Nova. A cidade ainda não tem uma rádio dedicada ao estilo e não existem muitas casas de show abertas aos roqueiros. Mas alguma coisa acontece em Salvador, e não é Carnaval.

A BOA TERRA DOS RADICAIS 
Nos anos 60, Raul Seixas inaugurou a linhagem roqueira de Salvador
1968
1972
1983
1998

Arq. Ed. Globo

Raul Seixas lança seu primeiro disco, Raulzito e os Panteras

Arq. Ag. O Globo

Os Novos Baianos fundem bossa-nova e rock no LP Acabou Chorare
Camisa de Vênus, um dos expoentes do rock nacional na década, estréia em gravação, com o disco Controle Total

Otávio Dias de Oliveira/ÉPOCA

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(© ÉPOCA)

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