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 Dolores do agreste

20/02/2004

 

 

Helder Aragão, o DJ Dolores
 

DJ pernambucano ganha prêmio britânico e inova cenário pop com propostas alternativas de criação

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL

   Enquanto alguns artistas esperam definições sobre que configurações a música terá no futuro, há os que põem a mão na massa e inventam eles próprios os novos modelos. O DJ Dolores (codinome do pernambucano Helder Aragão, 36) é dos mais atuantes e ativos nesse segundo grupo.

   Prestes a se apresentar no festival anticarnavalesco Rec Beat, Dolores abandonou por completo os conceitos e manias da indústria fonográfica. Já gravou e lançou dois discos por meios alternativos, tem engatilhados mais dois para este ano.

   Um deles será assinado pela Aparelhagem, nova banda/projeto de um artista que já gravou sozinho e comandou a Orchestra Santa Massa, num mix de raiz pernambucana e música eletrônica anos 2000.

   Ainda em produção, "Aparelhagem" deve ser o primeiro produto do Azougue Discos, selo de Dolores em parceria com o produtor Paulo André. "Estamos na fase de articulação para que haja simultaneidade de lançamento no Brasil, na Europa e na América do Norte", arquiteta.

   O outro disco, já pronto, é a trilha do filme "Narradores de Javé", que será lançado neste semestre sob a alcunha "DJ Dolores versus Instituto" (o coletivo paulistano co-produziu o trabalho).

   "Decidimos que o CD com a trilha tinha que ser um produto mais atraente. Deixei os rapazes do Instituto livres para mixarem ao modo deles, inclusive agregando parcerias", explica, desfiando novos modos de parceria.

   Adepto de uma filosofia libertária de direitos autorais, cedeu à Folha gratuitamente a gravação "Narradores (Instituto Mix)". Você pode ouvi-la pelo tel. do Folha Informações (0/xx/11/3471-4000, opção 4, ao custo da ligação, apenas) ou fazer download em www.folhainformacoes.com.br.

   Além de tudo, Dolores procura fazer do aperto econômico um trunfo: dispensa intermediários e assessores e faz, ele próprio, a divulgação de seu trabalho junto a produtores de shows, jornalistas etc. "Sou meu próprio divulgador", diverte-se.

Club global

   A estratégia de Dolores produz efeitos que ultrapassam as fronteiras do Brasil natal. Já se apresentou entre Björk e Moby, em Portugal, e após o Coldplay, na Dinamarca.

   Na Inglaterra, acaba de vencer o prêmio BBC Awards, na categoria denominada "club global". "É um rótulo para a world music eletrônica, o jeito gringo de catalogar a eletrônica não ortodoxa", define.

   Afora exotismos world music, defende a importância da premiação: "É o reconhecimento de um trabalho inovador. Estou efetivamente apresentando uma nova informação. Faço parte das pessoas que estão em busca da batida perfeita, seja lá em que sotaque ou idioma for".

   Pouco conhecido aqui e acreditando na vigência do que chama "espírito do colonizado" (segundo o qual "só é bom o que vem de fora"), ele ainda assim diz que não se julga um brasileiro exilado do Brasil em Recife, onde mora.

   "A decisão de investir numa carreira internacional é pragmática. Gera bons cachês, é estável e altamente profissional", diz. E ressalta que seu "Contraditório?" (Candeeiro, 2002) chegou a ser o título mais vendido entre os distribuídos pela Trama.

   Negando o exílio, avança também contra o que chama de centralismo interno, especialmente de São Paulo. Reclama que só são mencionados Rio e São Paulo quando se fala sobre DJs daqui.

   "É lamentável que cenas tão ou mais interessantes sejam relegadas ao esquecimento", afirma, exemplificando com a cena de DJs de reggae de São Luís (MA), os remixes piratas do "tecnobrega" de Belém (PA) e os DJs pernambucanos, que se multiplicam desde o mangue beat.

   "Todos nós éramos DJs. As bandas do mangue beat vieram depois e influenciaram a música dos anos 90 muito além do gueto clubber", revisa a história.

   "Sou um cidadão do mundo e reivindico o papel da cultura do Norte/Nordeste na formação do Brasil moderno. Sem bairrismo e xenofobia, mas com a dignidade merecida", encerra, num apelo implícito de "vejam-me", "escutem-me", "consumam-me".

(© Folha de S. Paulo)


Recbeat escala 33 atrações em Recife

ISRAEL DO VALE
F
REE-LANCE PARA A FOLHA

   O Recbeat não cabe em si. O festival de rock encravado no Carnaval recifense cresceu tanto que a partir deste ano muda de mala e cuia para um espaço maior, o cais da Alfândega, às margens do rio Capibaribe.

   A nona edição do evento começa neste sábado, com 33 atrações musicais (24 no palco principal). É, como de praxe, uma amostra atenta dos "indies & pendentes" da cena nacional desta vez com um braço esticado para o Mercosul (Abuela Coca, do Uruguai) e outro para além-mar (Bernie's Lounge, da Holanda, Kenny Brown, dos EUA, e o DJ Dan Nantis, da França, que se apresenta na tenda-passarela eletrônica, um corredor de desfiles de moda nos intervalos dos shows).

   A miscelânea impera na programação. A fonte "roots" dá base e horizonte para a maior parte das atrações. A começar pelo trabalho notável do DJ Dolores agora emoldurado pela Aparelhagem, sua (parcialmente) nova banda.

   Quem dá o acorde inicial para a folia (inclusive) roqueira é o grupo pernambucano de afoxé Alafin Oyó, às 19h30 de sábado. Até a Terça-Feira Gorda, seis atrações revezam-se no palco a cada noite.

   Há desde nomes conhecidos da cena mangue beat (Eddie, Devotos, Nação Zumbi) aos seus herdeiros (a Refinaria, novo projeto de Silvério Pessoa, ou o Zambo, grupo de matriz cênica) e bastiões da tradição (Samba de Coco Raízes de Arcoverde, Maciel Salú).

   A mesma tradição vai ao palco, com maracatus como Nação Porto Rico e Estrela Brilhante. Segundo Gutie, o criador do festival, a idéia é justamente "colocar sob as luzes coisas que as pessoas estão vendo à sua volta, mas que ao ver no palco ganham outra dimensão, outra perspectiva."

   Mas nem tudo é tambor na cena local: há o jazz de acento caribenho do grupo A Roda ou "eletrorock psicodélico retro-futurista" dos Astronautas.

   A escalação interestadual é bastante diversa. Vai do rap de Nega Gizza (RJ) ao encontro entre Bojo e Maria Alcina (SP/MG); do rock-de-batuque de Lan Lan e os Elaines (RJ) ao performático Rogério Skylab (RJ) ou o skacore do Narguilé Hidromecânico (PI).

(© Folha de S. Paulo)


DJ Dolores ganha prêmio britânico e inova cenário pop

   Enquanto alguns artistas esperam definições sobre que configurações a música terá no futuro, há os que põem a mão na massa e inventam eles próprios os novos modelos. O DJ Dolores* (codinome do pernambucano Helder Aragão, 36) é dos mais atuantes e ativos nesse segundo grupo.

   Prestes a se apresentar no festival anticarnavalesco RecBeat, Dolores abandonou por completo os conceitos e manias da indústria fonográfica. Já gravou e lançou dois discos por meios alternativos, tem engatilhados mais dois para este ano.

   Um deles será assinado pela Aparelhagem, nova banda/projeto de um artista que já gravou sozinho e comandou a Orchestra Santa Massa, num mix de raiz pernambucana e música eletrônica anos 2000.

   Ainda em produção, "Aparelhagem" deve ser o primeiro produto do Azougue Discos, selo de Dolores em parceria com o produtor Paulo André. "Estamos na fase de articulação para que haja simultaneidade de lançamento no Brasil, na Europa e na América do Norte", arquiteta.

   O outro disco, já pronto, é a trilha do filme "Narradores de Javé", que será lançado neste semestre sob a alcunha "DJ Dolores versus Instituto" (o coletivo paulistano co-produziu o trabalho).

   "Decidimos que o CD com a trilha tinha que ser um produto mais atraente. Deixei os rapazes do Instituto livres para mixarem ao modo deles, inclusive agregando parcerias", explica, desfiando novos modos de parceria.

   Além de tudo, Dolores procura fazer do aperto econômico um trunfo: dispensa intermediários e assessores e faz, ele próprio, a divulgação de seu trabalho junto a produtores de shows, jornalistas etc. "Sou meu próprio divulgador", diverte-se.

Club global

   A estratégia de Dolores produz efeitos que ultrapassam as fronteiras do Brasil natal. Já se apresentou entre Björk e Moby, em Portugal, e após o Coldplay, na Dinamarca.

   Na Inglaterra, acaba de vencer o prêmio BBC Awards, na categoria denominada "club global". "É um rótulo para a world music eletrônica, o jeito gringo de catalogar a eletrônica não ortodoxa", define.

   Afora exotismos world music, defende a importância da premiação: "É o reconhecimento de um trabalho inovador. Estou efetivamente apresentando uma nova informação. Faço parte das pessoas que estão em busca da batida perfeita, seja lá em que sotaque ou idioma for".

   Pouco conhecido aqui e acreditando na vigência do que chama "espírito do colonizado" (segundo o qual "só é bom o que vem de fora"), ele ainda assim diz que não se julga um brasileiro exilado do Brasil em Recife, onde mora.

   "A decisão de investir numa carreira internacional é pragmática. Gera bons cachês, é estável e altamente profissional", diz. E ressalta que seu "Contraditório?" (Candeeiro, 2002) chegou a ser o título mais vendido entre os distribuídos pela Trama.

   Negando o exílio, avança também contra o que chama de centralismo interno, especialmente de São Paulo. Reclama que só são mencionados Rio e São Paulo quando se fala sobre DJs daqui.

   "É lamentável que cenas tão ou mais interessantes sejam relegadas ao esquecimento", afirma, exemplificando com a cena de DJs de reggae de São Luís (MA), os remixes piratas do "tecnobrega" de Belém (PA) e os DJs pernambucanos, que se multiplicam desde o mangue beat.

   "Todos nós éramos DJs. As bandas do mangue beat vieram depois e influenciaram a música dos anos 90 muito além do gueto clubber", revisa a história.

   "Sou um cidadão do mundo e reivindico o papel da cultura do Norte/Nordeste na formação do Brasil moderno. Sem bairrismo e xenofobia, mas com a dignidade merecida", encerra, num apelo implícito de "vejam-me", "escutem-me", "consumam-me".

* DJ Dolores é colunista do JC OnLine. Clique AQUI para acessar a coluna HEADPHONE

(© JC Online)


Aparelhagem estréia no Carnaval

DJ Dolores passa por dupla provação e enfrenta síndrome do segundo disco com banda nova

   Esqueça a estrutura previsível do rock’n’roll, com carreiras longas e músicos estáticos. A cultura eletrônica tem a ver com novidade, frescor e eterna reciclagem. Expoente maior desse universo no Recife (e um dos tops do ramo no Brasil, com vasto prestígio entre os gringos), Hélder Aragão, o DJ Dolores, descarta de vez a sua Orchestra Santa Massa – o mais bem-sucedido projeto musical de Pernambuco pós-Chico Science – e apresenta, segunda-feira, no palco do Festival Recbeat, a sua Aparelhagem.

   “O nome (Aparelhagem) é uma referência aos grandes sound systems do Norte do País, mais especificamente em Belém do Pará. Me interessa o abrasileiramento da cultura em torno da dance music”, explica Hélder. No palco, desta vez o produtor será acompanhado pelos músicos Lucas dos Prazeres, Francisco ‘Forró’ Amâncio, Fernando Catatau e Isaar França, responsável pelos vocais mais memoráveis da Orchestra Santa Massa.

   Sobre o ‘repeteco’ de Isaar em seu novo projeto, Hélder tem a justificativa na ponta da língua: “todo produtor precisa da sua diva. Ela é a minha.”

   Para os fãs da sonoridade bem particular da Santa Massa, Hélder avisa que há pontos em comum entre ela e a Aparelhagem. “Será um show relativamente parecido, o diálogo entre eletrônica e acústico permanece, mas um pouco mais sofisticado. Melhorei bastante minha técnica e também estou levando equipamento novo para o palco. A maior diferença é quanto ao set instrumental, no qual prevalecem um trombone e uma guitarra dedilhada, super cool, de Fernando Catatau. Sei que haverá uma fila de observadores comparando essa estréia com a Santa Massa. Espero agradar-lhes. E também agradar a quem não gostava da Santa Massa.”

   A Aparelhagem de DJ Dolores não vai estrear só em show. O disco está quase pronto. “A data de lançamento vai ser definida em função da simultaneidade de lançamento no Brasil, Europa e América do Norte. É uma articulação que leva tempo e imagino que só deveremos lançar esse material no segundo semestre. Mas antes disso, me aguardem: faremos um EP com 4 faixas novas a ser comercializado por um preço mais baixo que o normal.”

   Para a estréia em CD da Aparelhagem, alguns convidados ilustres foram escolhidos: João Parahyba (Trio Mocotó), Éder, o Rocha (Mestre Ambrósio), Frank London, que já tocou com Isaac Hayes, e LL Coll Jay.

   Diante do desafio de descartar um projeto de tanto sucesso, para recomeçar tudo, Hélder encara uma responsabilidade ainda maior do que aquela do segundo disco – a tal ‘síndrome’. Apesar disso, ele se diz renovado. “A Santa Massa durou três anos maravilhosos, mas não gosto de me imaginar repetindo as mesmas coisas a vida inteira. Tem que ter desafios para tornar a vida estimulante! Quem sabe um dia a Santa Massa se encontra de novo pra tocar alguma coisa... Eu, particularmente, lamento que não fizemos uma gravação de qualidade ao vivo”. (S.C.)

(© JC Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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