MARCOS TOLEDO
No livro em que relata sua
filmografia, 20 Anos de Cinema (1969-1989), o cineasta Fernando
Spencer, 77 anos, inclui uma citação do crítico Paulo Emílio Sales Gomes,
segundo o qual “os nordestinos fazem cinema por teimosia e obstinação.”
Nenhuma outra definição seria mais adequada a Spencer, curta-metragista que
tem sua obra discutida no Ciclo Documentário em Pauta, Fundaj.
O debate Trajetória do
Documentário Pernambucano, que ocorre na Sala João Cardoso Ayres, é também
uma homenagem ao diretor. Para a análise de sua obra foram escolhidos os
filmes Adão Foi Feito de Barro, Santa do Maracatu e
Estrelas de Celulóide, filmes que destacam a característica regionalista
do autor. Além disso, estas obras possuem características que resumem uma
obra que se confunde com a própria cinematografia do Estado.
Adão Foi Feito de Barro
(1978), que o cineasta considera seu primeiro trabalho profissional,
co-produzido pela TVU, e exibido em circuito nacional – quando as salas
comerciais ainda eram obrigadas a incluírem curtas na programação – mostra a
atividade dos ceramistas do Alto do Moura, em Caruaru. Revela, assim, o
olhar humanista do diretor. “Ninguém havia falado deles ainda”, recorda.
Santa do Maracatu (1980)
apresenta outro tema de interesse de Spencer: o Carnaval. Sem dúvida, é ele
o principal documentarista do assunto, autor de títulos como Caboclinhos
do Recife (1974), O Teu Cabelo Não Nega (1975), Um Instante
Maestro Nelson Ferreira (1976), Capiba: Ontem, Hoje e Sempre
(1984), Trajetória do Frevo (1988) e Os Irmãos Valença (2003).
“Neste documentário, mostro as origens negras do maracatu” explica. “Para
ilustrar, coloco o museu de Dona Santa, que ficava na Fundaj (no Museu do
Homem do Nordeste, em Apipucos).”
O terceiro curta programado para a
noite de hoje, Estrelas de Celulóide (1986), denota uma preocupação
do autor – também presente em vários outros filmes – com a história do
cinema pernambucano. “Nele, reconstitui um chá dos anos de 1920”, conta
Spencer. Mistura de ficção e documentário, no filme há uma reunião cujas
personagens são as estrelas do chamado Ciclo do Recife.
Aposentado do jornalismo, no qual
fez carreira por mais de quatro décadas, Spencer tem sempre projetos
audiovisuais e busca recursos para viabilizar suas novas idéias. “Não paro
de maneira nenhuma. Vou morrer com o cinema”, afirma. “O cinema é minha
vida. Enquanto eu tiver idéias para fazer, eu faço”.
(©
JC Online)
Confira filmografia de Spencer
FILMES:
1. A Busca (ficção) - 16mm. 7min. 1969
2. Humor Branco (ficção) - 16mm. 90seg. 1969
3. Safári (experimental) - 16mm. 90seg. 1969
4. Labirinto (ficção) - Super 8. 10min. 1973
5. Caboclinhos do Recife (documentário) - Super 8. 10min. 1974
6. Bajado: Um Artista de Olinda (documentário) - Super 8. 10min.
1974 (co-direção com Celso Marconi)
7. Valente É o Galo (documentário) - Super 8.10min. 1974
8. Quem Matou Marilyn (documentário-colagem) - Super 8. 10min. 1975
9. O Teu Cabelo Não Nega (documentário) - Super 8. 10min. 1975
10. Domingo de Fé (documentário) - Super 8. 10min. 1976
11. Toré, a Nossa Senhora das Montanhas (documentário) - Super 8. 10min.
1976
12. Técnica de Operação Cesariana (documentário) - Super 8. 18min. 1976
13. Um Instante Maestro Nelson Ferreira (documentário) - Super 8. 10min.
1976
14. Punhos e Punhais (Ficção) - Super 8, 30min. 1977
15. Farinhada (documentário) - Super 8. 10min. 1977
16. A Eleição do Diabo e a Posse de Lampião no Inferno (Ficção) - Super 8.
10min. 1977
17. Frei Damião: Um Santo no Nordeste? (documentário) - Super 8. 10min. 1977
(co-direção com Flávio Rodrigues)
18. As Corocas Se Divertem (animação) - Super 8. 4min. 1977
19. Adão Foi Feito de Barro (documentário) - 16mm. 13min. 1978
20. RH Positivo (Ficção) - Super 8. 10min. 1978
21. Cinema Glória (documentário) - Super 8. 15min. 1979 (co-direção com
Félix Filho)
22. Noza, Santeiro do Cariri (documentário) - 16mm. 10min. 1979
23. Pernambuco: Tempo de Revolução (documentário) - 16mm. 10min. 1979
24. Santa do Maracatu (documentário) - 16mm. 10min. 1980
25. Jota Soares: Um Pioneiro do Cinema (documentário) - 35mm. 13min. 1981
(co-direção com Flávio Rodrigues)
26. Almeri e Ari: Ciclo do Recife e da Vida (documentário) - 35mm. 9min.
1981
27. Eróticos Corbiniano (documentário) - Super 8. 10min. 1981
28. Capibaribe (documentário) - 16mm. 7min. 1981
29. Memorando: Ciclo do Recife (documentário) - 16mm. 16min. 1982
30. Sombras, Adeus (documentário) - 16mm. 7min. 1982
31. Capiba, Ontem, Hoje e Sempre (documentário) - 16mm. 10min. 1984
32. O Amigo Péricles (documentário) - 16mm. 9min. 1984
33. Estrelas de Celulóide (Ficção) - 16mm. 14min. 1986
34. O Último Bolero no Recife (Ficção) - 35mm.10min. 1988
35. Trajetória do Frevo (documentário) - 35mm. 9min. 1988
36. História de Amor em 16 Quadros por Segundo - 16mm. 14min.
1998 (co-direção com Amin Stepple)
VÍDEOS:
1. Ciclo: História de Amor em 16 Quadros por
Segundo - 26min. 1988 (co-direção com Amin Stepple)
2. O Menino de Massangana - 14min. 1990
3. Cinema Pernambucano: 70 Anos - 20min. 1990
4. A Bala e a Mitra - 26min. 1994
5. Recife: Cidade do Zepelim - 9min. 1997
6. A Arte de Ser Profano - 14 min. 1999
7. Os Irmãos Valença - 11min. 2003
(©
JC Online)
Fundaj rende tributo a Fernando Spencer
Em mais uma
etapa do projeto Documentário em Pauta - Trajetória do Documentário
Pernambucano, o Instituto de Cultura da Fundação Joaquim Nabuco e a
Massangana Multimídia, esfera audiovisual da instituição, recebeu,
na sala João Cardoso Ayres (na Fundaj do Derby), o cineasta Fernando Spencer
e três de seus filmes - Santa do Maracatu, Adão Foi Feito de Barro e
Estrelas de Celulóide.
Desde o ano passado, o Documentário em
Pauta se ocupa em debater esse gênero, tão em voga no Brasil, e aproximá-lo
da platéia recifense. O roteiro no documentário, a utilização de imagens de
arquivo e a montagem de um filme documental são alguns dos tópicos já
discutidos no ciclo, que hoje presta um tributo a Spencer, realizador
prolífico (são mais de 35 títulos no currículo) e atuante na preservação da
memória cinematografica pernambucana.
Os três filmes exibidos foram produzidos
entre os anos 70 e 80 - Adão Foi Feito de Barro em 1978, Santa em 1980 e
Estrelas de Celulóide em 1986. Santa do Maracatu fala da Dona Santa,
figura-chave da história das manifestações populares pernambucanas. "Ganhou
dois prêmios nacionais, assim como Estrelas de Celulóide, sobre as pessoas
que fizeram o Ciclo do Recife dos anos 20, que ganhou o Candango de prêmio
especial da crítica no Festival de Brasília", diz o próprio cineasta, que se
voltou para o tema dos pioneiros do cinema local em outros curtas, como Jota
Soares: Um Pioneiro do Cinema e Almeri e Ari: Ciclo do Recife e da Vida.
Para Spencer, a iniciativa da Fundaj serve
também para apresentar "à nova geração" o que se fez no passado. "A
juventude de hoje não conhece nada do Super 8, por exemplo, só sabe de
nome", lamenta. "É preciso preservar esses filmes, arrumar dinheiro para
passá-los para DVD. Esses três que vão ser exibidos hoje foram feitos em 16
mm e chegaram a ser ampliados para 35 mm por conta de um prêmio do Conselho
Nacional de Cinema, mas outros filmes meus permanecem em 16 mm", acrescenta.
(LV)
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