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 Rec Beat de todos os ritmos

20/02/2004

 

 

Silvério Pessoa
 

DJ Dolores e Silvério unem experimentações eletrônicas à cultura popular

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   Na escalação de atrações pernambucanas do Rec Beat há grupos vindos da cultura popular, como o Coco Raízes de Arcoverde e Maciel Salu, e outros mais envolvidos com a música pop, como Eddie, Nação Zumbi e A Roda, que mantêm o Estado na vanguarda. Se alguém quiser se antecipar e descobrir quem são os músicos que vão dar o que falar em 2004 quando o assunto são as experimentações, é aposta garantida atentar para esse segundo grupo, que inclui ainda os novos projetos do DJ Dolores e de Silvério Pessoa.

   Silvério mergulha de uma vez na música eletrônica no projeto Refinaria, levado adiante junto com os DJs Felipe Falcão e Zezão Nóbrega e o baterista e percussionista Wilson. Enquanto eles elaboram as batidas dançantes e pesadas, Silvério dá uma de MC nos vocais. Este é o primeiro projeto plenamente autoral do cantor, que em Bate o Mancá dedicou-se à obra de Jacinto Silva e em Micróbio do Frevo investiu em Jackson do Pandeiro e seus parceiros.

   Praticamente todas as músicas que vão ser mostradas no show são de autoria do próprio Silvério (coisa que ele não pôde fazer nos projetos anteriores). A exceção é uma versão drum'n'bass para a canção Chiclete com Banana, de Jackson e Almira Castilho. Com a experiência, ele quer entender "como a música brasileira se completa timbristicamente com a música eletrônica". O cantor quer lançar apenas mil cópias do primeiro disco para modificá-lo na tiragem seguinte e ir reprocessando tudo a cada remessa de mil. "Como numa refinaria, queremos ficar sempre remixando tudo, pois esse é um trabalho em constante mutação".

   MISCIGENAÇÃO - Dolores aproveita o festival carnavalesco do Paço Alfândega para finalmente fazer o primeiro show do projeto Aparelhagem. Depois de largar a Orchestra Santa Massa, ele reuniu um novo grupo de músicos locais para fazer um som diferente, mas com uma proposta próxima do estilo que o DJ inventou, um desdobramento evolutivo de algo que precisava se desenvolver acompanhando tendências mundiais. O som caótico produzido pelo povo brasileiro, das cidades e do interior, em suas influências árabes e latinas, continua sendo a matéria-prima que o músico embrulha em embalagem eletrônica.

  Da Santa Massa, a única integrante que continua é a cantora e percussionista Isaar França (do grupo Comadre Fulozinha), desta vez acompanhada do também percussionista Lucas dos Prazeres e Francisco Forró (da Orquestra Popular da Bomba do Emetério), responsável pelos metais, peça essencial na Aparelhagem. Amparado por computadores e instrumentos acústicos, o grupo sai da Zona da Mata pernambucana, passa pelo caribe, visita influências mouras, encosta no carimbó do Pará e aterrisa nas pistas de dança. Dolores conseguiu encontrar o que há de música eletrônica na cultura popular vice-e-versa, e com isso está ganhando o mundo. A música-tema do filme Narradores de Javé, com bate-estaca, rabeca e metais de maracatu rural, deve entrar no repertório.

(© Pernambuco.com)


O Rec Beat

   O Rec Beat, há nove anos, foi feito para dar abrigo aos alternativos que não curtiam muito essa praxe carnavalesca de frevo, blocos, multidões, calor, suor e cerveja. Para começar, sempre foi à noite, quando os foliões de verdade já estavam regressando para suas casas a fim de recuperar as energias para o dia seguinte. Também era o festival onde visitantes e turistas do Carnaval poderiam conhecer a famosa e diversa cena musical da cidade. O tempo passou, o Rec Beat cresceu, do manguebeat quase não se fala, ao contrário da música tradicional do Carnaval, uma cultura cada vez mais forte. O Rec Beat teve, portanto, que criar um ponto de interseção com o Carnaval.

   Frevo, maracatu rural e de baque virado, coco, caboclinho, afoxé etc. Os ritmos que demonstram a diversidade cultural do Estado estão presentes há séculos no Carnaval de Pernambuco, sem dúvida, o mais eclético de todo País. Eles também forneceram elementos que foram usados na construção da "nova batida" das bandas pernambucanas. As simbólicas alfaias da Nação Zumbi, por exemplo, vieram do maracatu. O Rec Beat, então, a partir do momento em que se instalou na Rua da Moeda, em 1998, passou a contemplar os grupos carnavalescos, que abrem todas as noites do festival.

   Este ano, o Rec Beat, com excessão do frevo, está dando espaço para todos os ritmos do Carnaval Pernambucano. O afoxé Alafin Oyó, um dos mais tradicionais do Estado, abre o evento, às 19h30 do sábado. Formado em 1986 por um grupo de negros dissidentes do afoxé Araodé, a Associação Recreativa Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó surgiu com a missão de lutar pela resistência negra, cultural e religiosa. Atualmente tem 25 integrantes fixos entre vozes, instrumentos e dança, que residem em Olinda, Recife e Paulista. O grupo, que desenvolve um trabalho de preservação cultural através de oficinas de percussão, executa grande parte do que chama zuela (cantos) na língua iorubá.

   O Caboclinho União 7 Flexas, de Goiana, é um dos maiores, senão o maior grupo cultural desse município que é considerado a meca do caboclinho em Pernambuco. Apresenta-se no domingo de Carnaval. É um grupo com a particularidade de ter várias crianças na sua formação e que impressiona a platéia pela sua beleza plástica e sonora. Plasticidade também é a tônica da apresentação de um maracatu rural. Este ano, o Estrela Brilhante de Nazaré da Mata, comandado pelos mestres Siba e Barachinha, leva sua beleza para o último dia do festival.

   "É o maracatu mais novo de Aliança, mas formado por gente experiente, é uma oportunidade também de cantar maracatu para o público que me conhece com outro trabalho", diz Siba. O maracatu apresenta-se com o terno (bombo, tarol, gonguê, ganzá e cuíca) no palco, os mestres e mais de 100 caboclos, que farão no chão a chamada manobra (movimentação do grupo). Já o maracatu Nação Porto Rico, que também vai colocar seus batuqueiros no chão, é de baque virado. Toca com as alfaias e vem conquistando platéias por promover algumas inovações, como um canto mais festivo e até toques incidentais de ijexá (ritmo do afoxé)no meio do baque virado.

   Além das aberturas, o Rec Beat colocou grupos regionais no meio de sua grade de programação. O Coco Raízes de Arcoverde deixou saudades ano passado. Foi uma apresentação que terminou com o público pedindo mais. Contrariando uma quase regra de não repetir atrações, o Coco vai tocar outra vez no Rec Beat. O coco do grupo é diferente do feito por Celma ou Aurinha. É marcado pelo trupé. Uma batida de compassos rápidos, promovida por um sapateado de tamanco. Tem ainda o canto melancólico dos irmãos Assis e Damião Calixto e toda beleza das letras que evocam o Sertão. Para finalizar, o Rec Beat traz ainda Maciel Salu, que lançou seu primeiro disco solo, baseado no forró, mas com uma textura diferente, rica e contagiante. Está circulando o Estado com o novo show e, próximo domingo, enriquece o segmento regional presente no Rec Beat.

(© Pernambuco.com)


Grupos de dança também encaram a folia

Tatiana Meira
Da equipe do DIARIO

   Nem só de música e DJ's se alimenta a programação do Rec Beat neste Carnaval. As companhias de dança também conseguiram seu espaço. Embora pequena, esta vitrine é válida para provar que a linguagem da dança também é interessante para outros públicos, que não sejam as pessoas acostumadas a ir ao teatro. Uma das boas surpresas é Cia de Danças Populares de Tuparetama (CDPT) - cidade que fica a 380 quilômetros do Recife - que, em cima de pernas-de-pau, faz o espetáculo Dançando nas Alturas, na segunda, às 18h.

   Experimentando uma nova forma de dançar, os 22 bailarinos do grupo apresentam números de ciranda, coco e maracatu, inovando ao usar um recurso dos artistas circenses. Acompanhados por um trio de zabumba, triângulo e pandeiro, eles vêm pela segunda vez ao Recife, mas já levaram o trabalho a São Paulo, e à Bienal de Dança de Fortaleza (CE). As crianças e adolescentes em cena são oriundas de famílias de baixa renda e têm entre 10 e 18 anos. Aprenderam parte do que sabem em oficinas de arte-educação patrocinadas pela Secretaria de Cultura da Prefeitura de Tuparetama.

   "Eles já fizeram várias apresentações pela região, mas só agora o trabalho começa a tomar uma nova dimensão", reforça Tárcio Oliveira, diretor de Cultura da Prefeitura da cidade. A CDPT existe há 10 anos, mas Dançando nas Alturas só passou a fazer parte do repertório há dois anos e meio. Antes de chegarem ao palco, eles passeiam com as pernas-de-pau pelo meio do público.

   CARANGUEJOS - O grupo de dança contemporânea Experimental, que completou uma década de atuação em 2003, traz uma versão reduzida de Zambo, encenação de 1997, calcada em referências ao movimento mangue e à relação entre os homens e caranguejos. "Vamos tentar ser fiéis ao espetáculo, com efeitos, cenário, a música ao vivo sendo mantidos", diz Mônica Lira, diretora do grupo. Do elenco original, apenas quatro bailarinos sobem ao palco do evento. Os outros três são estagiários. O mesmo acontece com a fatia musical de Zambo: Tarcísio Resende, do Sa Grama; Mestre Meia-Noite, do Daruê Malungo e Adriana Millet tocam ao lado de seis alunos da oficina de percussão do Espaço Experimental. O Experimental foi escalado para a noite da terça, a partir das 20h20.

   Enquanto não conseguem patrocínio para viajar para um Carnaval em Bruxelas, na Bélgica, em maio, os integrantes do Andarilho, grupo de música e dança do Movimento Pró-Criança, estarão no RecBitinho, na segunda, a partir das 17h. São 13 dançarinos e 10 percussionistas, que com suas alfaias, ganzás, agogôs e atabaques mostram ao público arranjos para maracatu, maculelê e samba de roda, criados por Chocolate (Sérgio Paes). "O Carnaval traz uma visibilidade muito grande. É uma festa popular, homogênea e esta participação é fundamental", assegura Suzy Oliveira, que divide as coreografias do Andarilho com Arnaldo Brassos (com dois esses mesmo).

(© Pernambuco.com)


MPB urbana de Falcone

   Em 2003, como foliã, ela veio ao Recife apreciar um carnaval que conhecera na infância, quando saía de João Pessoa para curtir a folia em Pernambuco. Assistiu a shows do Rec Beat, conheceu o produtor Antonio Gutierrez e a ele entregou seu material de divulgação. Um ano depois, Eleonora Falcone é a única atração paraibana do festival do Cais do Alfândega. Escoltada por uma banda que mescla o requinte do violoncelo com a inventividade dos sintetizadores, ela se apresenta neste domingo, às 20h20.

   "Faço música urbana contemporânea e popular brasileira. Às vezes a MPB é vista com um ranço, mas a música independe de rótulos: ou ela é boa ou ela é ruim. Sou uma cantora popular de música brasileira", define-se Eleonora, em entrevista por telefone ao DIARIO, concedida de sua João Pessoa natal, cidade que divide seu coração com o Rio de Janeiro, onde ela estudou canto, começou a carreira e produziu o disco Apetite (2000).

   A introdução que faz de si mesma é sincera como suas colocações. Eleonora acha que falta integração entre os artistas paraibanos e pernambucanos, apesar dos laços ideológicos que os unem; pensa, também, que nem tudo que surge do Nordeste deve carregar a pecha de "regional". "No meu show, por exemplo, há uma riqueza de ritmos, que inclui o coco e o baião, mas não é um show regional", diz.

   Há, também, uma "mistura de texturas", como ela descreve a junção de instrumentos comuns, como bateria e violão, ao cello e às programações eletrônicas - sua banda é Adriano Taurino (violão), Edy (baixo), Esmeraldo Marques (programação eletrônica e guitarra), Francieudo Torres (violoncelo) e Vitor Ramalho (bateria e percussão). Com ela, Eleonora Falcone inclui no set list do Rec Beat algumas canções do seu álbum de estréia, como Pacata e Michel Jackson Usa Batom, e músicas de compositores conterrâneos, como Coco na Penha, de Escurinho, e Serena, de dona Odete do Pilar.

   Feliz por participar de um dos pólos mais prestigiados do Carnaval do Recife, a intérprete, que nunca cantou aqui, espera que sua vinda seja a primeira de várias visitas e celebra o caráter independente do Rec Beat. "Esse festival é importante para a cena contemporânea nordestina e nacional. Os critérios da programação não são o que está na moda ou na mídia, mas o que está sendo produzido com qualidade por aí. Afinal, ter sucesso não significa ter qualidade", sintetiza. (Luciana Veras)

(© Pernambuco.com)

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