Com pouco dinheiro e muita
persistência, três blocos e uma orquestra oferecem mais opção para o folião
MARCOS TOLEDO
O ato de gravar um CD, que há tempos deixou de
ser um luxo para a maioria dos músicos, este ano parece haver sido
descoberto em cheio pelas agramiações carnavalescas recifenses. Com “pouco
dinheiro e muita alegria”, os blocos Nem Sempre Lily Toca Flauta e Eu Quero
Mais e a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério lançam seus primeiros
álbuns independentes em parceria com o selo Mangaba Produtos.
Os trabalhos são reproduzidos em
CD-R (o disco gravável comum vendido no varejo), com tiragem mínima, mas com
encartes e rótulos bem impressos. Isto barateia os custos sem deixar a
qualidade cair para o nível de um CD pirata. Aproveitando a leva, o Mangaba
relança ainda Pernambucarnaval, parceria com Um Bloco em Poesia.
Pernambucarnaval: Uma Viagem
pelos Ritmos do Carnaval Pernambucano foi o primeiro projeto idealizado
em regime de cooperativa. Neste, nada menos do que 34 músicos, entre
cantores e instrumentistas interpretam um repertório de 18 faixas, entre
marchas, frevos, maracatus, caboclinho, urso, boi e samba.
Lily e Eu Quero Mais segue o mesmo
formato, embora com menos recursos. O primeiro, possui 13 canções, cinco
delas inéditas, interpretadas pelo próprio coral do bloco. As demais são
fonogramas cedidos por artistas que já haviam gravado canções tendo o Lily
como tema, como Alceu Valença e Expedito Baracho. É Tempo de Bloco...,
do Eu Quero Mais, teve todas as 15 músicas gravadas no estúdio Via Som. “É
um disco que não se prende ao tradicional”, explica o diretor artístico
Walmir Chagas, do Mangaba. “Há faixas com teclado, violão e arranjos mais
modernos.”
Por fim, Mangaba e Um Bloco em Poesia
aproveitaram a gravação de um maracatu e sete frevos em um show da Orquestra
Popular da Bomba do Hemetério e os lançaram em forma de CD. Os jovens
músicos (15 no total) substituem a larga experiência das orquestras
tradicionais por uma interpretação vibrante e atual.
É Carnaval em Pernambuco. As
prévias colocam lenha na fogueira e o público – cada vez maior nas festas
que antecedem os dias oficiais do reinado de Momo – esbalda-se. E você, já
decorou os versos dos frevos e maracatus que fazem sucesso este ano no
Estado? Dificilmente. Entre os novos compositores, quem não vive de música,
cria apenas por um prazer pessoal, já os profissionais criticam a falta de
espaço para divulgar os trabalhos nas rádios e torná-los conhecidos do
grande público.
A produção de músicas carnavalesca
por parte de novos autores, contudo, não pára. Neste ano, entre os 25
compositores finalistas do Concurso de Música Carnavalesca da Prefeitura do
Recife, 40% eram nomes que estavam tentando conquistar um espaço neste ramo.
E três deles ficaram entre os 15 premiados: Francisco Amâncio (o ‘Forró’),
com Dadinha do Passo, e Roberto José da Silva, com Catimba,
ambos na categoria Frevo-de-Rua, e Mirian de Souza, com o frevo-canção
Soltando energia.
Forte nome apontado como um
talento promissor por maestros como Adelmo Apolônio (diretor musical do
concurso) e Marco Cézar (do Coral Edgard Moraes, Sexteto Capibaribe e
Orquestra Retratos do Nordeste), o trompetista Forró é arranjador do
Maracatu Nação Pernambuco e maestro da Orquestra Popular da Bomba do
Hemetério, e concorre em festivais de música carnavalesca desde 1997.
Em 2002, Forró foi finalista com o
maracatu Recife tem. Ao todo, ele possui cerca de vinte composições
de Carnaval, entre elas, a supracitada Dadinha do Passo e Segura a
pomba, compostas para o Carnaval deste ano. Além disso, trabalhou como
arranjador do álbum Evoé Brasil 2, do cantor Almir Rouche, e fez a
direção musical do CD É Tempo de Bloco, da agremiação olindense Eu
Quero Mais.
Mesmo com esta experiência, o
compositor tem dificuldade de tornar conhecido o sua obra. “A organização de
um concurso como esse deveria escolher duas ou três músicas de trabalho para
divulgar nas rádios”, sugere. Roberto José, 35 anos, saxofonista que estudou
no Conservatório do Estado (CPM) e formado no curso de Licenciatura em
Música da UFPE, concorda com o colega. “É preciso divulgação para estes
novos frevos ficarem conhecidos não apenas do público em geral, mas também
das orquestras”, ressalta. “A maioria delas toca sempre os mesmos frevos. E
não é por falta de música, pois todo ano tem novas.”
Roberto conta que compôs seu
primeiro frevo em 2002 motivado pela experiência em bandas de músicas, que
sempre foram celeiros de novos talentos musicais, tanto na capital quanto no
interior do Estado. “Na UFPE e no CPM, temos aulas de orquestração, arranjos
e composição. Tive a felicidade de escrever este, participar (do concurso) e
ser premiado”, explica. Apesar de o festival não atingir todas metas e
prazos estabelecidos, Roberto demonstra satisfação em participar. “Estou
começando a escrever umas coisinhas. No ano que vem, vou colocar outro”,
anuncia.
Outro nome oriundo dos meios
acadêmicos é o percussionista do grupo Arabiando Tadeu dos Santos Costa
Júnior, 22 anos. O músico, que estudou teoria no Centro de Educação Musical
de Olinda (Cemo) e é aluno do curso de Música da UFPE, teve a oportunidade
de tocar no Carnaval, pela primeira vez, no ano passado, no Bloco das
Ilusões. “Foi quando despertou minha vontade de compor frevo”, lembra. Seu
primeiro rebento foi o frevo Mar de ilusões, que faz parte do
repertório do Arabiando.
Autor de sambas e xotes, Tadeu
agora está tentando compor um choro. Mas as músicas carnavalescas permanecem
presentes em suas idéias. Outros dois frevos devem ficar prontos em breve.