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 Um drama melindroso e cheio de ritmo

22/02/2004

 

 

O Capitão com um dos Galantes
 

Um dos folguedos mais tradicionais de Pernambuco, o cavalo-marinho começa a sair dos sítios, inspira músicos e vira tema de pesquisas

JANAÍNA LIMA

   Domingo de Carnaval é lá dia de se falar de cavalo-marinho? Para os tradicionais, abordar o tema hoje é quase uma heresia, já que se trata de um folguedo que originalmente se brinca de julho a 6 janeiro (Dia de Reis). Os fãs da cultura popular, no entanto, certamente vêem isso com outros olhos. Já há algum tempo que o cavalo-marinho deixou de se restringir ao seu ciclo, que tem no final do ano o momento de mais de atividade. Discretamente, é verdade, mas como bem diz o mestre Grimário, do Cavalo-Marinho Boi Pintado, de Aliança: “Tendo contrato, toda época é época”.

   Mais que o maracatu, o caboclinho ou mesmo a ciranda – mais conhecidos de quem mora nos centros urbanos –, o cavalo-marinho é um drama cheio de melindres. Primeiramente, não se trata de dança apenas, é uma representação teatral. A apresentação completa pode chegar a até 8 horas. Nesse tempo, nada menos que 76 personagens são chamados pelo mestre, que comanda a brincadeira. Isso e também o fato de continuar resistindo nos sítios e vilarejos da Zona da Mata, em municípios como Aliança, Condado e Ferreiros, com apresentações sempre mais raras, compromete cada vez mais esta representação cultural.

   Na contramão dessa crise, algumas iniciativas promovem a divulgação do cavalo-marinho, especialmente na sua porção musical. Enquadram-se aí o músico Siba, que reuniu no CD Fuloresta do Samba alguns dos principais mestres do Estado, e um jovem casal paulista, formado pela bailarina Juliana Pardo e o músico Alício Amaral, que desenvolvem a pesquisa O Cavalo-Marinho da Zona da Mata Norte de Pernambuco.

(© JC Online)


Unidos pela paixão ao brinquedo

Bailarina Juliana Pardo e músico Alício Amaral estudaram as loas e melodias do cavalo-marinho para transcrever em partituras, em projeto patrocinado pela Vitae

   Juliana Pardo, 28 anos, e Alício Amaral, 25, não são um casal convencional. Ela é dançarina, ele é músico. Nascidos em São Paulo, casados, eles passaram o último ano da vida deles morando num lugarejo do interior de Pernambuco, chamado Chã de Esconso, no município de Aliança. O motivo dessa ‘retiro’? Aprender com os mestres de cavalo-marinho as loas(cantigas) e músicas mais famosas do folguedo e ainda incentivar a garotada e jovens a entrar na brincadeira. Juntos, eles desenvolveram o projeto O Cavalo-Marinho da Zona da Mata Norte de Pernambuco, beneficiado pela Fundação Vitae. Foram 11 meses de pesquisas só no Estado. Antes disso, no entanto, eles já vinham coletando informações em outros onde também se dança o cavalo-marinho. Passaram por Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará e Maranhão, numa jornada de cerca de dois anos e meio.

   “Conhecemos o cavalo-marinho há oito anos, quando Nóbrega (o cantor Antonio Carlos Nóbrega) levou o pessoal de Helder (Mestre Ambrósio) para dar uma oficina em São Paulo. Me encantei e de lá para cá começamos a pesquisar”, revela Alício Amaral, que também é ator e arte educador, além de rabequeiro e violinista.

   A pesquisa patrocinada pelo Programa Bolsas Vitae de Artes veio justamente para concluir todo o levantamento já feito pelo casal e tem como objetivo fortalecer a tradição oral desse teatro de música popular, variante do bumba-meu-boi, e que é considerado com um dos mais sofisticados da cultura popular. Os dois pesquisadores registraram as loas(cantigas) e diálogos das figuras (personagens), transcreveram as melodias e ritmos para partitura e ainda pretendem editar um documentário detalhado sobre o brinquedo.

   Tanta dedicação tem uma só finalidade: utilizar as lições dos artistas populares na preparação de atores. “A idéia é desenvolver um treinamento energético, com uma linguagem corporal baseada no folguedo que possa ser utilizada por atores. A corporeidade das figuras e dos brincantes pode funcionar como ótimas ferramentas para o ator”, explica Juliana.

   RESGATE – Três cavalos-marinho foram os objetos específicos de pesquisa de Juliana e Alício: Estrela de Ouro, conduzido por Biu Alexandre, em Condado, Boi Brasileiro, do mestre Biu Roque, em Chã de Esconso, e Estrela do Oriente, comandado por Inácio Lucindo, em Camutanga. “O trabalho é lento mesmo. Tínhamos que gravar tudo e depois transcrever. Nessa parte específica da música, vimos que grupos como o de Biu Alexandre e o de mestre Grimário (Cavalo-Marinho Boi Pintado), por exemplo, têm uma grande diferenciação melódica. Eles utilizam toques diferentes, até no desenvolvimento das suas músicas”, salienta Alício Amaral, que fez questão de registrar no trabalho exemplos de toadas de cada um desses cavalos-marinhos.

   Nas suas pesquisas, Alício verificou que a proximidade com outros Estados, como a Paraíba, por exemplo, faz os grupos de Itambé, como o de Duda Bilau, ou o de Araújo, em Pedra de Fogo, utilizarem uma batida mais lenta no pandeiro, como é costume nos grupos paraibanos. Já os grupos pernambucanos se aproximam mais das toadas de martelo, impondo um ritmo bem mais forte ao pandeiro.

(© JC Online)

Siba: “Com eles, aprendi a ser eu mesmo”
 

   No grupo dos que vestem a camisa em favor camisa dos mestres de cavalo-marinho está o rabequeiro Siba, integrante da banda Mestre Ambrósio. Siba, que lançou, no ano passado, o CD Fuloresta do Samba, celebra iniciativas como a de Juliana Pardo e Alício Amaral, mas lembra que, mais que um trabalho de recuperação e preservação, o cavalo-marinho necessita é de uma ajuda efetiva, direta, aos donos dos brinquedos. “Registros como esse são excelentes, têm o reconhecimento da academia. Mas não podemos esquecer que não é um registro que vai garantir a sobrevivência dos grupos”, pondera o músico.

   Para Siba, as dificuldades que envolvem o cavalo-marinho, e todas as demais representações da cultura, são reflexo da falta de uma política pública que reconheça o saber popular. “É necessário uma política de ação, não paternalista, para que essa ‘escola de arte’ tenha a sua continuidade assegurada”, defende o artista, que prefere fugir do termo tradicional ‘folguedo’.

   O compositor salienta que os próprios artistas têm seus meios de manter suas tradições orais, de repassar suas riquezas. O que lhes falta, na verdade, é o ganha-pão, melhores condições de vida. “As pessoas têm a iniciativa, mas não tem meios de tocar suas ‘escolas de arte’. Isso só virá com a inclusão social e a divisão de renda”, completa.

   “Não é possível que um mestre como Biu Alexandre, por exemplo, um dos mais importantes do Estado, que domina a dança, o texto e a música, todo o conteúdo de um teatro popular, more numa casa apertadinha e não tenha um emprego”, esbraveja o compositor.

   Mais do que ninguém, ele sabe a riqueza guardada por cada um dos mestres de cavalo-marinho. “O que aprendi com eles extrapola o limite da música. Não aprendi só um meio de expressão. Aprendi a ser eu mesmo”, filosofa. (J.L.)

(© JC Online)

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