CAROL ALMEIDA
De lembrança do Rec-Beat na
Rua da Moeda, ficou somente um telão para exibir os shows. Porque, sem
remorso nem culpa, o maior palco de rock e música alternativa do Carnaval
pernambucano mudou-se mesmo para a frente do Paço Alfândega. E já no
primeiro dia do Rec-Beat, no Sábado de Zé Pereira, viu-se que o deslocamento
veio para o bem de todos e alívio geral da multidão que, até o ano passado,
mal respirava para ver os shows do festival.
Com um palco montado ao lado do
Rio Capibaribe e um espaço super bem decorado (pausa para ambientação da
tenda eletrônica, muito bem sacada com seus globos prateados), o Rec-Beat
2004 teve uma estréia de muitos atrasos e pouca comoção, mas rendeu bom
momentos para o público e, particularmente, para os que tocaram no evento
pela primeira vez. Caso da banda Os Astronautas, que se apresentou logo após
o espetáculo do afoxé Alafin Oyó, com um show que, apesar de ter lá sua
atitude rock (toda a banda vestida macacões vermelhos e máscaras de gás),
não vinga muito na execução das idéias. Tudo termina ficando “no mesmo
lugar”, parafraseando o título de uma das músicas do grupo.
Após Os Astronautas, quem entra em
cena é outra estreante do Rec-Beat, a Narguilé Hidromecânico, banda piauense
adepta da receita de colocar tudo na mesma panela, com forte tempero
regional. O que se ouviu foi uma mistura de instrumentos do Piauí com música
eletrônica, hardcore e reggae. Depois dessa caldeirada, sobem ao palco os
metais do grupo pernambucano A Roda, que com seu funk instrumental fez um
tipo de chill in para a entrada de Lanlan e Os Elaines.
Pela primeira vez se apresentando
no Recife, Lanlan ganhou a empatia imediata do público, com as músicas do
disco Com Ela. Os versos cantados em coro mostram que a vocalista e
percussionista, discípula de Cássia Eller em estilo e atitude de palco, já
tem um fiel grupo de fãs pernambucanos. E para ganhar ainda mais simpatia,
Lanlan anunciou: “Vou tocar agora uma música da melhor banda de rock do
Brasil: Nação Zumbi”. E largou um Quando a maré encher. Não fosse a
música da Eddie (e não da Nação), a sintonia dela com o Estado estaria
perfeita.
Apesar do pequeno desvio autoral,
a espirituosa Lanlan conseguiu levantar o disperso público do Cais da
Alfândega com muito berro e uma banda que sustentou o tom agressivo do
começo ao fim. No grupo estava a cantora Nara Gil, filha de Gilberto Gil.
Bem ciente dos fãs e, particularmente, das fãs que acompanhavam o show,
Lanlan perguntou: “Quem quer ser genro do ministro? E quem quer ser nora do
ministro?”. O resultado da enquete deu empate.
O show terminou quase às 2h, com
duas horas de atraso, e não deu para evitar a saída de muita gente. Ficaram
mesmo aqueles que ali estavam para assistir ao encerramento da noite,
comandado por Canibal, Neilton e Celo, sempre eficazes na arte de criar as
mais agitadas rodas de pogo. E foi assim, com um público que já conhece o
grupo de outros Carnavais, que o Devotos subiu pela quarta vez ao palco do
Rec-Beat, com um setlist praticamente inédito, com nove músicas do novo
disco, A Hora da Batalha. “Apesar dos atrasos, que são típicos do
primeiro dia, acho que o resultado dessa primeira noite foi maravilhoso.
Conseguimos abrigar melhor todo mundo nesse espaço”, avaliou Antônio
Gutiérrez, o Gutie, realizador do evento.