Pedro Paulo Carneiro
Especial para o JB
RECIFE - O bloco Maracatu Nação
Erê desfila hoje em Recife comemorando dez anos de uma história que
emociona. Uma trajetória que se confunde com a da comunidade de Brasília
Teimosa, uma das mais pobres da capital pernambucana.
Situada na área conhecida como
''Areal Novo'', que pertenceu aos herdeiros do Visconde do Livramento, o
lugar foi ocupado durante a grande seca vivida em 1957/58. A favela foi
batizada de Brasília, e posteriormente, Brasília teimosa, devido a teimosia
do povo que resistiu às ameaças de despejos, destruição dos barracos e até
mesmo a dois incêndios misteriosos.
Em 1982, Mailde Araújo, Luciana Macedo e outros educadores começaram a
desenvolver projetos de ação social com a comunidade. O maracatu surgiu como
um coadjuvante no processo de educação, mais tarde, em 1987. Os professores
começaram ensinando aos alunos do CEPOMA (Centro de Educação Popular Mailde
de Araújo) a história e os ritmos da dança. Em 27 de setembro de 1993, (dia
de São Cosme e Damião) foi fundado o Maracatu Nação Erê, que no Carnaval de
1994 foi para as ruas, transformando-se no orgulho do bairro de Brasília
Teimosa.
O nome significa nação das
crianças na língua iorubá. - Nos maracatus sempre há um orixá como guia.
Escolhemos os gêmeos Cosme e Damião, por serem protetores das crianças -
explica Maria Tenório, coordenadora do Cecoma. A proposta, diz a educadora,
é valorizar a cidadania. - Queremos que estas crianças se apropriem dessa
cultura. Alguns pesquisadores acreditam que a palavra maracatu é de origem
indígena: seria a junção de maracá (instrumento musical) e catu (bom,
bonito).
Outra corrente acredita que o nome
deriva da dança dos bondos de Luanda. O registro mais antigo é de 1711 na
cidade de Olinda, em Pernambuco. A tradição se baseia em elementos
religiosos e profanos das antigas festas coloniais de coroação dos reis
negros, escolhidos pelos escravos com a função simbólica de líder.
Sua dança, marcada tradicionalmente e exclusivamente por
instrumentos de percussão, contém fortes elementos místicos, que fazem
lembrar o candomblé. Baianas e damas do Paço exibem coreografia complexa; os
demais movimentam-se de modo mais discreto.
Em Brasília Teimosa, a tradição do maracatu está tão viva
que mobiliza toda a comunidade. Os pais se envolvem completamente com o
projeto. Algumas mães confeccionam as roupas e adereços, outras preparam o
café da manhã, outras respondem pela maquiagem dos pequenos ''erês''. Fazer
parte deste projeto traz junto obrigações, dentre elas, o compromisso com o
horário, que é cumprido a risca.
- É bom porque não fico arretando por aí, não fico
brigando - diz Tiago, 9 anos.
Ao final de cada aula de dança ou percussão, é feita uma
avaliação. As crianças participam e aprendem a ensinar outras crianças.
- Temos
crianças de nove anos que vão às salas da pré-escola, ensinando os ritmos do
maracatu - diz a coordenadora.
A cada desfile, uma estratégia de guerra é organizada
para que o cortejo aconteça. De manhã cedinho, o CEPOMA já está em
polvorosa. Um entra e sai de mães, preparando o café da manhã substancial
(em que não falta a macaxeira e o cuscuz de milho) denuncia o envolvimento
da comunidade. Dentro de um grande isopor, saquinhos de plástico cheios de
água.
- É para as crianças beberem - diz Ilma Martins,
coordenadora cultural do CEPOMA.
As roupas que os integrantes vestem são cópias do
figurino da realeza da época. Vestidas com roupas quentes e pesadas, as
crianças desfilam pelas ruas de Brasília Teimosa com os rostos altivos e
felizes.
O cortejo é longo, e eles dançam e batucam por horas. O
grupo faz três paradas para beber água nos saquinhos plásticos preparados. O
calor é insuportável, mas a população enche as ruelas. Uns aplaudem, outros
choram, todos se emocionam.
- É um orgulho. Ter nossas crianças, tão bonitas,
dançando, brincando e alegrando o nosso bairro - comove-se seu Zé Alberto,
74 anos, com os olhos marejados de lágrimas.
O cortejo cruza o bairro em direção a igreja. Em frente,
existe um palco onde eles finalizam a apresentação com um canto: ''Meu povo
quem não viu/ Meu povo venha ver/ O batuque mais bonito/ É o batuque da
nação erê''.