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 Maracatu renovado

23/02/2004

 

 

Maracatu no carnaval do Recife
 

Herdeiro de uma tradição centenária, o maracatu Nação Erê faz dez anos

Pedro Paulo Carneiro
Especial para o JB

   RECIFE - O bloco Maracatu Nação Erê desfila hoje em Recife comemorando dez anos de uma história que emociona. Uma trajetória que se confunde com a da comunidade de Brasília Teimosa, uma das mais pobres da capital pernambucana.

   Situada na área conhecida como ''Areal Novo'', que pertenceu aos herdeiros do Visconde do Livramento, o lugar foi ocupado durante a grande seca vivida em 1957/58. A favela foi batizada de Brasília, e posteriormente, Brasília teimosa, devido a teimosia do povo que resistiu às ameaças de despejos, destruição dos barracos e até mesmo a dois incêndios misteriosos.

   Em 1982, Mailde Araújo, Luciana Macedo e outros educadores começaram a desenvolver projetos de ação social com a comunidade. O maracatu surgiu como um coadjuvante no processo de educação, mais tarde, em 1987. Os professores começaram ensinando aos alunos do CEPOMA (Centro de Educação Popular Mailde de Araújo) a história e os ritmos da dança. Em 27 de setembro de 1993, (dia de São Cosme e Damião) foi fundado o Maracatu Nação Erê, que no Carnaval de 1994 foi para as ruas, transformando-se no orgulho do bairro de Brasília Teimosa.

   O nome significa nação das crianças na língua iorubá. - Nos maracatus sempre há um orixá como guia. Escolhemos os gêmeos Cosme e Damião, por serem protetores das crianças - explica Maria Tenório, coordenadora do Cecoma. A proposta, diz a educadora, é valorizar a cidadania. - Queremos que estas crianças se apropriem dessa cultura. Alguns pesquisadores acreditam que a palavra maracatu é de origem indígena: seria a junção de maracá (instrumento musical) e catu (bom, bonito).

   Outra corrente acredita que o nome deriva da dança dos bondos de Luanda. O registro mais antigo é de 1711 na cidade de Olinda, em Pernambuco. A tradição se baseia em elementos religiosos e profanos das antigas festas coloniais de coroação dos reis negros, escolhidos pelos escravos com a função simbólica de líder.

   Sua dança, marcada tradicionalmente e exclusivamente por instrumentos de percussão, contém fortes elementos místicos, que fazem lembrar o candomblé. Baianas e damas do Paço exibem coreografia complexa; os demais movimentam-se de modo mais discreto.

   Em Brasília Teimosa, a tradição do maracatu está tão viva que mobiliza toda a comunidade. Os pais se envolvem completamente com o projeto. Algumas mães confeccionam as roupas e adereços, outras preparam o café da manhã, outras respondem pela maquiagem dos pequenos ''erês''. Fazer parte deste projeto traz junto obrigações, dentre elas, o compromisso com o horário, que é cumprido a risca.

- É bom porque não fico arretando por aí, não fico brigando - diz Tiago, 9 anos.

Ao final de cada aula de dança ou percussão, é feita uma avaliação. As crianças participam e aprendem a ensinar outras crianças.

   - Temos crianças de nove anos que vão às salas da pré-escola, ensinando os ritmos do maracatu - diz a coordenadora.

   A cada desfile, uma estratégia de guerra é organizada para que o cortejo aconteça. De manhã cedinho, o CEPOMA já está em polvorosa. Um entra e sai de mães, preparando o café da manhã substancial (em que não falta a macaxeira e o cuscuz de milho) denuncia o envolvimento da comunidade. Dentro de um grande isopor, saquinhos de plástico cheios de água.

   - É para as crianças beberem - diz Ilma Martins, coordenadora cultural do CEPOMA.

   As roupas que os integrantes vestem são cópias do figurino da realeza da época. Vestidas com roupas quentes e pesadas, as crianças desfilam pelas ruas de Brasília Teimosa com os rostos altivos e felizes.

   O cortejo é longo, e eles dançam e batucam por horas. O grupo faz três paradas para beber água nos saquinhos plásticos preparados. O calor é insuportável, mas a população enche as ruelas. Uns aplaudem, outros choram, todos se emocionam.

   - É um orgulho. Ter nossas crianças, tão bonitas, dançando, brincando e alegrando o nosso bairro - comove-se seu Zé Alberto, 74 anos, com os olhos marejados de lágrimas.

   O cortejo cruza o bairro em direção a igreja. Em frente, existe um palco onde eles finalizam a apresentação com um canto: ''Meu povo quem não viu/ Meu povo venha ver/ O batuque mais bonito/ É o batuque da nação erê''.

(© JB Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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