O disco "Carnaval Eletrônico" é a
concretização de um ideário que sua dona, Daniela Mercury, acalenta desde
pelo menos 2000, ano em que levou um "trio eletrônico" às ruas carnavalescas
de Salvador.
A raiz brasileira, nordestina e
baiana se sustenta no CD pelo baticum eletrônico de DJs de ponta como Renato
Lopes, Ramilson Maia, Xerxes. Está consumado o disco de choque entre dois
mundos que costumam se detestar.
Fosse feito por volta de 96 ou 97,
"Carnaval Eletrônico" poderia ter redefinido rumos drásticos no pop de massa
do Brasil. Mas Daniela era então refém da indústria, e teve de se conformar
ao óbvio. Hoje, um disco eletrônico de MPB é até convencional, não tem mais
pique para movimentar um cenário ameaçado de falência. "Carnaval Eletrônico"
vale mais por sacudir o destino da própria artista.
É um desabafo adiado: sem querer
ou querendo, contesta a vaia histórica ao trio eletrônico de 2000, a
instrumentalização industrial do axé (de que ela foi vítima e agente), os
preconceitos de foliões, clubbers e correligionários.
Diante de tantos acidentes,
Daniela foi se sentindo exilada. O disco retrata esse sentimento do início
ao fim, até por conexões recombinadas com produtores de Bahia (com Carlinhos
Brown), Pernambuco (Lenine), São Paulo (Bid do Funk Como le Gusta, o rapper
Xis), Rio-SP (Zé Pedro).
O sentido de exílio se expõe no
repertório revelador, que fala muito da Bahia, mas quase sempre por meio de
desvios. Há, por exemplo, o muque black de "Quero Voltar pra Bahia", que o
pernambucano Paulo Diniz fez em 70 para defender sutilmente a volta de
Caetano e Gil do exílio.
A genial "Vou Batê pa Tu" é caso à
parte. Criada pelos autores de suingue Orlandivo e Arnaud Rodrigues, lançou
em 74 a dupla Baiano & Os Novos Caetanos.
Eram os falsos baianos Arnaud e
Chico Anysio, que satirizavam Gil e Caetano na TV.
Embora bem-humorado, era um samba-soul barra pesada. Falava sobre deduragem,
no auge do caso de Wilson Simonal.
Cantando incômodos a todo momento,
Daniela quer dizer que se vê vítima do exílio popular brasileiro, praticado
cotidianamente.
No todo, o caldeirão de Daniela
continua soando desconjuntado. Retrata um Brasil que já podia ter deixado de
ser, mas ainda é: exilado, discriminado, autopiedoso.
O dado forte é a disposição cada vez maior de pesquisar as próprias mazelas.
É a herança mais rica que Daniela recebeu da terra natal de cantoras
retumbantes e corajosas de trio elétrico.