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 Tempo das ilusões

26/02/2004

 

 

O Galo da Madrugada, no carnaval 2004 do Recife
 

Os três tipos de frevo, o carnaval, a música e literatura de Recife apresentados num modus vivendi especial

Abdias Vilar de Carvalho
em Recife

Abram alas, queridos foliões
Que vai passar o alegre bando
Trazendo mil recordações ...

( Alegre Bando - Edgard Moraes)

 

   Em Pernambuco, o frevo é música e dança. Datado do início do Século XX, como transformação no ritmo, na dança e nos adereços dos dobrados das bandas militares, do século XIX, teve como marco o Dia do Frevo, instituído em 09 de fevereiro de 1907.

   Há três tipos de frevo: o frevo-de-bloco, o frevo-canção e o frevo-de-rua, que se diferenciam pelo tipo de instrumentos musicais e pelo ritmo. O frevo-de-bloco é tocado por uma orquestra de instrumentos de corda e tem uma aceleração maior e como o próprio nome diz é identificador de uma agremiação carnavalesca; e o frevo-canção é uma adaptação mais rápida das marchinhas cariocas; o frevo-de-rua além de sons mais estridentes, ritmo mais apressado, não possui letra. Distinção que se junta num único acorde de vibração de foliões, em tempo e espaço de um sonho encantado.

   O carnaval, com suas múltiplas manifestações espontâneas ou organizadas e os seus ritmos - samba, frevo, maracatus - é reordenamento do espaço e do tempo e se esprai em calendários oficiais e civis, em períodos de preparação para o grande evento: acertos de blocos para ensaios das músicas, dos passos, da combinação das fantasias; semana pré-canarvalesca e o tríduo momesco, em alguns lugares, transformado em cinco dias ou até mais.

   Início de período ansiosamente esperado e preparado, o carnaval contém um modus vivendi especial : no corpo, pelas indumentárias e adornos; nas rememorizações e aprendizagem das canções e danças; no ordenamento da agenda para disponibilização de festas; na adaptação do espírito às festividades, dedicação à folia, tão bem expresso no frevo Carnaval da Vitória, de Sebastião Lopes e música de Nelson Ferreira :

O Nosso Bloco é ideal
nasceu neste carnaval...
Por isso nós estamos a cantar
cheios de glória
Vitória,Vitória,Vitória !
Vamos correr
as ruas da cidade
com o ardor
da nossa mocidade!

 
São só três dias
tão cheios de loucura
em que a gente esquece
da vida a amargura...
(...)

   Canta-se e dança-se lembrança, saudade, sonho, encontro, rompimentos, desejos, evocações, todos juntos numa multidão frenética, com gestos de mãos; pulos, giros, piruetas com o corpo e passos traçados, cortando o espaço em desenhos elétricos e rítmicos. São corpos enfeitados que falam com os lenços da saudade, com o prazer do momento, com galanteios para velhos e novos amores.

   Tempo do corpo. É dança, é prazer, valorização do instantâneo: o reino da liberdade, embora fugaz, descompromisso com as normas que caracterizam o quotidiano das pessoas e dos grupos; não é amoral, mas há espaços para outras moralidades:

“... Deixe o frevo rolar
Eu só quero saber se você vai brincar
Ah, meu bem sem você não há carnaval
Vamos cair no passo e a vida gozar”

(Sabe lá o que é isso, de João Santiago)

   As inúmeras canções reverenciam agremiações antigas, exaltando velhos carnavais, como nesse belíssimo frevo-de-bloco, Valores do Passado, de Edgard Morães, de 1962,

“Bloco das Flores, Andaluzas,
Cartomantes, Camponesas, Após Fum
e o Bloco Um Dia Só.
Os Corações Futuristas, Bôbos em Folia,
Pirilampos de Tejipió,
A Flôr da Magnólia,
Lira do Charmion, Sem Rival;
Jacarandá, a Madeira da Fé,
Crisântemos, Se Tem Bote e
Um Dia de Carnaval.
Pavão Dourado,Camelo de Ouro e Bebé.
Os queridos Batutas da Boa Vista
E os Turunas de São José .
Príncipe dos Príncipes brilhou
Lira da Noite também vibrou
E o Bloco da Saudade,assim recorda,
Tudo que passou”.

   Reverência sentida, clamativa, transmite uma profunda emoção na multidão, transportando-a para um mundo imaginário de antigos carnavalescos famosos como Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon, Raul Morães e Mario Melo, que faziam com seus “Blocos das Flores”, “Andaluzas” , “Pirilampos”, “Apóis Fum”, “Vassourinha”, “Pão Duro”, “Dona Santa”, “Batutas” e “Canindés” os “carnavais saudosos”. Com tanta alma se cantam esses frevos que parecem partes de um ritual de uma cerimônia de despedida, nunca concluída.

   Alegria e amor, pares constantes dessa celebração do encanto, simbiose de esperanças, sonhos e desilusões sob uma máscara ou fantasia personalizam arlequins, pierrôs ou colombinas, apaixonados e apaixonáveis :

“ Mandei fazer um buquê prá minha amada,
mas sendo ele de bonina disfarçada.
O brilho da estrela matutina
Adeus menina, linda flor da madrugada...”

(Linda Flor da Madrugada, de Capiba,1940)

   Tempo de ilusões e de promessas de amor, endeusamento lírico e feliz da mulher que encanta e seduz :

“ Se eu pudesse lhe daria
O céu, a terra e o mar
Mandaria pratear toda a avenida
Prá ver você passar. (...)

(José Menezes e Neuza Rodrigues)

   Duração fugaz, mas marcante no coração e na memória que a melodia retoca:

“Esse amor de carnaval
Durou uma canção
Foi uma serpentina partida
Que você jogou no salão ...”

(Serpentina Partida, de Arthur Lima Cavalcanti e Maximiano Campos) .

   Esse cantar de reconhecimento é a reconstrução idealizada de uma época, a servir de referência para os dias atuais. Brincar hoje o carnaval é ao mesmo tempo reviver os do passado remoto ou recente, presentes não apenas pela beleza de suas melodias e letras, pelo corso e blocos, pela ingenuidade das fantasias, mas por, neles encontrar uma raiz da identidade da cultura pernambucana, tão fortemente ameaçada por intrusos ritmos elétricos de alhures. São tradições, histórias que se confundem com a origem e um passado mais próximo.

   Carregado especialmente pela classe média, novos blocos se formam e assumem essa quase missão de conservar uma tradição atualizada. Compreende-se, assim, porque as canções antigas façam tanto sucesso, mesmo aquelas que já choravam, em décadas passadas, a ameaça ou o desaparecimento de seus blocos:

“Não deixem morrer Batutas.
Não deixem Batutas morrer.
Batutas tem um passado de lutas
Viva Batutas ! Batutas vai vencer.

 

Que lindo Bloco
Que lindo é
Nosso Batutas de São José.
Tem tradição, tem glória,
Tem história prá valer
Não deixem Batutas morrer”
( ... )

(Não Deixem Morrer Batutas, Álvaro Alvim)
 

   A alegria e a emoção dessa e de outras músicas semelhantes são cantadas com tanta vibração e força nos ensaios, nas ruas e desfiles momescos, que, mais do que nostalgia, assumem a feição de um grito de afirmação cultural, como acontece com o grande sucesso da ingênua canção do Bloco Madeira do Rosarinho ( já desaparecido e em processo de reestruturação neste ano), Madeira que Cupim não Rói, de Capiba, feita em 1963 :

“Madeira do Rosarinho
Vem à cidade sua fama mostrar
E traz com seu pessoal
Seu estandarte tão original

Não vem pra fazer barulho
Vem só dizer, e com satisfação,
Queiram ou não queiram os juízes
O nosso bloco é de fato campeão
 
E se aqui estamos,
cantando esta canção
Viemos defender a nossa tradição
E dizer bem alto que a injustiça dói

Nós somos madeira de lei
que cupim não rói.”


  
Reinventar a tradição para se tornar tradição não é um caminho desse renascimento cultural pernambucano? Frevo é cultura popular !

   As músicas carnavalescas, sob a forma de lamento ou protesto, têm um conteúdo social e político, seja através da sátira aos costumes seja na constatação de mudanças trazidas pelo progresso. Em Evocação nº 7 - Ruas de Minha Infância -, feita em 1972, Nelson Ferreira assim se expressa para mostrar a nova configuração urbanística da cidade do Recife :

“ O meu Recife, cada vez mais lindo !
Tão diferente, minha gente, é o progresso ...
Por isso, ó ruas de minha infância ,
não mais ouvireis do Bloco a Marcha-regresso...
E, se no mundo, tudo tem seu fim, adeus Rua Augusta....
De Hortas.... Do Alecrim.

   Há temas recorrentes nas canções do carnaval pernambucano. Mas, o da saudade certamente é um dos que estão mais presentes em títulos e conteúdos, referindo-se, entre outros, ao amor, aos blocos passados, ao Recife antigo e, mais ainda, ao fim do tríduo momesco com uma denotação especial do substantivo regresso. Como ilustração, citamos apenas os títulos que se referem diretamente ao tema da saudade : Aurora de Amor, de Maurício Cavalcanti e Romero Amorim, Cadê Mario Melo, de Nelson Ferreira, Chora Batutas , de Getúlio Cavalcanti, Saudade que vem de Você, de Capiba, Saudade , dos Irmãos Valença, e os belíssimos, A Dor de uma Saudade, de Edgard Morães :

“A dor de uma saudade
Vive sempre em meu coração
Ao relembrar alguém que partiu
Deixando a recordação, nunca mais
Hão de Voltar os tempos felizes
que passei em outros carnavais (...)”

e Frevo da Saudade , de Nelson Ferreira e Aldemar Paiva :

“ Quem tem saudade
Não está sozinho
Tem o carinho
da recordação
Por isso quando estou
Mais isolado
Estou bem acompanhado
Com você no coração (... ) ”.

   Regresso, sempre chorado, é fim de cada dia de festa, recolhimento dos blocos, das troças, das pessoas com a esperança de mais um dia :

“ Adeus, chegou a hora de partir
Adeus, é madrugada vamos recolher
Agora é recordar amores E a tristeza esquecer”

(Vamos Regressar, de João Santiago)

ou

“... batidas de bumbo
são maracatus retardados
que voltam pra casa cansados
com seus estandartes pró ar.

(Frevo número dois do Recife, do maestro Luis Carlos Vinhas)

   Fim de carnaval cantando desilusões, decepções, incertezas e esperanças:

“Falam tanto que meu bloco está
Dando adeus prá nunca mais sair
E depois que ele desfilar
Do seu povo vai se despedir
No regresso de não mais voltar
Suas pastoras vão pedir:
 
Não deixe não
Que um bloco campeão
Guarde no peito a dor de não cantar
Um bloco a mais
É um sonho que se faz
Nos pastoris da vida singular
É lindo ver
O dia amanhecer
Com violões e pastorinhas mil
Dizendo bem
Que o Recife tem
O carnaval melhor do meu Brasil”

(Último Regresso , de Getúlio Cavalcanti)

   Se o carnaval é tradição, beleza, alegria, é porque nele há encontro de almas , separadas pela distância, mas sempre no coração do Recife, regresso de quem nunca disse adeus, mas saiu:

“Voltei Recife foi a saudade que me trouxe pelo braço... ”

   A madrugada que não anuncia a aurora de um novo dia de alegria, mas de uma espada que cortará, em breve, o tempo da fantasia:

“ Na madrugada do terceiro dia
chega a tristeza
Vai embora a alegria
Os foliões vão regressando
E o nosso frevo diz adeus à folia
A noite morre, o sol vem chegando
E a tristeza vai aumentando
A gente sente uma saudade sem igual;
Que só termina
Com um novo carnaval ”

(José Menezes e Geraldo Costa)

   E no espaço conquistado do Recife antigo, lá estão todos em congraçamento: Batutas de São José, Bloco da Saudade, das Flores, Amantes da Glória, Bloco das Ilusões, Quero Mais, Nem Sempre Lili Toca Flauta, Diz que me Ama,porra!, Bloco da Vitória Régia, Pierrot de São José, Maracatu Nação Leão Coroado, Eu Acho é Pouco, Bloco Anárquico Armorial Siri na Lata, Maracatu Sol Nascente, Elefante de Olinda, Bloco Cordas e Retalhos, Cadê Mario Melo e tantos outros para num choro alegre de despedida cantarem “Oh, quarta-feira ingrata chega tão depressa só para contrariar ... ”

   A literatura e a música têm a propriedade de constituir um tempo próprio ou até mesmo de aparentar uma exterioridade. Recordação, lembrança, saudade são situações reveladas expressamente nos textos datados, mas que, evocados de geração em geração, estão sempre atualizados, quer como reminiscências quer como interação, quer como comparação, quer como recomposição de fatos integrais ou parciais.

   O pensamento, em suas várias constituições, se perpetua ou, mais rigorosamente, pela lembrança e recordação, pela atualização e recontextualização, apresenta-se como perene, extratemporal. Entrecruza-se num misterioso labirinto, às vezes tão presente/ausente, tão passado/presente, tão futuro/presente, como que num contínuo, ora harmonioso ora antagônico; ora ontem ora hoje ora ontem-hoje-amanhã, como fênix e feno.

   O “palácio das memórias”, trazendo para cá Santo Agostinho, faz o tempo ultrapassar os espaços para, num único momento, unir pretérito-presente-futuro. Como seres vivos que somos,só o presente tem um espaço concreto, nada mais sendo do que essa “costura” intrigante e belicosa entre passado e futuro, de que fala Virginia Wolf, em Orlando. Na sua inquietude para definir a temporalidade do ego pensante, Hanna Arendt afirma: “o homem vive nesse intervalo (refere-se ao presente) e o que ele chama de” presente “é uma luta que dura toda a vida contra o peso morto do passado, que o impulsiona com a esperança, e contra o medo do futuro (cuja única certeza é a morte), que o empurra para trás, para "a serenidade do passado", com a nostalgia e a lembrança da única realidade de que o homem pode ter certeza”. (1992: 154/155).

   Na dialética do tempo, a temporalidade do pensamento é uma dimensão abstrata, mas real, deslocada de uma realidade presente em que as suas dimensões parecem formar uma única realidade. Disfarçado numa linha retilínea, o tempo tem esse caráter fetichizante onde navega a vida humana. Ela está nele.

(© Capitu)

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