Os três tipos de
frevo, o carnaval, a música e literatura de Recife apresentados num
modus vivendi especial
Abdias Vilar de
Carvalho
em Recife
“ Abram alas, queridos
foliões
Que vai passar o alegre bando
Trazendo mil recordações ...”
( Alegre
Bando - Edgard Moraes)
|
Em Pernambuco, o frevo é música e
dança. Datado do início do Século XX, como transformação no ritmo,
na dança e nos adereços dos dobrados das bandas militares, do século
XIX, teve como marco o Dia do Frevo, instituído em 09 de fevereiro
de 1907.
Há três tipos de frevo: o
frevo-de-bloco, o frevo-canção e o frevo-de-rua, que se diferenciam
pelo tipo de instrumentos musicais e pelo ritmo. O frevo-de-bloco é
tocado por uma orquestra de instrumentos de corda e tem uma
aceleração maior e como o próprio nome diz é identificador de uma
agremiação carnavalesca; e o frevo-canção é uma adaptação mais
rápida das marchinhas cariocas; o frevo-de-rua além de sons mais
estridentes, ritmo mais apressado, não possui letra. Distinção que
se junta num único acorde de vibração de foliões, em tempo e espaço
de um sonho encantado.
O carnaval, com suas múltiplas
manifestações espontâneas ou organizadas e os seus ritmos - samba,
frevo, maracatus - é reordenamento do espaço e do tempo e se esprai
em calendários oficiais e civis, em períodos de preparação para o
grande evento: acertos de blocos para ensaios das músicas, dos
passos, da combinação das fantasias; semana pré-canarvalesca e o
tríduo momesco, em alguns lugares, transformado em cinco dias ou até
mais.
Início de período ansiosamente esperado
e preparado, o carnaval contém um modus vivendi especial :
no corpo, pelas indumentárias e adornos; nas rememorizações e
aprendizagem das canções e danças; no ordenamento da agenda para
disponibilização de festas; na adaptação do espírito às
festividades, dedicação à folia, tão bem expresso no frevo
Carnaval da Vitória, de Sebastião Lopes e música de Nelson
Ferreira :
“O Nosso
Bloco é ideal
nasceu neste carnaval...
Por isso nós estamos a cantar
cheios de glória
Vitória,Vitória,Vitória ! |
Vamos correr
as ruas da cidade
com o ardor
da nossa mocidade!
|
São só três
dias
tão cheios de loucura
em que a gente esquece
da vida a amargura...
(...) ” |
Canta-se e dança-se lembrança, saudade,
sonho, encontro, rompimentos, desejos, evocações, todos juntos numa
multidão frenética, com gestos de mãos; pulos, giros, piruetas com o
corpo e passos traçados, cortando o espaço em desenhos elétricos e
rítmicos. São corpos enfeitados que falam com os lenços da saudade,
com o prazer do momento, com galanteios para velhos e novos amores.
Tempo do corpo. É dança, é prazer,
valorização do instantâneo: o reino da liberdade, embora fugaz,
descompromisso com as normas que caracterizam o quotidiano das
pessoas e dos grupos; não é amoral, mas há espaços para outras
moralidades:
“... Deixe o
frevo rolar
Eu só quero saber se você vai brincar
Ah, meu bem sem você não há carnaval
Vamos cair no passo e a vida gozar”
(Sabe lá o
que é isso, de João Santiago) |
As inúmeras canções reverenciam
agremiações antigas, exaltando velhos carnavais, como nesse
belíssimo frevo-de-bloco, Valores do Passado, de
Edgard Morães, de 1962,
|
“Bloco das Flores,
Andaluzas,
Cartomantes, Camponesas, Após Fum
e o Bloco Um Dia Só.
Os Corações Futuristas, Bôbos em Folia,
Pirilampos de Tejipió,
A Flôr da Magnólia,
Lira do Charmion, Sem Rival;
Jacarandá, a Madeira da Fé,
Crisântemos, Se Tem Bote e
Um Dia de Carnaval.
|
Pavão Dourado,Camelo de
Ouro e Bebé.
Os queridos Batutas da Boa Vista
E os Turunas de São José .
Príncipe dos Príncipes brilhou
Lira da Noite também vibrou
E o Bloco da Saudade,assim recorda,
Tudo que passou”.
|
Reverência sentida, clamativa,
transmite uma profunda emoção na multidão, transportando-a para um
mundo imaginário de antigos carnavalescos famosos como Felinto,
Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon, Raul Morães e Mario Melo, que
faziam com seus “Blocos das Flores”, “Andaluzas” , “Pirilampos”,
“Apóis Fum”, “Vassourinha”, “Pão Duro”, “Dona Santa”, “Batutas” e
“Canindés” os “carnavais saudosos”. Com tanta alma se cantam esses
frevos que parecem partes de um ritual de uma cerimônia de
despedida, nunca concluída.
Alegria e amor, pares constantes dessa
celebração do encanto, simbiose de esperanças, sonhos e desilusões
sob uma máscara ou fantasia personalizam arlequins, pierrôs ou
colombinas, apaixonados e apaixonáveis :
“ Mandei
fazer um buquê prá minha amada,
mas sendo ele de bonina disfarçada.
O brilho da estrela matutina
Adeus menina, linda flor da madrugada...”
(Linda Flor da Madrugada,
de Capiba,1940) |
Tempo de ilusões e de promessas de
amor, endeusamento lírico e feliz da mulher que encanta e seduz :
“ Se eu pudesse lhe daria
O céu, a terra e o mar
Mandaria pratear toda a avenida
Prá ver você passar. (...)
(José Menezes e
Neuza Rodrigues) |
Duração fugaz, mas marcante no coração
e na memória que a melodia retoca:
“Esse amor
de carnaval
Durou uma canção
Foi uma serpentina partida
Que você jogou no salão ...”
(Serpentina
Partida, de Arthur Lima Cavalcanti e Maximiano Campos) . |
Esse cantar de reconhecimento é a
reconstrução idealizada de uma época, a servir de referência para os
dias atuais. Brincar hoje o carnaval é ao mesmo tempo reviver os do
passado remoto ou recente, presentes não apenas pela beleza de suas
melodias e letras, pelo corso e blocos, pela ingenuidade das
fantasias, mas por, neles encontrar uma raiz da identidade da
cultura pernambucana, tão fortemente ameaçada por intrusos ritmos
elétricos de alhures. São tradições, histórias que se confundem com
a origem e um passado mais próximo.
Carregado especialmente pela
classe média, novos blocos se formam e assumem essa quase missão de
conservar uma tradição atualizada. Compreende-se, assim, porque as
canções antigas façam tanto sucesso, mesmo aquelas que já choravam,
em décadas passadas, a ameaça ou o desaparecimento de seus blocos:
“Não deixem morrer Batutas.
Não deixem Batutas morrer.
Batutas tem um passado de lutas
Viva Batutas ! Batutas vai vencer.
|
Que lindo
Bloco
Que lindo é
Nosso Batutas de São José.
Tem tradição, tem glória,
Tem história prá valer
Não deixem Batutas morrer”
( ... )
(Não Deixem
Morrer Batutas, Álvaro Alvim)
|
A alegria e a emoção dessa e de outras
músicas semelhantes são cantadas com tanta vibração e força nos
ensaios, nas ruas e desfiles momescos, que, mais do que nostalgia,
assumem a feição de um grito de afirmação cultural, como acontece
com o grande sucesso da ingênua canção do Bloco Madeira do Rosarinho
( já desaparecido e em processo de reestruturação neste ano),
Madeira que Cupim não Rói, de Capiba, feita em 1963 :
“Madeira do
Rosarinho
Vem à cidade sua fama mostrar
E traz com seu pessoal
Seu estandarte tão original
Não vem pra fazer barulho
Vem só dizer, e com satisfação,
Queiram ou não queiram os juízes
O nosso bloco é de fato campeão
|
E se aqui
estamos,
cantando esta canção
Viemos defender a nossa tradição
E dizer bem alto que a injustiça dói
Nós somos madeira de lei
que cupim não rói.” |
Reinventar a tradição para se tornar tradição não é um caminho desse
renascimento cultural pernambucano? Frevo é cultura popular !
As músicas carnavalescas, sob a forma
de lamento ou protesto, têm um conteúdo social e político, seja
através da sátira aos costumes seja na constatação de mudanças
trazidas pelo progresso. Em Evocação nº 7 - Ruas de Minha
Infância -, feita em 1972, Nelson Ferreira assim se expressa
para mostrar a nova configuração urbanística da cidade do Recife :
“ O meu Recife, cada vez
mais lindo !
Tão diferente, minha gente, é o progresso ...
Por isso, ó ruas de minha infância ,
não mais ouvireis do Bloco a Marcha-regresso...
E, se no mundo, tudo tem seu fim, adeus Rua Augusta....
De Hortas.... Do Alecrim. |
Há temas recorrentes nas canções do
carnaval pernambucano. Mas, o da saudade certamente é um dos que
estão mais presentes em títulos e conteúdos, referindo-se, entre
outros, ao amor, aos blocos passados, ao Recife antigo e, mais
ainda, ao fim do tríduo momesco com uma denotação especial do
substantivo regresso. Como ilustração, citamos apenas os títulos que
se referem diretamente ao tema da saudade : Aurora de Amor,
de Maurício Cavalcanti e Romero Amorim, Cadê Mario Melo, de
Nelson Ferreira, Chora Batutas , de Getúlio Cavalcanti,
Saudade que vem de Você, de Capiba, Saudade , dos
Irmãos Valença, e os belíssimos, A Dor de uma Saudade, de
Edgard Morães :
“A dor de uma saudade
Vive sempre em meu coração
Ao relembrar alguém que partiu
Deixando a recordação, nunca mais
Hão de Voltar os tempos felizes
que passei em outros carnavais (...)” |
e Frevo da Saudade , de
Nelson Ferreira e Aldemar Paiva :
“ Quem tem saudade
Não está sozinho
Tem o carinho
da recordação
Por isso quando estou
Mais isolado
Estou bem acompanhado
Com você no coração (... ) ”. |
Regresso, sempre chorado, é fim de cada
dia de festa, recolhimento dos blocos, das troças, das pessoas com a
esperança de mais um dia :
“ Adeus,
chegou a hora de partir
Adeus, é madrugada vamos recolher
Agora é recordar amores E a tristeza esquecer”
(Vamos
Regressar, de João Santiago) |
ou
“... batidas
de bumbo
são maracatus retardados
que voltam pra casa cansados
com seus estandartes pró ar.
(Frevo
número dois do Recife, do maestro Luis Carlos Vinhas)
|
Fim de carnaval cantando desilusões,
decepções, incertezas e esperanças:
“Falam
tanto que meu bloco está
Dando adeus prá nunca mais sair
E depois que ele desfilar
Do seu povo vai se despedir
No regresso de não mais voltar
Suas pastoras vão pedir:
|
Não deixe não
Que um bloco campeão
Guarde no peito a dor de não cantar
Um bloco a mais
É um sonho que se faz
Nos pastoris da vida singular
É lindo ver
O dia amanhecer
Com violões e pastorinhas mil
Dizendo bem
Que o Recife tem
O carnaval melhor do meu Brasil”
(Último
Regresso , de Getúlio Cavalcanti)
|
Se o carnaval é tradição, beleza, alegria, é porque nele há
encontro de almas , separadas pela distância, mas sempre no coração
do Recife, regresso de quem nunca disse adeus, mas saiu:
“Voltei Recife foi a saudade
que me trouxe pelo braço... ”
A madrugada que não anuncia a aurora de um novo dia de
alegria, mas de uma espada que cortará, em breve, o tempo da
fantasia:
“ Na
madrugada do terceiro dia
chega a tristeza
Vai embora a alegria
Os foliões vão regressando
E o nosso frevo diz adeus à folia
A noite morre, o sol vem chegando
E a tristeza vai aumentando
A gente sente uma saudade sem igual;
Que só termina
Com um novo carnaval ”
(José Menezes e
Geraldo Costa) |
E no espaço conquistado do Recife antigo, lá estão todos em
congraçamento: Batutas de São José, Bloco da Saudade, das Flores,
Amantes da Glória, Bloco das Ilusões, Quero Mais, Nem Sempre Lili
Toca Flauta, Diz que me Ama,porra!, Bloco da Vitória Régia, Pierrot
de São José, Maracatu Nação Leão Coroado, Eu Acho é Pouco, Bloco
Anárquico Armorial Siri na Lata, Maracatu Sol Nascente, Elefante de
Olinda, Bloco Cordas e Retalhos, Cadê Mario Melo e tantos outros
para num choro alegre de despedida cantarem “Oh, quarta-feira
ingrata chega tão depressa só para contrariar ... ”
A literatura e a música têm a propriedade de constituir um
tempo próprio ou até mesmo de aparentar uma exterioridade.
Recordação, lembrança, saudade são situações reveladas expressamente
nos textos datados, mas que, evocados de geração em geração, estão
sempre atualizados, quer como reminiscências quer como interação,
quer como comparação, quer como recomposição de fatos integrais ou
parciais.
O pensamento, em suas várias
constituições, se perpetua ou, mais rigorosamente, pela lembrança e
recordação, pela atualização e recontextualização, apresenta-se como
perene, extratemporal. Entrecruza-se num misterioso labirinto, às
vezes tão presente/ausente, tão passado/presente, tão
futuro/presente, como que num contínuo, ora harmonioso ora
antagônico; ora ontem ora hoje ora ontem-hoje-amanhã, como fênix e
feno.
O “palácio das memórias”, trazendo para cá Santo Agostinho,
faz o tempo ultrapassar os espaços para, num único momento, unir
pretérito-presente-futuro. Como seres vivos que somos,só o presente
tem um espaço concreto, nada mais sendo do que essa “costura”
intrigante e belicosa entre passado e futuro, de que fala Virginia
Wolf, em Orlando. Na sua inquietude para definir a temporalidade do
ego pensante, Hanna Arendt afirma: “o homem vive nesse intervalo
(refere-se ao presente) e o que ele chama de” presente “é uma luta
que dura toda a vida contra o peso morto do passado, que o
impulsiona com a esperança, e contra o medo do futuro (cuja única
certeza é a morte), que o empurra para trás, para "a serenidade do
passado", com a nostalgia e a lembrança da única realidade de que o
homem pode ter certeza”. (1992: 154/155).
Na dialética do tempo, a temporalidade do pensamento é uma
dimensão abstrata, mas real, deslocada de uma realidade presente em
que as suas dimensões parecem formar uma única realidade. Disfarçado
numa linha retilínea, o tempo tem esse caráter fetichizante onde
navega a vida humana. Ela está nele.
(©