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26/02/2004
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Antonio Lacerda - 12/01/2001
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Daniela Mercury: há 5 anos, querendo tornar o trio eletrônico
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Daniela Mercury inventa 'techno galopes' em novo CD
Tárik de Souza
Crítica/disco
Há cinco anos, a
cantora Daniela Mercury investe em seu Trio Techno no carnaval baiano.
Tornar eletrônico o trio elétrico com o povão atrás não é assim fácil. No
novo disco, ela radicaliza de vez e põe o bloco plugado na rua. Carnaval
eletrônico (BMG) exagera: cada uma das doze faixas foi produzida por um
DJ, quase todos de peso. Entre os convocados, um elenco que vai de Memê a
Renato Lopes, de Marcelinho da Lua a Zé Pedro, de Anderson Noise a Bid e
Ramilson Maia. No cardápio, uma mescla de inéditas (algumas da própria
cantora) com antiguidades do porte de A tonga da mironga do Kabuletê
(Toquinho/ Vinicius de Moraes), de 1970 ou Quero voltar pra Bahia
(Paulo Diniz), do mesmo ano, injustiçada canção do exílio de Caetano & Gil
de enorme sucesso. Lenine participa da reestruturação da própria Que
baque é esse o referido ministro Gilberto Gil da ressurreição de uma de
suas primeiras composições, Amor de carnaval (cujo título original
era Decisão), de 1963, a menos transfigurada do disco, ainda
respingando bossa nova. Daniela dá seu grito de carnaval no encarte. ''As
palavras de ordem são criatividade, swing e liberdade. Tudo é
permitido para esses artistas das pistas que, junto com os cantores,
balançam a multidão com 'drum'n'bossas, techno galopes, sambas houses,
sambareggae dubs, ijexás tech houses'', inventa.
A volúpia das
fusões nem sempre engrena. Em Preto e branco (Dudu Fagundes/ Santos
Diniz) a fuzilaria eletrônica (de XRS) rouba a cena e reserva papel de
coadjuvante para a cantora. Quase o mesmo ocorre no eletro-candomblé Ago
Lonan (tradicional, adaptado por Daniela), onde o DJ Anderson Noise
acionando trovoadas percussivas, faz jus ao sobrenome artístico. Já a
aliança de berimbau e eletrônica que retrabalhou a pilantragem Vou batê
pá tu (Orlan Divo/ Arnaud Rodrigues) provoca no mínimo um saudável
estranhamento. Marcelinho da Lua e Rafael Ramos turbinaram o pulso do
maracatu em Que baque é esse. Carlinhos Brown emprestou o nonsense
poético à abrasiva Maimbê Dandá (de refrão adaptado da tradição
afro-brasileira) e em Charles Ylê, de forte modulação percussiva. Uma
Elza Soares gutural baixa em Daniela em O canto da rainha (''sou
mulata/ sou crioula/ branca crioula'') , parceria da cantora com o DJ Memê,
que promove uma espécie de jam eletrônica de toins e plins nos mais de sete
minutos da faixa.
Ainda
aventurando-se como autora, terreno um tanto movediço em seus discos, DM
dispara mensagens no baticum ''house'' de Quero ver o mundo sambar
(''o samba é meu chão/ meu hino nacional/ minha forma de oração/ o meu
carnaval''). Mas entre os baixos e altos deste elevador Lacerda plugado,
sobressai a audácia da cantora ao arriscar a travessia que atinge o ponto
ótimo em Por trás da fantasia (Marcelo Quintanilha). Além da letra de
teor folião semelhante às marchinhas d'antanho, o chicote eletrônico insufla
o velho conceito da música pra pular brasileira (licença, Nelson Motta):
''Essa loira é loira falsa/ é tingida, é paraguaia/ a calcinha tá de calça/
e o cueca tá de saia''.
(©
JB Online)
Daniela Mercury se entrega ao eletrônico
Cantora aproveitou o Carnaval para
divulgar repertório do novo disco, que privilegia o drum'n'bass
SÃO PAULO - Daniela Mercury, a (ex?) matriarca da axé
music, decidiu mergulhar de cabeça na eletrônica, que vinha provando em
doses homeopáticas nos últimos CDs, desde Sol da Liberdade, de 2000. No
recém-lançado Carnaval Eletrônico (BMG), a fusão de samba com reggae, com a
qual se consagrou, e partículas dos dois gêneros, separadamente, surgem
apenas como velas de apoio. A batida predominante é a do drum'n'bass, mas
ainda há faixas puxadas para o house, o techno e o big beat, numa expedição
desenfreada e nem sempre bem-sucedida.
Daniela também já experimentou levar a mistura com os novos elementos para
o trio elétrico, investida que dividiu baianos e turistas nas ruas de
Salvador no ano 2000. Adeptos das correntes mais populares da música
eletrônica dançante - drum'n'bass, techno, house e trance - também têm visto
essa adesão com desconfiança.
Algo parecido ocorre em relação aos cultuadores da MPBzona retrógrada. "A
música brasileira precisa de rompimentos. É preciso coragem e persistência
para isso", afirma a cantora. "Música eletrônica é meio samba de branco.
Dura como o quê. Colocar suingue nisso é um desafio", opina Daniela. "A
graça é que nós brasileiros sabemos fazer isso como ninguém".
Há quem a considere mais oportunista e desorientada que ousada. "Acho que
estou um pouco perdida mesmo, mas estou à procura de um novo caminho,
buscando uma síntese entre os meus domínios do samba e novas linguagens",
reconhece a cantora. De qualquer modo, a exemplo de Elza Soares e Skank, não
deixa de ser audacioso, alguém com carreira estabelecida enveredar por
trilhas inéditas, na contracorrente da engrenagem movida à autofagia,
comodismo e clonagem. (Gal Costa, Roberto Carlos, Jorge Vercilo e Maria Rita
estão por aí.)
À parte o impasse por que passa Daniela, o projeto atual tem bons trunfos.
Entre eles estão as releituras de Vou Batê Pá Tu (Orlandivo/Arnaud
Rodrigues), Que Baque É Esse? (Lenine), A Tonga da Mironga do Kabuletê
(Vinícius de Moraes/Toquinho) e Amor de Carnaval (Gilberto Gil), esta a mais
amena e convencional. Ao lado do belo samba-reggae inédito Charles Ylê
(Carlinhos Brown), são as faixas que trazem as melhores soluções e sinalizam
onde Daniela deve centrar o foco. Foram produzidas respectivamente por Zé
Pedro, Marcelinho da Lua, Ramilson Maia, Bid, Carlinhos Brown e seus
parceiros. Gil e Lenine dão apoio vocal nas músicas deles.
Na parte restante, há menos a cara dela e mais a dos DJs/produtores,
Combinando autorias menos consistentes com a previsibilidade da programação,
há momentos em que sua voz paira como um zumbi intruso. A interminável O
Canto da Rainha (Daniela e Memê) é a amostra-padrão do equívoco, embora a
cantora ressalte a funcionalidade da dita cuja durante o Carnaval. Algumas
só se justificam mesmo para serem reconhecidas na rua, patinando na idéia de
síntese anárquica. É o caso de Ago Lonan (adaptação do folclore
afro-brasileiro), a bem-humorada Por Trás da Fantasia (Marcelo Quintanilha),
que brinca com a tradição do travestismo no Carnaval, e a contagiante Maimbê
Dandá (Carlinhos Brown/ Mateus), hit da folia em Salvador este ano.
Terminar o CD com uma versão de Quero Voltar pra Bahia (Paulo Diniz/
Odibar) é um recado provocativo? "Não, apenas gosto da música e acho
engraçado aquele refrão kitsch, em Inglês", diverte-se a cantora. Daniela
gravou voz, violão e percussão e mandou para os DJs trabalharem em cima. Zé
Pedro e Ramilson tudo bem, mas dá para apostar que um Renato Lopes vá tocar
música brasileira, de uma cantora selada pelo axé, numa pista moderninha? É
mais fácil o CD cair no gosto de europeus e japoneses.
Não se pode esperar unidade de um disco (que não é de remixes) com um ou
dois produtores diferentes a cada faixa. Fora isso, como se sabe, quem gosta
de drum'n'bass não tolera house e vice-versa. E ela misturou tudo.
Os obstáculos não param aí. O maior paradoxo é que quem gosta de música
eletrônica não morre de amores por Daniela e vice-versa. "Essa divisão por
tribos não conta muito para mim", ameniza a cantora. "Sei dessas diferenças,
mas sou transgressora por natureza. Sempre trabalhei com liberdade e nunca
me contentei em fazer algo que já havia feito. Pode parecer petulante, mas
não pretendo fazer desse projeto uma coisa popularzona. Se vender 10 mil
discos já está bom". Está dito.
Serviço
Carnaval Eletrônico, de Daniela Mercury
Gravadora: BMG
Quanto: R$ 24,90
(©
Pernambuco.com)
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Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)
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