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 A folia eclética do festival Recbeat 2004

26/02/2004

 

 

Silvério Pessoa
 

Saiba como foi a nona edição do evento, ocorrido no Recife entre o sábado (21) e a terça-feira (24) de Carnaval

   Antídoto certeiro para quem procura algo mais no carnaval nordestino além de abadás, frevos e mamulengos, o festival Recbeat realizou sua nona edição entre o sábado (dia 21) e a terça-feira (dia 24) de Carnaval, no Recife - mostrando não apenas a boa fase da música pop pernambucana, mas também trazendo convidados internacionais, nomes consagrados no eixo Rio-SP e gratas novidades locais. Estreando em novo ponto da capital de Pernambuco (a Avenida Cais da Alfândega, ao lado do Rio Capibaribe, depois de oito anos instalado na Rua da Moeda), o Recbeat 2004 contou com 24 atrações (três delas internacionais) no palco principal, além de apresentações de dança, bloco carnavalesco e música eletrônica com DJs.

   As novas instalações dobraram a capacidade de público do evento, que teve mais de 20 mil espectadores por noite, tudo com entrada franca. A abertura, no sábado (21), foi com três grupos da mais recente safra pernambucana. O afoxé do Alafin Oyó deu o tom regional e tradicionalista que a noite precisava, sendo complementado logo em seguida pelo contraste criado entre os grupos Astronauta e A Roda. Os primeiros apostam num som repleto de guitarras, pendendo para a psicodelia; já o outro grupo conta com mais malemolência, misturando black music a influências africanas e latinas. Em seguida veio a banda piauiense Narguilé Hidromecânico, também chegada em uma certa lisergia (como o próprio nome já sugere). Caminhando nos passos trilhados pelo manguebeat, o NH cruzou guitarras pesadas, elementos eletrônicos e influências explicitamente regionais.

   As duas atrações principais vieram a seguir. A percussionista e cantora Lanlan, junto a seu grupo Os Elaines, capricharam na apresentação do repertório do álbum Com Ela - um som contundente que revisita a MPB sem muita reverência. Teve direito até a uma citação à Nação Zumbi (Da Lama Ao Caos). Eternos campeões de popularidade no Recife, os heróis locais Devotos terminaram a folia no sábado com muito hardcore - incluindo várias canções novas, do terceiro e recém-lançado CD A Hora da Batalha.

   No domingo de Carnaval, o Recbeat foi aberto às 16h com a passagem do bloco Quanta Ladeira, referência às subidas e descidas das ruas do Recife Antigo. Formado em 1998 pelos figuraças locais Lenine, Lula Queiroga e Zé da Flauta, o bloco se concentrou à entrada do palco do festival, cantando marchinhas e sambas (alguns com suas letras devidamente atualizadas, satirizando assuntos da atualidade brasileira). Por volta das 20h30, a paraibana Eleonora Falcone inaugurou o palco. Alinhada com a nova MPB nordestina de Chico Cesar e Zeca Baleiro, a cantora mostrou o delicado repertório do álbum Apetite (independente, de 2000), acompanhada de uma banda que mesclava intervenções eletrônicas e violoncelos. O local Maciel Salu (ex-Orchestra Santa Massa) entrou a seguir, desenvolvendo um trabalho a primeira vista 100% tradicionalista - com muita rabeca e percussão regional - mas na qual novos caminhos sonoros vão se desenhando, sutilmente.

   Sutileza nunca foi o forte de Rogério Skylab, que, com disco lançado há pouco (Skylab IV) e temas singelos como Bunda Suja ou Meu Pau Fica Duro, conquistou o público na marra e na estranheza. Chegou a descer do palco para cantar Carne Humana no meio do povão. A seguir, o som meio complicado e um tanto experimental do grupo Bernie's Lounge, vindo da Holanda, esfriou um pouco as coisas. A platéia estava mesmo ansiosa pela chegada do Eddie. Fábio Trummer e sua trupe, em excelente fase, tocaram praticamente todo o último álbum, o ótimo Original Olinda Style, e sua mistura de samba-rock, reggae, dub, maracatu & outros bichos. Trummer terminou o show lá pelas duas da manhã, convocando o público a brincar o carnaval nas ruas de Olinda.

   Na segunda-feira, dia mais eclético do festival, Recife conheceu o novíssimo projeto de Silvério Pessoa (ex-Cascabulho e mentor do grupo Bate o Mancá). O Refinaria junta Wilson Farias (do Bate o Mancá), Zezão Nóbrega e Felipe Falcão (Digital Groove), além de Silvério, reprossessando as referências regionais do vocalista com bases eletrônicas. Após o show muito bem recebido, o som instrumental do grupo Tira Poeira (RJ) trouxe muito chorinho e samba tradicional ao palco do Recbeat, servindo como introdução ao blues do norte-americano Kenny Brown - que poderia ter ficado deslocado, mas convenceu a platéia com seu suingue. Também não faltou suingue à Nega Gizza, que fez uma das apresentações mais contundentes desta edição do evento - aplaudida e muito pelo público, que cantou Prostituta, sucesso da rapper, de cor. Para finalizar, uma rápida canja de MV Bill, responsável por revelar a vocalista, completou a festa.

   Fechou a noitada o DJ Dolores, mostrando também seu projeto novo, Aparelhagem. Dispensando a Orchestra Santa Massa e contando com uma formação de rock mais convencional (com Fernando Catatau do Cidadão Instigado e Instituto, na guitarra), Dolores soltava programações e scratches para decorar músicas inéditas e versões novas para faixas de Contraditório? Nem a forte chuva que caiu na cidade durante o show desanimou o público.

   A terça-feira gorda teria o show mais aguardado do Recbeat, o da Nação Zumbi, fechando a noite. Com o maior público do festival até então, o evento começou para valer com o grupo Maracatu Estrela Brilhante de Nazaré da Mata, liderado pelo vocalista e rabequeiro Siba (PE), do Mestre Ambrósio. Depois da bela apresentação do grupo, que caprichou nas fantasias coloridas e no resgate do maracatu rural pernambucano, veio a apresentação do espetáculo de dança Zambo (em homenagem aos 10 anos do estouro do manguebeat). E em seguida o Samba de Coco Raízes de Arcoverde, grupo vindo da mesma cidade do Cordel do Fogo Encantado, mostrou o mais puro samba da zona da mata. Incensado pela crítica, o projeto que junta o grupo paulistano Bojo com a cantora Maria Alcina seguiu-se, trazendo a interessante química entre o vozeirão de Alcina e as nada previsíveis soluções eletroacústicas do quarteto. E mais um convidado internacional - o grupo Abuela Coca, do Uruguai - ainda tocou antes da Nação, misturando rock, rap, referências afro e enchendo (literalmente) o palco de som com seus dez integrantes.

   Fechando o evento e o carnaval recifense, o Nação Zumbi, mais consagrado dos expoentes do manguebeat. Cada vez mais azeitados na interpretação do repertório do quinto (e homônimo) álbum, a NZ incendiou o Recbeat à base de percussão tonitruante, guitarras distorcidas e muito groove. Zeroquatro, do mundo livre S/A, compareceu ao palco para dar uma força extra no show, que juntou números mais recentes (Blunt of Judah, Meu Maracatu Pesa uma Tonelada) com pedradas antigas (Rios Pontes & Overdrives, Da Lama ao Caos). Belo fecho para o evento, que se encaminha com todo o gás para a edição de número 10, ano que vem.

(© Cliquemusic.com.br)

Nação Zumbi coroa o Rec-Beat

Malungos fecham com um show nota 10 o festival no Pólo Mangue, que teve a aprovação total do público no novo endereço do Cais da Alfândega

SCHNEIDER CARPEGGIANI

   O derradeiro dia do Rec-Beat serviu para realçar o óbvio: a supremacia da Nação Zumbi como o principal fenômeno pop surgido no Estado. O mérito da banda não foi só o de abocanhar o maior público dos quatro dias do festival, mas sim por conseguir a façanha mesmo após ter se apresentado no mesmo Bairro do Recife, durante a abertura do Carnaval, na última sexta-feira, no palco do Marco Zero.

   O fenômeno que foi a apresentação da Nação Zumbi colocou à prova o novo endereço do festival, o Cais da Alfândega. Bem mais amplo do que a Rua da Moeda, o espaço precisa ser melhor arquitetado para as próximas edições. O público contou com uma única grande via de acesso para chegar ao palco. Número insuficiente para um evento desse porte. As duas saídas localizadas ao lado da tenda eletrônica se tornaram intransitáveis nos horários de pico.

   E o público que superlotou a apresentação da Nação não foi lá muito prestativo com as atrações anteriores da noite. Durante o desfile de estilistas locais, as modelos eram recebidas na passarela com gritos e rimas impublicáveis por parte da platéia. Nem sempre a proposta de reunir várias possibilidades artísticas em um mesmo espaço é funcional. É como diz o ditado: de boas idéias, o inferno...

   Outra que saiu prejudicada pela reação do publico foi a veterana Maria Alcina, que cantou acompanhada do Bojo. E olha que a ex-jurada de programas de auditório se esforçou: trocou diversas vezes de boás coloridos, soltou declarações de amor, promoveu uma dança que era algo no meio do caminho entre Carmen Miranda e vídeo de ginástica aeróbica. Mesmo com tamanho esforço, foi difícil reverter o mar de apatia à sua frente. Quando questionava se o platéia queria ouvir mais uma, um grande ‘não’ ressoava pelo Cais da Alfândega.

   A frigidez do público no caso de Maria Alcina prejudicou um forte concorrente a melhor show do Rec-Beat. Apesar da imagem quase caricatural que temos dela, sua presença de palco é impressionante – mesmo que muitas vezes pendendo para o estranho/bizarro – e, como trunfo maior, ela ainda tem o Bojo ao seu lado, que lhe confere um acompanhamento eletrônico impecável. No repertório do show, músicas de Karnak, Wado e Jorge Ben. A dobradinha Bojo e Maria Alcina bem que merecia uma outra chance pelo Recife.

   Quem se deu melhor na hora de enfrentar a animosidade da platéia foi a banda uruguaia Abuela Coca. Com uma dezena de músicos no palco, trouxe para o Rec-Beat uma mistura de rock, ritmos latinos e rap, com deliciosa levada pop escrita com letras garrafais em toda parte. Era difícil competir com a espera pela Nação Zumbi, mas os hermanos souberam fazer um bom trabalho – sobretudo porque, apesar da proximidade (apenas geográfica, vale ressaltar), a música contemporânea da América Latina é tão familiar à maioria dos brasileiros quanto o cancioneiro folclórico russo!

   A FORÇA DA TRADIÇÃO – O curioso do último dia do Rec-Beat foi o sistema rodízio do público. Até às 23h, a platéia era formada basicamente por famílias que sabiam prestar atenção no que estava rolando no palco. Depois desse horário, chegaram os (pré-)adolescentes munidos de camisa de preto e de pouquíssima paciência.

   Se esse rodízio prejudicou Maria Alcina/Bojo e o desfile de moda, foi indispensável pelo sucesso das primeira atrações do dia – o Maracatu Estrela Brilhante de Nazaré da Mata, o grupo experimental Zambo e o Samba de Coco Raízes de Arcoverde. Todas elas com um público tão atento quanto qualquer atração com o tal do rótulo ‘comercial’.

   E o foco ficou mesmo nas mãos do Coco Raízes de Arcoverde, que fez uma apresentação marcada pelo repertório do seu segundo CD, Godê Pavão, acompanhado pela platéia tanto nos versos quanto na coreografia. Sem a necessidade do abrigo das FMs, o coco sabe lá ser bem um popstar. E mereceu até o primeiro bis do Rec-Beat 2004.

(© JC Online)


Cena PE oxigena Carnaval em Olinda

   A primeira edição do projeto Cena PE, realizado na Praça da Preguiça, em Olinda, teve um resultado positivo. O novo festival contou com um público diário entre duas mil e cinco mil pessoas, de acordo com a sua produção. A maior platéia ficou nas mãos da Eddie, que também foi uma das principais atrações do Rec-Beat.

   A realização do Cena PE serviu não só para oxigenar musicalmente o Carnaval de Olinda – trazendo outras opções para o público, além de acompanhar orquestras de frevo pelas ladeiras –, como aliviou a responsabilidade que o Rec-Beat carregou sozinho nos ombros até então – a de ser a única vitrine para o trabalho dos grupos locais durante o período carnavalesco.

   Pácua, vocalista do Via Sat, uma das principais atrações da terça-feira do Cena PE, elogiou a iniciativa da Prefeitura de Olinda. “Estamos contando com uma estrutura muito boa para fazer os shows. A Prefeitura do Recife deveria seguir o exemplo da nossa e procurar fazer mais eventos que tenham a ver com a cara da cultura local. Qual a razão de gastar dinheiro com gente como o Eduardo Dusek (uma das atrações dos pólos de Bairro do Recife), quando muitos músicos daqui estão sem tocar?”, questionou.

   O Via Sat aproveitou o Cena PE para mostrar as músicas do seu novo CD, o segundo em 10 anos de banda. De acordo com Pácua, o disco High-Tech Jungle chega às lojas em maio, produzido pelo próprios integrantes da Via Sat. Nesse novo trabalho, os músicos voltam a burilar as possibilidades de misturas entre batidas quebradas eletrônicas e ritmos locais, que marcaram sua carreira.

   Quem também aproveitou a apresentação no Cena PE para mostrar um novo repertório foi o Mira Negra. O grupo está colocando os ajustes finais do seu CD Rap Fusão 1, com um repertório que parte do hip hop para chegar a diversos gêneros, como o reggae. E por falar em reggae, no seu show de terça, o Mira Negra contou com a participação de Valdi Afonjah, em uma versão roots de No woman, no cry.

(© JC Online)


Há fôlego para mais um pólo alternativo

RAFAEL GUERRA

   Multiculturalidade, esta é a tônica do Carnaval recifense. Um número quase surreal de atrações, espalhadas por diversos pólos de folia, fez do período momesco uma festa descentralizada, para todos os ritmos e gostos. No Recife Antigo, os pontos mais tradicionais da farra – o Rec-Beat (agora no Cais da Alfândega), o Marco Zero e a Praça do Arsenal – dividiram a atenção dos foliões com novos eventos independentes.

   Já na semana que antecedeu o Carnaval, a AMP (Articulação dos Músicos Pernambucanos) organizou o Pré-AMP, festival que movimentou a Rua da Moeda, com bandas já consagradas do grande elenco de artistas locais (Bonsucesso Samba Clube, Comadre Fulozinha) e com espaço para o que de mais novo vem sendo produzido na cidade. Aproveitando o grande sucesso do evento, o Movimento Pró-Criança, aliado da AMP, organizou, no Teatro Maurício de Nassau, durante os quatro dias de folia, um despretensioso minifestival, exclusivo para novas bandas, que superou a expectativa dos organizadores. “O público foi bem maior do que o esperado. O interessante é que, mesmo com todas as outras opções, a festa foi um sucesso”, afirmou Sérgio Altenkirch, produtor do Pró-Criança.

   Durante os quatro dias, se apresentaram bandas como Negroove, Santa Fogo, 3 Et’s Records (que também tocaram no Pré-AMP), Rádio de Outono, Superoutro e Chocalhos e Badalos, entre outras. O festival, que foi organizado em cima da hora, ainda não tem nome, mas, provavelmente, passa a acontecer todos os anos. Roger de Renor, agitador cultural e padrinho da cena pernambucana, em uma conversa com um turista paulista, resumiu bem o espírito do Carnaval local, “tem os blocos da rua, o Rec-Beat, o Marco Zero e aqui (no teatro Maurício de Nassau) só tem banda filé”.

(© JC Online)


Rec-Beat ficou melhor

Maior e mais arejado, Pólo Mangue foi um dos destaques do Bairro do Recife, mas requer ajustes na infra-estrutura

   Enquanto os confetes ainda estão espalhados pelo chão, com clima de cansaço e ressaca pela cidade, é momento de fazer a avaliação do que o Carnaval e os pólos de shows trouxeram de melhor, de pior e do que ainda pode ser ajustado. Neste balanço, Antonio Gutierrez, o Gutie, produtor do Rec-Beat, acredita que o resultado final de quatro dias de shows foi bastante positivo. Mas, como se trata do primeiro ano em que o evento se apresenta em novo local, ele naturalmente faz observações quanto à estrutura organizada pela Prefeitura.

   “Conseguimos abrigar melhor o público no Cais da Alfândega. O que precisamos pensar agora é na integração do pólo com a Rua da Moeda e adjacências. Por um descuido de infra-estrutura, foi obstruída uma passagem importantíssima entre esses dois locais, o único acesso era um beco muito estreito. Gostaríamos também de ter trabalhado melhor com o Paço Alfândega, em uma estratégia de marketing mais organizada”, avaliou Gutie.

   Sobre o novo endereço do Rec-Beat/Pólo Mangue, o secretário de Cultura do Recife, João Roberto Peixe, acredita que a mudança trouxe melhoras: “Foi uma atitude corajosa transferir o Rec-Beat para um local mais amplo, arejado e com mais infra-estrutura, permitindo que o festival tivesse público maior, com mais conforto e segurança”, resumiu.

   Apesar de o novo Pólo Mangue estar realmente mais bem-localizado, os quesitos citados pelo secretário do Cultura ainda deixaram a desejar. A multidão que conferiu o Rec-Beat tornava a chegada e saída de alguns shows simplesmente impossível. Além disso, a tenda eletrônica dificultava a passagem de uma das ruas e não havia mureta de proteção no cais, para resguardar os foliões de uma possível queda no Capibaribe. “Essas questões ainda têm que ser aprimoradas para o próximo Carnaval”, disse o secretário.

   Jorge du Peixe, vocalista do Nação Zumbi, banda que participou da abertura do Carnaval do Recife no Marco Zero, sexta-feira à noite, e fechou a folia, na terça-feira, no Rec-Beat, acredita que este ano a coordenação dos pólos esteve melhor que nos anos anteriores. “A organização está mais madura. Agora, temos pessoal de apoio nos bastidores e os pólos descentralizados (a Nação também tocou no Alto Zé do Pinho) tiveram uma infra-estrutura boa”, diz.

(© JC Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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