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29/02/2004
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O dramaturgo pernambucano
Nelson Rodrigues
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Jefferson Lessa
Houve um tempo, mais precisamente
os anos 80, em que encenar Nelson Rodrigues parecia ser fundamental.
Ninguém que se prezasse pronunciava o nome completo do dramaturgo carioca:
chique era dizer “Estou fazendo Nelson” ou “Vou montar um texto do
Nelson”. Cá entre nós, era um tanto irritante. Isso sem contar as inúmeras
versões cinematográficas da obra de Nelson (ooops!), quase sempre
equivocadas, quase sempre mera perda de tempo e dinheiro para todos os
envolvidos, do produtor ao espectador.
Mas — como na canção — tudo passa,
tudo passará. E a fase Nelson passou. Ficaram a qualidade do texto, o
olhar original, a coragem, todos inerentes à sua obra. Agora, uma pequena
jóia baseada em textos de Nelson Rodrigues está em cartaz no Rio. Chama-se
“Traição” e está sendo levada no andar térreo da gafieira Estudantina, na
decadentíssima Praça Tiradentes, centrão da cidade. A escolha de um
“palco” assim já é bola dentro.
Nove atores se revezam nos mesmos papéis
A forma como a diretora Gabriela
Linhares aborda o que se convencionou chamar “universo rodriguiano” também
é um gol de placa. Em cena, nove atores da companhia gaúcha Duplô se
revezam interpretando os mesmos papéis. Como? Dizendo os textos de Nelson
Rodrigues , ipsis literis , do início ao fim. Fragmentando os
contos, eles são, a um só tempo, narradores e personagens diversos.
Os figurinos de Álvaro Simões são,
na verdade, apenas dois: um para os rapazes (que vestem calça de terno,
camisa branca, gravata, colete), outro para as moças (usando blusa
tomara-que-caia, saia rodada). Todos, claro, remetendo aos anos 50, época
em que foram escritas as crônicas “A vida como ela é”.
Por que a Estudantina é um bom
palco? Porque, apesar de algumas modernizações desastrosas no prédio, a
velha gafieira ainda mantém a aura de 50 anos atrás no pé-direito
altíssimo, nas colunas de ferro que sustentam o teto, na fachada do
sobrado. Infelizmente, a péssima acústica do lugar faz com que as
primeiras falas do espetáculo se percam: simplesmente, não dá para ouvir.
Aos poucos, acostuma-se, mas leva um tempo maior do que o desejável.
Técnica lembra em alguns momentos um jogral
Quando os ouvidos finalmente
conseguem entrar no clima, tudo corre às maravilhas. A forma pouco usual
de dizer o texto (muitas vezes, um ator começa a frase e outro termina)
pode parecer fria a princípio, mas é eficiente em deixar que cada um na
platéia crie sua própria história. Em alguns momentos, fez-me lembrar um
jogral, mesmo sabendo que a intenção não era esta. A falta de elementos
cênicos ou música para sublinhar emoções colabora para criar um efeito
parecido ao de se ouvir uma história lida por alguém em voz alta.
Os atores, por sua vez, ao
assumirem múltiplos papéis, criam um jogo de espelhos dos mais
interessantes. Como o espaço é grande e o público participa (de forma
bastante simpática, nada invasiva ou agressiva, é preciso registrar), as
falas são ditas de forma a serem ouvidas por todos. Mas isso nem sempre dá
certo.
Outro porém é a pouca idade da
atriz escolhida, Alexsandra Baum, de apenas 12 anos. A menina é uma graça
e interpreta com uma garra que muitos adultos acabam abandonando ao longo
da carreira. Mas Alexsandra não funciona como ninfeta. Sem correções
políticas tolas, o efeito (intencional) de corrupção de menores em “O
monstro” é descabido. A história, vale lembrar, é sobre um cunhado que se
apaixona pela irmã mais jovem de sua mulher num casarão tijucano onde
convivem os pais das moças, as próprias e ainda o marido da mais velha. Ou
seja, a típica família que se convencionou chamar rodriguiana.
Sem clichês, peça explora o universo rodriguiano
Mas uma menina de 12 anos? Sei
não... Acho que Nelson Rodrigues, tão respeitado em todo o espetáculo,
deve ter estrilado em sua tão visitada tumba.
Noves fora os infortúnios,
“Traição” é uma pequena jóia estrelada por bons atores. E, principalmente,
“Traição” não tenta “fazer Nelson”, “explorar o universo rodriguiano”.
Apenas faz — e faz bem.
(© O Globo)
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Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)
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