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 A crua delicadeza

29/02/2004

 

 

A bailarina Chica Timbó
 

A bailarina cearense Chica Timbó foi aos 17 anos foi primeira-bailarina do Theatro Municipal do RJ e hoje atua como solista do Municipal de Niterói

Karoline Viana
Especial para O POVO

   Qualquer pessoa que já tenha feito balé na vida ouviu essa frase da professora: ''Vocês acham que balé é fácil? Vocês nunca vão dizer que um passo é fácil de fazer. Dói muito, demora muito para conseguir''. Talvez tenha sido pela consciência dessa verdade que a bailarina Chica Timbó conseguiu chegar onde chegou. Nos anos 70, conheceu o balé através da Escola do Sesi, que ensinava música, teatro e dança para os filhos dos operários. Aos dezessete, foi primeira-bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Daí passou pelo balé Stagium e pela companhia do catalão Victor Navarro. Com vinte e sete anos de carreira, Chica hoje é solista do Municipal de Niterói. Preferia o ritmo das companhias, mas precisava garantir uma renda fixa. Ainda assim se considera com sorte: a maioria das bailarinas fica no meio do caminho.

   Como boa cearense, Chica tem planos de voltar. Há oito anos, ela chegou a apresentar para a Secretaria da Cultura do Estado um projeto para a criação de uma companhia de dança para o Ceará. Não teve resposta. Mas nada parece abater essa mulher de fibra, que na delicadeza dos passos e na leveza (apenas aparente) da dança esconde esforço, dificuldades, garra e muita saudade. Chica esteve em Fortaleza na semana passada para ministrar cursos de dança. Misturando o chiado carioca com a fala mansa e adocicada do cearense, ela concedeu esta entrevista na academia Regina Passos.


O POVO - Por que é tão difícil o setor público dar apoio ao balé aqui no Ceará? Será que eles não acreditam na dança?

Chica Timbó - Não sei o que é. Acho que o bailarino aqui é como se fosse um supérfluo. O bailarino não é muito valorizado, o que é uma pena. Um estado grande, que tem um entra e sai de pessoas e um teatro maravilhoso (Theatro José de Alencar). Deveria ter um corpo de baile como no Teatro Castro Alves, em Salvador. E é Nordeste. O que eu sei é que, toda vez que chego aqui dói ver o teatro esvaziado.

OP - Mas você veio de uma família humilde, conseguiu fazer balé através da escola do Sesi e se tornou o que é. Quer dizer, para você o balé não foi supérfluo.

CT - De jeito nenhum. E quando eu vier na outra encarnação, vou ser bailarina de novo! Não tem coisa melhor no mundo, assim como você deve achar sua profissão maravilhosa. Mas acho que me entreguei demais. Tudo é uma grande ilusão, você acha que dança pelo mundo todo, Brasil todo. Dança sim, a Débora Colker. Só que ela consegue pagar bem os bailarinos e viajar o mundo com (um balé de) qualidade, tanto o clássico quanto a contemporâneo. É um trabalho maravilhoso, mas são poucos que tem isso, é uma companhia particular. Já o teatro onde meu irmão (N.R. Chico Timbó, primeiro-bailarino no Theatro Municipal do Rio de Janeiro) está é que eles dão esse apoio. Mas é entre tapas e beijos. Tem vezes que falta grana, tem outras que só tem verba para uma montagem só. E isso, quando estava no Municipal do Rio, eu não gostava. Gostava de dançar todo dia, e o Stagium me dava isso, o Navarro me dava isso. Eu queria a dança mesmo, não só a carteira assinada, aquele pontinho e você dança duas temporadas e fica por isso. Então, dizer que me satisfaço, eu finjo que me satisfaço. E eu vejo no Ceará essas bailarinas dando aula cedinho, isso dói... Porque se não der aula não ganha! E quando dá, monta uma boa escola, porque vem grana. Aí a dança mesmo...

OP - Eu falei da escola do Sesi porque foi uma experiência muito importante, apesar de efêmera. Ela formou alguns dos principais nomes do balé cearense, como o Fernando Mendes...

CT - O Fernando Mendes (foi primeiro-bailarino no Municipal do Rio e na companhia Joyce Ballet, em Nova York. Faleceu em 92, vítima de Aids), o meu irmão, Chico Timbó, quem mais? Teve muitos. Mas a maioria optou pela música. Hoje, nós temos um grande maestro em Varsóvia, que é o José Maria Florêncio, e era um bom bailarino. O Paulo Ângelo, que era o meu ''partner'' na época, virou um grande violinista. Isso tudo veio do Sesi, porque eu também fiz violino. Aí quando começou a calejar aqui (Ela mostra a clavícula esquerda, onde apoiava o instrumento), o Dennis (Dennis Gray veio do Rio para comandar o setor de dança da escola do Sesi, juntamente com a coreógrafa Jane Blauth) começou a ficar com ciúme de dividir a bailarina dele com os outros. Aí ele mandou a gente optar. Optei pela dança. E hoje em dia o Florêncio vem ao Brasil para reger, é a coisa mais linda. Aí abandonou a dança porque optou, foi mais feliz, gosta de lá. E os bailarinos também não querem voltar. Isso é que é triste. O Cláudio (Cláudio Bernardo, cearense radicado na Bélgica. Comanda hoje a companhia de dança As Palavras) falou: ''Não volto! Não volto porque não tem campo de trabalho, Chica''. O Linhares (Linhares Júnior mora na Holanda há doze anos e trabalha na companhia RAZ) esteve aqui dois anos, se não me engano, tentou. Mas não aguentou e voltou. É bem difícil, financeiramente, dançar e trabalhar aqui.

OP - Mas apesar da experiência do Sesi não ter durado, existem escolas como a Edisca, que mostrou que nós temos potencial em balé. E que balé não é uma coisa elitista. Você acha que o balé recupera a auto-estima e a cidadania de uma criança?

CT - É possível, sim. O trabalho que a Edisca faz é lindíssimo. E o cearense é muito talentoso. Ele chega lá (no Sul) e tem o espaço dele. Se ele tiver força de vontade, um pouco de talento... Porque o cearense tem garra. Os coreógrafos sabem que de lá vai sair um fruto, uma pessoa de caráter, boa, que eles podem confiar. E o Dennis foi o pioneiro nisso. Eu estava conversando com algumas pessoas que queriam trazer o Denis e fazer uma homenagem. Porque ele foi um pioneiro.

OP - Você teve aulas com o Dennis Gray?

CT - Durante quatro anos, fui aluna dele. Ele veio do Municipal do Rio para cá, na época em que o doutor Thomaz Pompeu de Souza Brasil Neto criou a escola do Sesi. E foi ele (Thomaz Pompeu) que quis me adotar e me deu tudo na vida. Ele não tinha filha menina, me viu dançando Cinderela, ficou apaixonado. A primeira viagem de avião, as primeiras roupinhas bonitas, tudo foi ele que me deu. Era uma escola de verdade. Mas com a mudança de governo, o doutor Pompeu estava há doze anos sendo reeleito, aí acabou saindo da direção da Confederação Nacional da Indústria. E quando o novo presidente entrou, acabou com o sonho de todo mundo. Acabou mesmo.

OP - Então você acha que essa descontinuidade nas políticas públicas prejudica esses projetos?

CT - Bom (pausa), uns acreditam e outros, não. Uns investem e outros, não. Aí chega o outro, quatro anos depois, e fica muito delicado. E o nosso Ceará não vai para frente, não temos uma companhia para mostrar o Ceará no mundo todo, no Brasil todo, uma companhia de dança clássica e contemporânea. E nós temos talento para isso.

OP - Em 1986, você quase foi bailarina do Fantástico, é verdade?

CT - Mas eu fui. Só não fui mais porque fiquei grávida da Isadora (além desta, Chica tem outra filha, Marcela). E nisso, briguei com o Victor Navarro, ele não queria. ''Bailarina minha não entra na Globo. Você vai queimar seu filme''. Mas eu disse: ''Eu preciso ganhar dinheiro''. Aí fui com raiva dele, fazendo pirraça. Então, passei na audição. E a minha barriga foi crescendo, o cenário não ficava pronto, foi crescendo... Com oito meses, eu estava enorme! Comia tudo que não comia como bailarina. Aí quando fui experimentar a roupinha, ninguém via o biquíni. A barriga cobria tudo. Não pude fazer, eles me indenizaram, ganhei uma boa grana e não queimei meu filme. É engraçado que, na época, a Carolina Ferraz também fez o teste. Ela foi minha aluna em Goiânia. Ela era muito bonita (e ainda é), mas não tinha a técnica que o coreógrafo queria. Então a bichinha chorava pelos cantos. ''Chica, o que é que faço? Eles não vão me botar''. Quando chegou na hora, o Hans Donner ficou tão encantado com a beleza dela que não tava nem aí para técnica.

OP - Uma coisa que me impressionou muito foi quando você e seu irmão fizeram um espetáculo no José de Alencar para pagar o tratamento do Fernando Mendes...

CT - Na época, o Dennis Gray fez um balé chamado Por amor a Fernando. E me machucou muito fazer esse tipo de trabalho para o Fernando. Ele foi meu primeiro namorado. Namoramos durante cinco anos, estudávamos juntos no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, fizemos balé juntos. Aí me ligaram, nós fizemos o trabalho, mobilizamos um bom público. Tivemos até que botar cadeiras extras. E no balé, quando eu dançava com o Chico, tinha uma levantada que eu sentava na mão dele. E comecei a chorar lá em cima e não poderia porque o balançar poderia fazer vir a coreografia toda abaixo. Foi muito perigoso, eu levei uma bronca do Chico. Mas não controlei. Chorei alto, aberto; sem preconceito, sem nada em cena. Não era choro de teatro. Eu saí berrando mesmo.

OP - Você conseguiu completar o espetáculo?

CT - Todinho, fui até o fim chorando. E eu não escutava a música porque batiam muita palma. Eu: ''Chico, onde é que a gente tá?'. E ele: ''Vai pro outro lado''. E eu ia, foi muito forte isso para mim. Não vim para o enterro. Fui fraca mesmo, assumo. Como aconteceu com outra pessoa muito querida, o Robson Rosa. Ele, por não ter tido essa mídia toda, foi esquecido. Mas era tão bom... Era maravilhoso como bailarino. Ele era o solista preferido do Victor Navarro. E o Victor era muito exigente com técnica. Nós não fizemos o mesmo por ele. E ainda tenho que fazer, estou devendo essa homenagem a ele. Quando ele estava doente, ele ia a pé até a academia onde ele dava aula. Não tinha o dinheiro da passagem.

OP - Além de tentar vir para cá, quais são seus planos?

CT - O meu é só ser feliz e ver a felicidade das minhas filhas. E fazer muita gente dançar. Eu não tenho grandes pretensões, não. Quero paz, saúde, e felicidade, que é o mais importante.

(© NoOlhar.com.br)

Arte da dança em debate
Reunião do grupo Corpo En-Cena acontece toda segunda no Derby

   Perceber e entender melhor a dança que se construiu em Pernambuco nas últimas três décadas é um dos intuitos do projeto RecorDança. Além de fazer entrevistas com 30 personalidades que foram importantes para a dança pernambucana, neste período, e estar organizando um acervo que já contém cerca de 800 imagens digitalizadas, o RecorDança está promovendo encontros semanais para se discutir o assunto em um grupo de estudos, batizado de Corpo En-Cena.

   As reuniões, que estão sendo realizadas desde o começo de fevereiro, acontecem sempre nas segundas-feiras, das 18h30 às 21h, numa sala da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no Derby. Um dos objetivos é escrever artigos e ensaios sobre as discussões, que serão veiculados no site do RecorDança, que estará no ar a partir de abril. "A vontade de criar um grupo de estudos era latente e começamos lendo um texto da (crítica de dança) Helena Katz, sobre a fronteira entre o corpo e a arte e outros campos do conhecimento, como a biologia. Também temos uma lista de discussão pela Internet", explica a jornalista e bailarina Valéria Vicente, uma das responsáveis pelo projeto.

   Até o final deste semestre, o grupo pretende estudar os livros O Corpo Como Objeto de Arte, de Henri-Pierre Jeudy e O Corpo Impossível, de Eliane Robert Moraes. "Vamos definindo os temas de acordo com a demanda", especifica Valéria, avisando que o grupo está aberto a pessoas interessadas em discutir questões ligadas à semiótica e às funções e limites do corpo nas artes cênicas e na dança contemporânea. Estão participando Maria Paula Costa Rego, do grupo Grial; Marcelo Sena, de Camaragibe; Fred Nascimento, do grupo Totem; Adriana Farias, do Centro Apolo-Hermilo e outros. "Alguns só participam quando podem, mas o grupo foi pensado para funcionar mesmo sendo volante", diz.

   Patrocinado pelo Funcultura Estadual, o RecorDança já catalogou cerca de 400 verbetes com informações sobre espetáculos e montagens revelantes para a dança em Pernambuco de 1970 a 2000. "Estamos na reta final, terminando o recolhimento de material para organizar as informações. Os vídeos são principalmente da década de 1980", revela Valéria Vicente, que vai apresentar os resultados do projeto, na próxima quinta-feira, na Mostra Rumos Dança, do Itaú Cultural, em São Paulo. O acervo ficará disponível para o público na sala de vídeo-arte da Fundaj. (T.M.)

(© Pernambuco.com)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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