A bailarina cearense Chica
Timbó foi aos 17 anos foi primeira-bailarina do Theatro Municipal do RJ e
hoje atua como solista do Municipal de Niterói
Karoline Viana
Especial para O POVO
Qualquer pessoa que
já tenha feito balé na vida ouviu essa frase da professora: ''Vocês acham
que balé é fácil? Vocês nunca vão dizer que um passo é fácil de fazer. Dói
muito, demora muito para conseguir''. Talvez tenha sido pela consciência
dessa verdade que a bailarina Chica Timbó conseguiu chegar onde chegou. Nos
anos 70, conheceu o balé através da Escola do Sesi, que ensinava música,
teatro e dança para os filhos dos operários. Aos dezessete, foi
primeira-bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Daí passou pelo
balé Stagium e pela companhia do catalão Victor Navarro. Com vinte e sete
anos de carreira, Chica hoje é solista do Municipal de Niterói. Preferia o
ritmo das companhias, mas precisava garantir uma renda fixa. Ainda assim se
considera com sorte: a maioria das bailarinas fica no meio do caminho.
Como boa cearense, Chica tem planos
de voltar. Há oito anos, ela chegou a apresentar para a Secretaria da
Cultura do Estado um projeto para a criação de uma companhia de dança para o
Ceará. Não teve resposta. Mas nada parece abater essa mulher de fibra, que
na delicadeza dos passos e na leveza (apenas aparente) da dança esconde
esforço, dificuldades, garra e muita saudade. Chica esteve em Fortaleza na
semana passada para ministrar cursos de dança. Misturando o chiado carioca
com a fala mansa e adocicada do cearense, ela concedeu esta entrevista na
academia Regina Passos.
O POVO - Por que é tão difícil o setor público dar apoio ao
balé aqui no Ceará? Será que eles não acreditam na dança?
Chica Timbó - Não sei o que é. Acho que o
bailarino aqui é como se fosse um supérfluo. O bailarino não é muito
valorizado, o que é uma pena. Um estado grande, que tem um entra e sai de
pessoas e um teatro maravilhoso (Theatro José de Alencar). Deveria ter um
corpo de baile como no Teatro Castro Alves, em Salvador. E é Nordeste. O que
eu sei é que, toda vez que chego aqui dói ver o teatro esvaziado.
OP - Mas você veio de uma família humilde, conseguiu fazer
balé através da escola do Sesi e se tornou o que é. Quer dizer, para você o
balé não foi supérfluo.
CT - De jeito nenhum. E quando eu vier na
outra encarnação, vou ser bailarina de novo! Não tem coisa melhor no mundo,
assim como você deve achar sua profissão maravilhosa. Mas acho que me
entreguei demais. Tudo é uma grande ilusão, você acha que dança pelo mundo
todo, Brasil todo. Dança sim, a Débora Colker. Só que ela consegue pagar bem
os bailarinos e viajar o mundo com (um balé de) qualidade,
tanto o clássico quanto a contemporâneo. É um trabalho maravilhoso, mas são
poucos que tem isso, é uma companhia particular. Já o teatro onde meu irmão
(N.R. Chico Timbó, primeiro-bailarino no Theatro Municipal do Rio de
Janeiro) está é que eles dão esse apoio. Mas é entre tapas e beijos.
Tem vezes que falta grana, tem outras que só tem verba para uma montagem só.
E isso, quando estava no Municipal do Rio, eu não gostava. Gostava de dançar
todo dia, e o Stagium me dava isso, o Navarro me dava isso. Eu queria a
dança mesmo, não só a carteira assinada, aquele pontinho e você dança duas
temporadas e fica por isso. Então, dizer que me satisfaço, eu finjo que me
satisfaço. E eu vejo no Ceará essas bailarinas dando aula cedinho, isso
dói... Porque se não der aula não ganha! E quando dá, monta uma boa escola,
porque vem grana. Aí a dança mesmo...
OP - Eu falei da escola do Sesi porque foi uma experiência
muito importante, apesar de efêmera. Ela formou alguns dos principais nomes
do balé cearense, como o Fernando Mendes...
CT - O Fernando Mendes (foi
primeiro-bailarino no Municipal do Rio e na companhia Joyce Ballet, em Nova
York. Faleceu em 92, vítima de Aids), o meu irmão, Chico Timbó, quem
mais? Teve muitos. Mas a maioria optou pela música. Hoje, nós temos um
grande maestro em Varsóvia, que é o José Maria Florêncio, e era um bom
bailarino. O Paulo Ângelo, que era o meu ''partner'' na época, virou um
grande violinista. Isso tudo veio do Sesi, porque eu também fiz violino. Aí
quando começou a calejar aqui (Ela mostra a clavícula esquerda, onde
apoiava o instrumento), o Dennis (Dennis Gray veio do Rio para
comandar o setor de dança da escola do Sesi, juntamente com a coreógrafa
Jane Blauth) começou a ficar com ciúme de dividir a bailarina dele
com os outros. Aí ele mandou a gente optar. Optei pela dança. E hoje em dia
o Florêncio vem ao Brasil para reger, é a coisa mais linda. Aí abandonou a
dança porque optou, foi mais feliz, gosta de lá. E os bailarinos também não
querem voltar. Isso é que é triste. O Cláudio (Cláudio Bernardo,
cearense radicado na Bélgica. Comanda hoje a companhia de dança As Palavras)
falou: ''Não volto! Não volto porque não tem campo de trabalho, Chica''. O
Linhares (Linhares Júnior mora na Holanda há doze anos e trabalha na
companhia RAZ) esteve aqui dois anos, se não me engano, tentou. Mas
não aguentou e voltou. É bem difícil, financeiramente, dançar e trabalhar
aqui.
OP - Mas apesar da experiência do Sesi não ter durado, existem
escolas como a Edisca, que mostrou que nós temos potencial em balé. E que
balé não é uma coisa elitista. Você acha que o balé recupera a auto-estima e
a cidadania de uma criança?
CT - É possível, sim. O trabalho que a
Edisca faz é lindíssimo. E o cearense é muito talentoso. Ele chega lá (no
Sul) e tem o espaço dele. Se ele tiver força de vontade, um pouco de
talento... Porque o cearense tem garra. Os coreógrafos sabem que de lá vai
sair um fruto, uma pessoa de caráter, boa, que eles podem confiar. E o
Dennis foi o pioneiro nisso. Eu estava conversando com algumas pessoas que
queriam trazer o Denis e fazer uma homenagem. Porque ele foi um pioneiro.
OP - Você teve aulas com o Dennis Gray?
CT - Durante quatro anos, fui aluna dele.
Ele veio do Municipal do Rio para cá, na época em que o doutor Thomaz Pompeu
de Souza Brasil Neto criou a escola do Sesi. E foi ele (Thomaz Pompeu)
que quis me adotar e me deu tudo na vida. Ele não tinha filha menina, me viu
dançando Cinderela, ficou apaixonado. A primeira viagem de
avião, as primeiras roupinhas bonitas, tudo foi ele que me deu. Era uma
escola de verdade. Mas com a mudança de governo, o doutor Pompeu estava há
doze anos sendo reeleito, aí acabou saindo da direção da Confederação
Nacional da Indústria. E quando o novo presidente entrou, acabou com o sonho
de todo mundo. Acabou mesmo.
OP - Então você acha que essa descontinuidade nas políticas
públicas prejudica esses projetos?
CT - Bom (pausa), uns
acreditam e outros, não. Uns investem e outros, não. Aí chega o outro,
quatro anos depois, e fica muito delicado. E o nosso Ceará não vai para
frente, não temos uma companhia para mostrar o Ceará no mundo todo, no
Brasil todo, uma companhia de dança clássica e contemporânea. E nós temos
talento para isso.
OP - Em 1986, você quase foi bailarina do Fantástico,
é verdade?
CT - Mas eu fui. Só não fui mais porque
fiquei grávida da Isadora (além desta, Chica tem outra filha, Marcela).
E nisso, briguei com o Victor Navarro, ele não queria. ''Bailarina minha não
entra na Globo. Você vai queimar seu filme''. Mas eu disse: ''Eu preciso
ganhar dinheiro''. Aí fui com raiva dele, fazendo pirraça. Então, passei na
audição. E a minha barriga foi crescendo, o cenário não ficava pronto, foi
crescendo... Com oito meses, eu estava enorme! Comia tudo que não comia como
bailarina. Aí quando fui experimentar a roupinha, ninguém via o biquíni. A
barriga cobria tudo. Não pude fazer, eles me indenizaram, ganhei uma boa
grana e não queimei meu filme. É engraçado que, na época, a Carolina Ferraz
também fez o teste. Ela foi minha aluna em Goiânia. Ela era muito bonita (e
ainda é), mas não tinha a técnica que o coreógrafo queria. Então a bichinha
chorava pelos cantos. ''Chica, o que é que faço? Eles não vão me botar''.
Quando chegou na hora, o Hans Donner ficou tão encantado com a beleza dela
que não tava nem aí para técnica.
OP - Uma coisa que me impressionou muito foi quando você e seu
irmão fizeram um espetáculo no José de Alencar para pagar o tratamento do
Fernando Mendes...
CT - Na época, o Dennis Gray fez um balé
chamado Por amor a Fernando. E me machucou muito fazer esse
tipo de trabalho para o Fernando. Ele foi meu primeiro namorado. Namoramos
durante cinco anos, estudávamos juntos no Colégio Nossa Senhora de Lourdes,
fizemos balé juntos. Aí me ligaram, nós fizemos o trabalho, mobilizamos um
bom público. Tivemos até que botar cadeiras extras. E no balé, quando eu
dançava com o Chico, tinha uma levantada que eu sentava na mão dele. E
comecei a chorar lá em cima e não poderia porque o balançar poderia fazer
vir a coreografia toda abaixo. Foi muito perigoso, eu levei uma bronca do
Chico. Mas não controlei. Chorei alto, aberto; sem preconceito, sem nada em
cena. Não era choro de teatro. Eu saí berrando mesmo.
OP - Você conseguiu completar o espetáculo?
CT - Todinho, fui até o fim chorando. E eu
não escutava a música porque batiam muita palma. Eu: ''Chico, onde é que a
gente tá?'. E ele: ''Vai pro outro lado''. E eu ia, foi muito forte isso
para mim. Não vim para o enterro. Fui fraca mesmo, assumo. Como aconteceu
com outra pessoa muito querida, o Robson Rosa. Ele, por não ter tido essa
mídia toda, foi esquecido. Mas era tão bom... Era maravilhoso como
bailarino. Ele era o solista preferido do Victor Navarro. E o Victor era
muito exigente com técnica. Nós não fizemos o mesmo por ele. E ainda tenho
que fazer, estou devendo essa homenagem a ele. Quando ele estava doente, ele
ia a pé até a academia onde ele dava aula. Não tinha o dinheiro da passagem.
OP - Além de tentar vir para cá, quais são seus planos?
CT - O meu é só ser feliz e ver a felicidade
das minhas filhas. E fazer muita gente dançar. Eu não tenho grandes
pretensões, não. Quero paz, saúde, e felicidade, que é o mais importante.