Sem registro fonográfico
adequado, trilhas de curtas-metragens locais acabam sendo desperdiçadas
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Quem
assistiu em janeiro ao curta Porcos Corpos, de Sérgio Oliveira, se encantou
com a bonita música cantada pela atriz Alessandra Negrini nos créditos
finais. A canção foi a única aproveitada pelo cineasta das quatro
composições feitas por Otto exclusivamente para a produção. As outras
ficaram de fora porque a intenção do diretor era manter um clima silencioso
e tenso nas cenas. Oliveira não sabe o que Otto vai fazer delas agora e nem
sabe se a que entrou um dia vai ser lançada. Esse tipo de dúvida em relação
ao destino das trilhas sonoras dos curtas-metragens pernambucanos é
totalmente corriqueira e muita coisa boa vem sendo esquecida e até
desperdiçada. Como filmar já é complicado, fica ainda mais difícil para os
produtores tentar batalhar pelo lançamento de discos com as canções-tema.
Um dos casos mais lamentáveis é o do curta
Recife de Dentro Pra Fora, de Kátia Mesel. Para o filme, Geraldo Azevedo
transformou em música o poema O Cão Sem Plumas, de João Cabral de Mello
Neto, que é interpretado pelo cantor junto com Elba Ramalho e Zé Ramalho,
acompanhados de músicos da Nação Zumbi. Kátia lembra que quis muito lançar
em CD a canção, que ficou com cerca de 15 minutos, mas deixou a tarefa nas
mãos de Geraldo, responsável pelos direitos autorais da versão. Zé Ramalho
também gostou muito do resultado e, quando veio ao Recife no ano passado,
manifestou o desejo de levar adiante a idéia.
Segundo Geraldo Azevedo, o projeto de gravar O
Cão Sem Plumas surgiu antes do filme. Na época, ele pensou realmente em
lançar um disco, mas achou melhor deixar para depois, pois no curta não pôde
usar o poema inteiro. "Ainda penso em gravar o texto todo. É uma idéia que
eu tenho desde o início da carreira. Foi por isso que Kátia me chamou. Não é
minha prioridade no momento, mas continua nos meus planos."
A única trilha sonora de curta-metragem lançada
nas lojas até agora em Pernambuco não só rendeu um bom disco como comprovou
a urgência desse tipo de iniciativa. Enjaulado: Música Para Ouvir Trancado,
de Kleber Mendonça Filho,trazia bandas como Matalanamão, Câmbio Negro e
Eddie e ainda registrou e pôs à disposição do público pela primeira vez
gravações de DJ Dolores e Otto, que hoje em dia são estrelas nacionais. Otto
cedeu ao curta a primeira versão de TV a Cabo, que depois se tornaria uma
das canções mais famosas de seu primeiro álbum Samba pra Burro. Dolores
ainda compôs temas para o longa-metragem O Rap do Pequeno Príncipe Contra as
Almas Sebosas, que também trazia participações de Faces do Subúrbio e
Racionais MCs, mas nunca virou disco, ao contrário das trilhas longas
Amarelo Manga e Baile Perfumado, bastante elogiadas.
Outras músicas feitas para filmes foram
reaproveitadas para os discos próprios dos artistas. Otto e Dolores também
estiveram juntos na canção O Pedido, feita para o curta-metragem homônimo
dirigido por Adelina Pontual. Com o refrão "Eu já perdi você de vista", a
canção foi também incluída no primeiro CD demo de Dolores e ganhou uma nova
versão em Condom Black, segundo álbum de Otto. Também de Adelina é o curta
Cachaça, que termina com Terra Escura, depois incluída no primeiro disco da
Mundo Livre S/A.
Mas nem todas as músicas feitas para os filmes
têm essa sorte. Curtas como Tejucupapo (trilha de Naná Vasconcelos),
Conceição (temas instrumentais de Antônio Pinto, de Cidade de Deus), Simião
Martiniano (Dolores) e Texas Hotel (Nação Zumbi), entre outros, dificilmente
vão ter suas canções tocadas em algum outro lugar. Na opinião de João
Júnior, da REC Produtores Associados, mesmo que nem todos rendam um disco
inteiro, pelo menos uma coletânea seria interessante. Ele lembra que a
questão é delicada porque envolve direitos autorais das composições e dos
músicos. "Seria necessário mobilizar uma equipe de produção para viabilizar
isso. Mas é uma ótima idéia."